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Filho de Nunes Marques tem ligação com consultoria que recebeu R$ 18 milhões da JBS e do Master - revista piauí

piaui.uol.com.br By Daniel Bergamasco; Breno Pires 2026-03-20 1630 words
Kevin Marques, filho do ministro Kassio Nunes Marques, em imagem do site do seu escritório de advocacia, que está fora do ar Reprodução

Filho de Nunes Marques tem ligação com consultoria que recebeu R$ 18 milhões da JBS e do Master

Os pagamentos ocorreram no período em que o ministro do STF relatava caso bilionário da J&F. Sua decisão foi favorável aos irmãos Batista

Na manhã de quinta-feira, 19, o jornal O Estado de S. Paulo noticiou que o jovem advogado Kevin de Carvalho Marques, de 25 anos, filho do ministro Kassio Nunes Marques, do STF, havia recebido quase 282 mil reais da Consult Inteligência Tributária. Com acesso aos dados do Coaf, o órgão que fiscaliza operações financeiras, o Estadão identificou que os 282 mil reais eram uma fração dos 18 milhões de reais que a Consult havia recebido da JBS, a empresa dos irmãos Joesley e Wesley Batista, e do Banco Master, protagonista da maior fraude bancária da história do Brasil. Procurado pelo jornal, o advogado Kevin Marques disse que o pagamento dos 282 mil reais decorrera de um trabalho "voltado ao fisco administrativo".

Cruzando-se a informação com registros societários da Junta Comercial de São Paulo (Jucesp), fica claro que a ligação entre a Consult e o filho do ministro vai além do pagamento de 282 mil. Os dados mostram que há uma conexão direta entre a Consult e uma empresa da qual o filho do ministro é sócio. É uma triangulação. De um lado, Kevin Marques detém 70% de uma empresa chamada Instituto de Pesquisa e Gestão Tributária (IPGT), da qual também é sócio Gabriel Campelo de Carvalho, dono dos 30% restantes. De outro lado, o pai de Gabriel, Francisco Craveiro de Carvalho Junior, é o dono da Consult. Ou seja: Kevin, filho do ministro, é sócio do filho do dono da Consult dos 18 milhões de reais.

Além do pagamento e do parentesco, a relação também entra no campo funcional. As duas empresas – o IPGT e a Consult – compartilham o mesmo endereço e até o mesmo e-mail, conforme demonstram documentos públicos obtidos pela piauí na Jucesp. Ambas ficam na Alameda Rio Negro, número 1030, no bairro de Alphaville, em Barueri, na Grande São Paulo. É um condomínio chamado Stadium. O escritório do IPGT e da Consult fica na sala 2304. O endereço público de e-mail das duas empresas, disponível nos documentos mais recentes da Jucesp, é s.externocraveiro@gmail.com.

Mais do que isso: Francisco Craveiro de Carvalho Junior, dono da Consult, é também contador do IPGT do filho do ministro, segundo a própria assessoria de imprensa de Kevin Marques

De acordo com o Coaf, os repasses de 18 milhões de reais aconteceram entre agosto de 2024 e julho de 2025. Nesse período, o Master pagou 6,63 milhões de reais à Consult. A JBS, por sua vez, pagou 11,38 milhões de reais, por meio de doze transferências via Pix. Como mostrou a reportagem do Estadão, os 18 milhões de reais "correspondem à totalidade" do que a empresa recebeu no período analisado pelo Coaf. Ou seja: a empresa, que declarou um faturamento ínfimo – de 25,5 mil reais – recebeu 18 milhões de duas companhias, JBS e Master, e nenhum outro centavo de qualquer outro cliente durante o período analisado pelo Coaf. O Coaf identificou que houve onze transferências em favor do escritório de Kevin Marques, totalizando precisamente 281.630,00 reais.

Além do filho de Kassio, um ex-assessor e amigo íntimo do senador Ciro Nogueira, Victor Linhares Paiva, recebeu 256 mil reais da Consult exatamente no mesmo período. Ciro Nogueira é o parlamentar a quem o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, chamou de "grande amigo de vida" em conversa de WhatsApp com uma namorada acessada pela Polícia Federal. Segundo a Consult, o pagamento para o assessor do senador foi por "serviços de consultoria de mercado".

O cruzamento das informações societárias foi feito pela piauí com auxílio da ferramenta CruzaGrafos, desenvolvida pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

Assim que saiu a primeira notícia divulgada pelo Estadão, Kevin Marques fez questão de dizer em nota que "nunca defendeu nenhum caso" junto ao Supremo Tribunal Federal, onde seu pai trabalha. Houve, no entanto, uma coincidência cronológica. No período em que os 18 milhões de reais foram pagos à Consult e os 282 mil foram pagos a Kevin Marques – entre agosto de 2024 e julho de 2025 –, o ministro Kassio Nunes Marques estava relatando um dos casos mais explosivos da vida empresarial da J&F, a holding dos irmãos Batista: o conflito que a empresa estava tendo com a Paper Excellence, da Indonésia, pelo controle da Eldorado Brasil Celulose. A cronologia, toda ela do ano de 2024, é a seguinte:

– 29 de fevereiro – Kevin Marques passa no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

– 12 de junho – A Paper Excellence entra com uma ação no STF contra os Batistas pela Eldorado. O ministro Nunes Marques se torna relator. Seis dias após o protocolo, a Paper desiste da ação.

