Por que a violência já não comove tanto? | Outras Palavras
Da fome brutal que avança no mundo a barbáries como em Gaza, os dados perdem força diante de narrativas das mídias e elites. Manipulação política e preconceito explicam a insensibilidade enviesada. Pode a educação para a cidadania restaurar laços de solidariedade?
Publicado 18/03/2026 às 19:49
Os números são representações gráficas de uma quantidade, que é uma "propriedade que existe em magnitude e acumulação e que designa tudo aquilo que pode ser medido ou contado, que é suscetível de aumentar ou diminuir e que possui uma substância e forma". E também "está entre as classes básicas da classificação dos objetos, a par com a qualidade, a substância, a mudança e a relação" (Wikipedia). São importantes para a estatística, o campo da matemática que relaciona fatos e números, em que há um conjunto de métodos que possibilita coletar dados e analisá-los, possibilitando realizar alguma interpretação deles, trabalhando com objetividade. É muito utilizada em atividades públicas e privadas, como programas de governo, políticas públicas, trabalhos científicos, pesquisas em vendas, de mercado, eleitorais e outras formas de apresentação de dados que procuram, de modo geral, demonstrar a relação entre fenômenos, facilitar sua análise e fazer compreender melhor algum problema.
No cotidiano, quando deparamos com fatos e notícias, notamos que muitas vezes os dados numéricos perdem importância, sendo relativizados por percepções que podem ser, ou não, resultado de ação de pessoas ou grupos formadores de opinião. Podemos associar esta observação com casos de violência. Qual tipo de violência chama mais a atenção? Quais são os motivos para que fatos violentos envolvendo algumas poucas pessoas atraiam mais interesse e causem maior comoção em comparação com fatos atingindo grande número de pessoas? Representariam perda de significado dos números de vítimas?
A resposta pode abranger algumas variáveis: condição social das vítimas, identificação com grupos sociais, país ou nação, tipo de audiência, preconceitos arraigados, entre outras. Ademais, a forma de apresentação dos fatos e de notícias pela grande mídia e pelas redes sociais pode mascarar preconceitos dos divulgadores e seus canais quanto ao conteúdo dessas informações, aplicando seus valores ou interesses de grupos que representam, ao desqualificar as vítimas de violência envolvida, conforme o pertencimento destas a grupos, como classe social, econômica, nacional, étnica ou política. O próprio público receptor da informação ou da notícia pode assimilar os dados sobre violência de formas diversas.
As formas de violência estão contempladas na ideia do triângulo da violência formulada por Johann Galtung, sociólogo, matemático e pesquisador norueguês, cujo gráfico aparece a seguir.
Galtung posicionou a violência direta no vértice superior e nos outros as formas indiretas de violência: a estrutural e a cultural. A violência direta é fato visível; violência estrutural é um processo, e a violência cultural é permanência.[i] Apresenta a violência direta abarcando também a manifestação de violências estrutural e cultural, subjacentes, não visíveis e mais latentes.
Segundo Galtung, é a identificação do sujeito da violência que diferencia a violência pessoal da violência estrutural. Esta última é uma forma indireta e mais disfarçada de violência, relacionada com a injustiça social, consequência das desigualdades sociais, da exploração, da opressão, tendo raízes na distribuição desigual dos recursos nas sociedades ou entre as sociedades. A violência cultural (1990) é ainda uma forma mais profunda e indireta e tem como função legitimar as demais formas de violência, direta e estrutural, normalizando sua aceitação, por meio de linguagem, mitos, religião, patriarcado, colonialismo, preconceitos e demais expressões simbólicas da existência humana.[ii]
Aprofundando na distinção entre essas categorias de violência e respectivas abrangências, pode-se apreender melhor as possíveis causas da relativização pelo público, receptor das informações, dos números de vítimas de atos de violência diversos e a percepção desses fatos.
