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Estratégia iraniana prevê rápida substituição de lideranças martirizadas na guerra, diz especialista

operamundi.uol.com.br By Victor Farinelli 2026-03-18 751 words
Estratégia iraniana prevê rápida substituição de lideranças martirizadas na guerra, diz especialista

Segundo acadêmico Bruno Lima Rocha, 'cálculo sobre perdas de primeiro escalão estava feito, e tendência é ter geração intermediária chegando ao poder muito rápido'

Apesar do assassinato do chefe do Conselho Supremo de
Segurança Nacional do Irã, Ali Larijani, durante novo ataque lançado por Israel e pelos Estados Unidos nesta terça-feira (17/03), o Irã está preparado para preservar sua estrutura de governo e sua estratégia de guerra, substituindo rapidamente não só esse alto comandante como outros que foram vitimados no mesmo bombardeio.

Essa é a avaliação do cientista político Bruno Lima Rocha, que também é jornalista da HispanTV Brasil e professor de Relações Internacionais, além de estudioso da dinâmica geopolítica da Ásia Ocidental.

Segundo Lima Rocha, "é evidente que há um problema com o martírio de figuras como Larijani, com muita experiência e muito trânsito interinstitucional, mas a sabedoria iraniana para esta guerra e o preparo de longo prazo já levava em conta a perda de parte de sua liderança, de seu primeiro escalão e a necessidade de reposição".

"Estamos falando da geração que fez a chamada Sagrada Resistência durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), e ela é muito grande. Várias dessas figuras ocupam postos-chave no aparelho de Estado", acrescentou o cientista político.

O jornalista conta que "além de simplesmente repor uma figura de comando, o que é importante e há gente em condições para isso, o que o Irã tem feito é aumentar a formação de pessoas capazes de chegar a instâncias de poder. Por exemplo, mesmo com a indicação do novo líder da República, o Conselho Interno de Liderança continua operando".

"É muito importante, em tempos de guerra, ter essa capacidade de triangular. O Irã indicou um novo negociador-chefe para, num futuro, voltar a ter essa querela sobre a questão nuclear ou do desarmamento iraniano, e também uma nova liderança para a ala militar, ou seja, para o poder civil sobre a ala militar, que era o papel do Larijani", comentou o analista político.

Lima Rocha também lembra que algo semelhante acontece em junho de 2025, após a chamada Guerra dos 12 Dias, na qual o Irã também precisou reagir a uma iniciativa militar conjunta de Israel e Estados Unidos.

"O cálculo da perda de pessoas muito experimentadas de primeiro escalão estava feito, e agora, se os Estados Unidos não se retirarem e virar uma guerra crônica, a tendência é ter uma geração intermediária que vai chegar a postos de poder muito rápido, até pela perda de baixas na guerra. Mas insisto, tudo isso já estava meio planejado", completou.

Possíveis infiltrações

Sobre a possibilidade de a espionagem israelense conseguir informações de dentro do aparato governamental iraniano, o que poderia estar facilitando o trabalho feito por Tel Aviv e Washington para eliminar lideranças importantes da República Islâmica, Lima Rocha ressalta a dificuldade de Teerã em impedir essa infiltração.

"O Irã é muito grande, pluriétnico e multifacético. Isso não quer dizer que não há lealdade para com o Estado Nacional, longe disso, mas tem muita penetração, é um país muito grande, com áreas muito ermas, e não é tão difícil chegar perto. Ademais, enfrenta dois inimigos muito poderosos, que são Israel e os Estados Unidos", lembrou o acadêmico.

Ainda assim, o especialista ressalta que "a contrainteligência no Irã opera muito rápido", e dá como exemplo o fato de que horas depois da morte de Larijani cerca de 500 pessoas, com acusações graves de espionagem.

"De dezembro para cá já foram apreendidos mais de dois mil kits da Starlink e a tendência é que os controles internos sejam cada vez mais apertados, para não permitir que essas coisas ocorram", adicionou.

Opinião pública

Com relação ao impacto na opinião pública pelas mortes de grandes lideranças do país, o jornalista do canal HispanTV Brasil defende que esses casos reforçam o sentimento nacionalista da população e salienta que "na cultura do sacrifício, na cultura da defesa do território, o martírio é um prêmio, é visto como um ato de honra".

"O próprio líder supremo (Ali Khamenei) não quis sair do seu local de trabalho no primeiro ataque, aceitou o seu destino. No caso de Larijani, ele estava marchando, em um ato público, na última sexta-feira (13/03), caminhando junto com todo mundo, desafiando o inimigo. Isso pode ter um preço a se pagar, mas é importante essa imagem da liderança que é forjada no seio do povo, pois mostra que o país não é uma tirania institucionalizada, como o Ocidente tenta mostrar", enfatizou Lima Rocha.

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