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O receio que a Lava Jato plantou em Lula, por Luís Nassif

jornalggn.com.br By Luis Nassif 2026-03-18 689 words
Lula não é um homem de recuos fáceis. Basta observar como enfrentou a Lava Jato — a exposição pública de sua família, as campanhas de humilhação sistemática, os anos de prisão — sem jamais se dobrar. Não é a coragem que lhe falta.

O que lhe falta, hoje, é a capacidade de conviver com o imprevisível. E esse déficit, instalado pelo trauma de uma perseguição judicial sem paralelo na história democrática brasileira, compromete seu projeto de governo.

O padrão que não foi aplicado a ele

Para entender o que aconteceu com Lula, é preciso comparar com seus pares diretos — os presidentes brasileiros contemporâneos tratados segundo o padrão normal da república.

Quando Fernando Henrique Cardoso deixou a presidência, saiu de um apartamento classe média na rua Maranhão e foi morar em um imóvel de alto padrão na rua Rio de Janeiro, declarado por valor equivalente à metade do preço de mercado, segundo moradores do próprio prédio. O vendedor era um banqueiro que operava contas de campanha do PSDB. Sua primeira palestra remunerada foi para a Ambev — empresa que havia sido diretamente beneficiada pela aprovação, pelo CADE, da fusão entre Brahma e Antarctica durante seu governo — com cachê de 150 mil dólares. Nenhum inquérito. Nenhuma manchete. Nenhum perito avaliando o apartamento.

FHC fundou depois o Instituto Fernando Henrique Cardoso, com instalações de alto padrão bancadas por patrocinadores privados. Também não houve investigação sobre eventuais sobreposições entre os financiadores do instituto e os beneficiados por decisões de seu governo.

Esses fatos não são acusações. São registros públicos que nunca foram tratados como suspeitos — porque, no padrão republicano vigente à época, não havia razão para isso. Políticos que deixam o poder constroem legados, dão palestras, recebem patrocínios. É assim em todo o mundo democrático: Bill Clinton, Tony Blair, Barack Obama fizeram o mesmo.

Quando chegou a vez de Lula, o padrão mudou. Palestras viraram propina. Um sítio em Atibaia que ele frequentava, mas não possuía, virou prova de enriquecimento ilícito. A decisão de uma empresa de telefonia de instalar uma antena próxima ao imóvel chegou a ser mencionada em peças judiciais. O triplex do Guarujá — cujo contrato de compra nunca foi assinado por Lula — rendeu uma condenação que o impediu de concorrer à presidência em 2018.

O trauma e suas consequências políticas

É nesse contexto que se entende o que aconteceu com Lula. A Lava Jato não apenas o prendeu — instalou nele um mecanismo de defesa que até hoje governa suas escolhas políticas.

De volta à presidência, Lula optou pelo caminho da máxima previsibilidade. Escolheu o presidencialismo de coalizão em sua forma mais clássica e aguda — distribuição de cargos em ministérios e estatais em troca de apoio parlamentar, o modelo que FHC consolidou e que o PT sempre criticou, mas que oferece algo que Lula passou a valorizar acima de quase tudo: controle. Nada de improviso. Nada que escape ao cálculo.

O problema é que o imprevisível não se deixa conter por arranjos políticos. E Lula, que sobreviveu ao que haveria de mais brutal na política brasileira, parece ainda não ter encontrado uma forma de governar que incorpore o risco em vez de apenas tentar eliminá-lo.

A prova mais recente veio de fora de qualquer trama política. O Estadão publicou como manchete a sugestão de que a viagem do filho de Lula à Espanha poderia ser uma tentativa de fuga diante do escândalo do INSS — para depois registrar, no corpo da própria matéria, que a viagem havia sido planejada um ano antes de qualquer escândalo. A sequência é reveladora: o desmentido estava no texto, mas o dano estava no título. Uma não-notícia tornou-se fato político.

Lula pode argumentar, com razão, que a perseguição não cessou. Mas governar em estado permanente de defesa tem um custo. A cautela que o protege também o limita. E o Brasil de 2026 exige mais do que previsibilidade — exige liderança capaz de assumir riscos calculados.

O homem que enfrentou a Lava Jato de cabeça erguida ainda está lá. A questão é se ele vai conseguir, desta vez, governar sem o peso do receio que ela deixou.

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