Tomando como exemplo a fome, ela pode ser analisada como violência estrutural por resultar de um processo de ações econômicas e políticas estruturantes da sociedade nacional e/ou global, sob uma visão micro ou macro a depender do universo do estudo a ser realizado. Também pode ser vista como violência cultural, ao consolidar e legitimar as causas para a existência da fome que decorrem da forma de colonialismo da agricultura hegemônica do agronegócio no Brasil, os mitos relacionados aos benefícios do agronegócio para o país apresentados pela grande mídia, o patriarcado dominante no modelo do agronegócio, e toda a falácia da narrativa dos defensores dessa forma de agricultura como solução para a fome e que criou e estimulou preconceitos contra outras formas de agricultura, como a familiar, entre outras, e contra os defensores da reforma agrária no Brasil, que tem caráter inclusivo da população. Desta maneira, os grandes meios de comunicação contribuíram para naturalizar como questão individual o fenômeno da fome, que tem causas sociais. Desta maneira, a fome não é percebida como violência direta e nem atrai comoção pública, embora afete fisicamente a vítima do fenômeno.
A identificação das duas formas de violência, estrutural e cultural, requer o aprofundamento na raiz dos problemas analisados e um nível de interesse social mais amplo das pessoas, o que, por sua vez, depende da evolução da educação dos indivíduos na sociedade para a cidadania, onde se interioriza a relação intrínseca entre os problemas individuais e os coletivos.
A violência direta afeta fisicamente alguma pessoa ou grupo de pessoas. No cotidiano, ela é mais visível e mais perceptível, sendo tratada como questão individual pelos órgãos de segurança. O aumento do número de casos registrados dessa forma de violência é divulgado pela mídia e facilmente absorvido pela população, enquanto os estudos existentes sobre suas causas têm pouca divulgação para o público, podendo estar associados à violência estrutural acompanhada pela violência cultural.
É reconhecido que o máximo de violência direta, por afetar a segurança física de grande número de pessoas, é representado pelas guerras, que têm presença marcante no atual cenário mundial. A guerra pode ser definida como a luta ou enfrentamento com utilização de armas bélicas e atuação de tropas regulares entre dois ou mais grupos de pessoas, por causa de antagonismos e rupturas graves e recíprocas e que traz como resultado uma ruptura das relações normais entre eles (Mapfre).[iii]Na base, a guerra constitui a ruptura das relações entre os antagonistas que não conseguiram resolver disputas por meios pacíficos que podiam ter fundamento em questões de violência estrutural e cultural.
A denominação empregada para a guerra sofre nuances conforme os interesses daqueles que apresentam dados sobre essa forma extrema de violência. Assim, o termo para o fato pode ser empregado de maneira errada, na maioria das vezes de forma proposital, para atribuir valor depreciativo a algum contendor. Por falta da neutralidade necessária, a grande imprensa utiliza artifícios e contribui para alienar a opinião pública sobre as causas.
O próprio estímulo às guerras contém interesses ocultos que contribuem para reforçar determinadas informações, pouco verdadeiras, direcionadas para a aceitação do fato. Em vídeo sobre a guerra dos Estados Unidos no Afeganistão, o jornalista Julian Assange afirmava que o objetivo da guerra sem fim naquele país não visava dominar totalmente o Afeganistão, mas seria uma forma de usar o ataque a esse país para fazer lavagem de dinheiro das verbas usadas fora do controle orçamentário dos EUA e fazer retornar esse dinheiro com segurança para algum grupo transnacional.[iv] Em outra manifestação, o criador do Wikileaks expõe que a forma da concentração na mídia, a sua dependência de verbas de corporações e a lógica geopolítica dos grandes centros de poder geram desinformação estrutural, valendo-se até de mentiras e de marcos de narrativas, de silêncios estratégicos com interesses diversos na hierarquização de apresentação dos acontecimentos. A informação passou a ser um instrumento de controle político e econômico, em especial em contextos de guerra, de conflitos internacionais e na disputa por recursos. Considera ele que a compreensão dessa forma de funcionamento constitui a chave para analisar de maneira crítica o papel da imprensa, a liberdade de expressão e o direito real à informação.[v]
Johann Galtung, ainda em 1958, havia se insurgido contra o círculo vicioso da "naturalização da guerra", vinculada, desde a Guerra Fria, com a corrida armamentista de prontidão para a guerra e do poderio militar autojustificado pelos burocratas da linha de "defesa", que se limitava aos "estudos de segurança", objeto de suas críticas.[vi]
É importante considerar essas posições como abordagem crítica para afastar as formas automáticas de absorver as notícias e contribuir para gerar percepções sobre os fatos sob a perspectiva de manutenção da paz. Para realizar esse objetivo, é necessário entender a dimensão e o nível de expressão dos três tipos de violência gaultianos geradores de conflitos, que cobram medidas promotoras de transformações nas causas e nas contradições estruturais e culturais em suas bases mais profundas, e que não se limitam apenas à cessação dos efeitos diretos das violências.[vii]
A distância física dos acontecimentos violentos não parece um obstáculo para a informação por conta da globalização da tecnologia das grandes empresas de comunicação, apesar do uso de seus filtros nas divulgações, que alteram os fatos e suas causas. Portanto, sejam fatos próximos ou distantes, a percepção das pessoas sobre a violência depende do nível de abstração dos interesses pessoais para sentir solidariedade e empatia com as vítimas fora do contato e de conhecimento diretos.
