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Flávio Bolsonaro perde sobrenome nas manchetes

intercept.com.br By Fabiana Moraes 2026-03-20 753 words
"O único problema do senador Flávio qual é? Sobrenome, né?", disse o então vice-presidente da República, Hamilton Mourão, quando estava cercado por jornalistas no dia 22 de janeiro de 2019. Fazia menos de um mês que ele havia assumido o cargo.

Três dias antes, o Jornal Nacional havia divulgado um relatório elaborado em dezembro de 2018 pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf, que detectou movimentações financeiras atípicas entre junho e julho de 2017. O documento apontava 48 depósitos de R$ 2 mil em dinheiro no autoatendimento de uma agência bancária da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a Alerj, em uma conta de Flávio Bolsonaro, somando R$ 96 mil.

Na época em que a notícia saiu, ele já havia deixado o cargo de deputado estadual e tinha sido eleito senador pelo extinto PSL. Nem bem o governo de extrema direita começara e já tinha uma bomba caindo no meio do Palácio do Planalto.

Sete anos se passaram e a fala de Mourão está mais atual que nunca. Reparem aí: o sobrenome do senador (agora, do Partido Liberal) simplesmente desapareceu das manchetes de veículos como Folha, Globo, Exame, Veja, CNN, etc. Assim, ao se tornar pré-candidato ao cargo de presidente da República, o "Zero Um" passou a ser tratado apenas como "Flávio". Simplesmente Flávio. Candidamente Flávio. Mimosamente Flávio.

Você vai ouvir que é uma questão técnica, editorial; que é para diferenciar o filho do pai; que é porque é mais fácil inserir um nome mais curto nas manchetes, tem menos caracteres… Bem, se a questão fosse essa, o noticiário deveria ter estampado simplesmente "Jair" em suas matérias esses anos todos, concordam?

Jair: 4 letras.

Flávio: 6 letras.

¯\_(ツ)_/¯

Talvez acompanhar os números nos ajude a entender a razão dessa operação política. Pesquisas realizadas no ano passado, em abril, mostraram que o nome Jair Bolsonaro era ali um dos mais rejeitados do país. Levantamento do Datafolha indicou então que 67% dos brasileiros eram contra uma eventual candidatura de J. Bolsonaro à Presidência (ele insistia em se dizer candidato, apesar de inelegível).

Em outro levantamento do mesmo instituto, divulgado em dezembro do ano passado, Jair Bolsonaro aparecia com 45% de rejeição, um dos índices mais altos entre lideranças políticas testadas. Lula tinha 44% e Flávio Bolsonaro, 38%. Levando em consideração que Lula já está em seu terceiro mandato e o "Zero Um" ainda está só na vontade, convenhamos que é muita rejeição para quem nunca colocou uma faixa presidencial.

Significa dizer que Bolsonaro não é apenas um sobrenome, mas pode ser um grande problema eleitoral. É aqui que entra a engenharia de parte da imprensa brasileira.

'Ao retirar o sobrenome das manchetes, o que se produz não é apenas economia de caracteres.

Ao retirar o sobrenome das manchetes, o que se produz não é apenas economia de caracteres. Produz-se um deslocamento e apagamento simbólico, uma vez que "Flávio Bolsonaro" carrega uma história, um campo político, uma genealogia de escândalos, investigações e radicalização.

Já "Flávio", não.

"Flávio" é quase um primeiro nome de colega de escola, de vizinho de condomínio, de um boy gente boa qualquer. Simplesmente Flávio. Candidamente Flávio. Mimosamente Flávio.

Com "Flávio", ficam mais longe do pré-candidato nomes como o de Adriano Magalhães da Nóbrega, miliciano do Escritório do Crime, morto por policiais militares na Bahia em 2020. Quando era deputado estadual, o "Zero Um" empregou em seu gabinete a mulher e a mãe do ex-policial, figura exaltada por ele, a quem concedeu, em 2005, a Medalha Tiradentes e disse aqui, no Roda Viva, que se tratava de um policial exemplar.

Com "Flávio", fica bem distante o curioso caso da loja de chocolates, empresa do "Zero Um" que recebia depósitos sucessivos com exatamente os mesmos valores em reais, todos abaixo de R$ 10 mil (uma vez que depósitos a partir desse valor precisavam ser informados às autoridades financeiras).

Com "Flávio", fica longe a acusação de organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita feita pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. Quatro meses depois disso, lemos em vários veículos da imprensa que o senador comprou um imóvel três vezes mais caro do que o valor do patrimônio total declarado por ele em 2018.

É o início de um processo já bastante conhecido: o retrofit. Retrofit é uma palavra da arquitetura que significa atualizar um prédio antigo sem demolir sua estrutura. Na política – e na cobertura política – o termo também é útil. Em vez de derrubar uma figura desgastada, atualiza-se sua fachada. Não se troca o edifício, mas a pintura.

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