– 1º de agosto – A JBS começa os pagamentos via Pix para a Consult.

– 13 de outubro – O ministro Nunes Marques, depois de cinco meses, toma a sua primeira decisão no caso. Como queria a J&F, ele rejeita a desistência da Paper Excellence e determina uma audiência de conciliação.

– 7 de novembro – O IPGT de Kevin Marques e Gabriel Campelo de Carvalho é criado com o mesmo endereço da Consult, cujo dono passa a ser contador do IPGT .

– 18 de novembro – É realizada a audiência de conciliação entre as duas empresas privadas, presidida pelo ministro Nunes Marques, algo pouco comum na rotina do tribunal.

O caso teve desdobramentos no ano seguinte, quando a J&F finalmente conseguiu recomprar a participação da Paper na Eldorado, vencendo a disputa pelo controle da empresa. A cronologia de 2025 é a seguinte:

– 15 de maio – A J&F anuncia acordo com a Paper Excellence, no qual os Batistas seguem donos da Eldorado Celulose, comprando a parte dos indonésios por 15 bilhões de reais.

– 22 de maio – Em decisão sigilosa, Nunes Marques arquiva a ação, diante da comunicação do acordo.

– 31 de julho – A JBS encerra seus pagamentos, totalizando 11,3 milhões de reais, segundo dados do Coaf.

A piauí enviou uma lista de perguntas ao advogado, à Consult, ao ministro Nunes Marques, à JBS, à J&F e ao Banco Master sobre as conexões apuradas.

A Consult disse em nota que pagou os 282 mil reais a Kevin Marques "prestação de serviços técnicos e de assessoria jurídica para a Consult, entre 2024 e 2025" e que "o valor representa aproximadamente 1,5% dos valores mencionados" (18 milhões). Também negou relação societária com a empresa de Kevin Marques e disse que o "compartilhamento de endereço fiscal ocorreu de forma temporária enquanto era definida e formalizada a sede definitiva da Consult", e que o e-mail comum está desatualizado. Apesar disso, demonstrou certo domínio sobre as atividades da empresa com a qual disse não ter relação: "O IPGT", explicou, "é apenas um projeto em concepção, que permanece sem operação, sem faturamento e sem desenvolvimento de atividades".

Consultado, o ministro Kassio Nunes Marques disse, por meio da assessoria de imprensa do STF, que "o processo citado foi encerrado após a celebração de um acordo entre as partes envolvidas, que optaram pela desistência da ação". Ele acrescentou que "jamais prestou qualquer tipo de serviço ou consultoria, seja de natureza formal ou informal, remunerada ou não, para a empresa Consult Inteligência Tributária".

O filho Kevin afirmou que o IPGT e a Consult "são independentes uma da outra e cada uma cuida de seus próprios negócios". "Diferente do que afirma a reportagem, as empresas citadas não formam grupo econômico. Como está público em todos materiais de divulgação, elas funcionam no mesmo endereço. Isso foi feito de modo deliberado, em uma estratégia empresarial legal, legítima, explícita e recorrente, no Brasil e no mundo", acrescentou, por meio de nota enviada por sua assessoria.

"Nenhuma empresa do Dr. Kevin Marques tem ou teve negócios com o Banco Master e com a JBS, tampouco ele recebeu qualquer quantia dessas empresas", afirmou o advogado, que disse não poder "responder pelos negócios de terceiros".

Reconheceu que a sua família e a de Gabriel e Francisco Craveiro de Carvalho "convivem e mantêm relação também explícita de amizade há muitos anos", disse que eles são "profissionais de altíssimo nível" e acrescentou que o dono da Consult é contador do IPGT. "O e-mail na Junta, como é praxe, pertence ao contador que abriu as empresas, praticando um ato regular de contabilidade. Nesse caso, o contador é o sr. Craveiro e o e-mail dele consta do registro".

A JBS, que pagou 11 milhões à Consult, disse que tem atividades produtivas e comerciais em mais de 200 municípios, em dezenove estados brasileiros, e, "como qualquer grande companhia que opera no ambiente tributário complexo do país, contrata consultorias especializadas para suporte técnico, entre elas a Consult Inteligência Tributária". "O pagamento realizado para esta empresa refere-se exclusivamente a serviços de consultoria e auditoria fiscal. Foram efetivamente prestados e documentados", continua a nota. "A JBS não mantém qualquer vínculo com as demais empresas citadas", diz. "Portanto é leviana e infundada qualquer tentativa de associação. Da mesma forma, é irresponsável insinuar relação entre os serviços técnicos contábeis regularmente contratados e decisões judiciais sem qualquer conexão."

A respeito do processo relatado por Nunes Marques no STF, a holding dos Batistas, J&F, optou por não se manifestar.

O Banco Master, por sua vez, não respondeu às perguntas sobre a razão dos pagamentos à Consult e à movimentação financeira dos 282 mil reais pagos ao filho do ministro Kassio Nunes Marques. Na semana passada, o ministro votou para manter a ordem de prisão de Daniel Vorcaro.

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