Em síntese, a educação para a cidadania, na busca pela justiça social e pela paz, constitui elemento fundamental para fortalecer os laços de solidariedade entre os seres humanos em suas múltiplas diversidades, num mundo capitalista, complexo e globalizado, onde os grupos detentores do poder da tecnologia da comunicação filtram as notícias, por interesses diversos, e impactam negativamente na percepção dos números elevados de vítimas das diversas formas de violência espalhadas pelo Brasil e pelo mundo.
Notas
[i] PUREZA, José Manuel. O desafio crítico dos estudos da paz. Organicom, ano 15, número 28, 1º sem. 2018, pp.74-85.
[vi]Os estudos de segurança são valorizados em países com forte classe alta, supremacia de brancos, anglófonos, na maioria; exportam colonos e bases militares a outros países (em especial para Oriente Médio); geram motivos para insegurança. OLIVEIRA, Gilberto Carvalho de. Estudos da paz: origens, desenvolvimentos e desafios críticos atuais. Carta Internacional, Belo Horizonte, v. 12, n. 1, p. 148–172, 2017. https://doi.org/10.21530/ci.v12n1.2017.611
[vii] Johann Galtung foi o principal fundador em 1959 do Instituto de Pesquisas de Paz de Oslo (PRIO)[vii] (1959), criador do Journal of Peace Research (1964) e fundador, em 1998, da associação Transcend.org para mediar conflitos com objetivo de transformá-los por um processo de construção da paz e do desenvolvimento.
Marie Madeleine Hutyra de Paula Limaé advogada, mestra em Direito Constitucional, mestra em Patologia Social e associada do IBAP. Publica sua coluna todo dia 13.
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Source Quality
Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
Summary
Relies on named experts and theoretical frameworks but lacks primary sources or direct interviews.
Specific Findings from the Article (4)
"Johann Galtung, sociólogo, matemático e pesquisador norueguês"
Named expert cited for theoretical framework.
Expert source"o jornalista Julian Assange afirmava"
Named expert cited for commentary on war.
Expert source"PUREZA, José Manuel. O desafio crítico dos estudos da paz."
Academic citation as tertiary source.
Tertiary source"OLIVEIRA, Gilberto Carvalho de. Estudos da paz: origens, desenvolvimentos e desafios críticos atuais."
Academic citation as tertiary source.
Tertiary sourcePerspective Balance
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
Summary
Presents a single critical perspective on media and power structures without exploring counterarguments.
Specific Findings from the Article (3)
"Manipulação política e preconceito explicam a insensibilidade enviesada."
Asserts a singular explanation without presenting alternative views.
One sided"a grande imprensa utiliza artifícios e contribui para alienar a opinião pública sobre as causas."
Criticizes mainstream media without presenting its perspective.
One sided"os grupos detentores do poder da tecnologia da comunicação filtram as notícias, por interesses diversos"
Presents a one-sided view of media power structures.
One sidedContextual Depth
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
Summary
Provides substantial theoretical context and historical references, though lacks recent statistical data.
Specific Findings from the Article (3)
"As formas de violência estão contempladas na ideia do triângulo da violência formulada por Johann Galtung"
Provides theoretical background on violence.
Background"Johann Galtung, ainda em 1958, havia se insurgido contra o círculo vicioso da "naturalização da guerra""
Provides historical context for theoretical critique.
Background"Tomando como exemplo a fome, ela pode ser analisada como violência estrutural"
Applies theoretical framework to a concrete example.
Context indicatorLanguage Neutrality
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
Summary
Uses some loaded terms and shows a clear ideological perspective, but maintains an analytical tone.
Specific Findings from the Article (4)
"barbáries como em Gaza"
Emotionally charged term describing conflict.
Left loaded"a falácia da narrativa dos defensores dessa forma de agricultura"
Politically loaded term dismissing opposing narratives.
Left loaded"os grupos detentores do poder"
Ideologically framed description of media ownership.
Left loaded"A violência direta afeta fisicamente alguma pessoa ou grupo de pessoas."
Neutral, definitional language.
Neutral languageTransparency
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
Summary
Clear author attribution, date, and academic citations, though lacks methodology disclosure.
Specific Findings from the Article (4)
"Marie Madeleine Hutyra de Paula Lima"
Author clearly named.
Author attribution"Publicado 18/03/2026 às 19:49"
Publication date and time provided.
Date present"Segundo Galtung"
Clear attribution of theoretical claims.
Quote attribution"o jornalista Julian Assange afirmava"
Clear attribution of quote.
Quote attributionLogical Coherence
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
Generally coherent argument building on theoretical framework, with one minor unsupported leap.
Specific Findings from the Article (2)
"Pode a educação para a cidadania restaurar laços de solidariedade?"
Poses education as a solution without supporting causal evidence in the article.
Unsupported cause"a. Pode a educação para a cidadania restaurar laços de solidariedade? Publicado 18/03/2026 às 19:49 Os númer"
The article suggests citizenship education can restore solidarity and improve violence perception, but provides no evidence for this causal claim.
Logic unsupported causeLogic Issues Detected
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Unsupported cause (medium)
The article suggests citizenship education can restore solidarity and improve violence perception, but provides no evidence for this causal claim.
"Claim: 'a educação para a cidadania, na busca pela justiça social e pela paz, constitui elemento fundamental para fortalecer os laços de solidariedade' lacks demonstrated causal link."
Core Claims & Their Sources
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"Numerical data about violence loses impact due to media narratives and elite manipulation."
Source: Analysis based on Galtung's theory and media criticism examples. Named secondary
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"Violence should be understood through Galtung's triangle: direct, structural, and cultural."
Source: Attributed to Johann Galtung, sociologist and researcher. Named secondary
-
"Mainstream media filters news and contributes to public alienation about causes of violence."
Source: Supported by reference to Julian Assange's critique and general media analysis. Named secondary
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (6)
-
P1
"Johann Galtung formulated the triangle of violence theory."
Factual -
P2
"Julian Assange criticized US war in Afghanistan objectives."
Factual -
P3
"Galtung founded the Peace Research Institute Oslo (PRIO) in 1959."
Factual -
P4
"Media manipulation and prejudice causes public insensitivity to violence statistics"
Causal -
P5
"Structural and cultural violence causes normalization of direct violence"
Causal -
P6
"Citizenship education causes strengthened solidarity and better violence perception"
Causal
Claim Relationships Graph
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: Johann Galtung formulated the triangle of violence theory. P2 [factual]: Julian Assange criticized US war in Afghanistan objectives. P3 [factual]: Galtung founded the Peace Research Institute Oslo (PRIO) in 1959. P4 [causal]: Media manipulation and prejudice causes public insensitivity to violence statistics P5 [causal]: Structural and cultural violence causes normalization of direct violence P6 [causal]: Citizenship education causes strengthened solidarity and better violence perception === Causal Graph === media manipulation and prejudice -> public insensitivity to violence statistics structural and cultural violence -> normalization of direct violence citizenship education -> strengthened solidarity and better violence perception
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.