Sem Chão e a política do impossível | Outras Palavras
A derrota é certa, até que não seja mais. Documentário que desafiou o genocídio e ganhou o Oscar propõe questões políticas cruciais. Vale seguir lutando, quando tudo foi aparentemente subsumido ao capital? Este combate pode ser orientado apenas pelas ferramentas da Razão?
Publicado 20/03/2026 às 14:04 - Atualizado 20/03/2026 às 14:05
No documentário No Other Land, dirigido por Basel Adra, Yuval Abraham, Hamdan Ballal e Rachel Szor, há uma cena que cristaliza uma sugestiva reflexão política:
Basel e Yuval estão no carro à noite. Terminam o dia após uma manifestação que exigia justiça para Harun Abu Aram, alvejado à queima-roupa pelo exército israelense enquanto tentava proteger o gerador de energia da sua comunidade em Masafer Yatta, na Cisjordânia. Tiro que o deixou tetraplégico. Yuval, israelense antissionista, está decepcionado e conta ao amigo:
– O artigo que escrevi sobre a mãe do Harun não teve muitas visualizações.
– É sempre assim. Você está…
– O quê?
– Está um pouco entusiasmado.
Yuval desconcertado parece não entender imediatamente. Com o sorriso dos que falam uma verdade óbvia, Basel lhe explica que a ocupação não vai se desfazer em 10 dias. Ela e, portanto, as arbitrariedades e agressões dos sionistas, perduram há décadas:
– É algo que requer paciência. Acostume-se ao fracasso, perdedor.
Não são palavras de quem aceitou a derrota. Noutro dia e de novo, sempre que uma aldeia está sob ameaça de demolição pelas forças invasoras de Israel, Basel está lá, câmera nas mãos, sem medo. Sempre que a comunidade se reúne em manifestação, ele está lá, sem descanso. A derrota certa não inspira qualquer resignação. Seu pai lutou naquela terra e ainda luta. Nasceu ali e vai morrer ali também. Foi preso ao longo das filmagens, mais uma vez, e regressou mais tarde, íntegro e disposto ao amanhã que virá. A derrota é certa só até que não seja mais. Até lá, a paciência dos que não se dobram.
Basel é quase incompreensível para nós. A paciência inabalável, de fato, é a de quem não tem escolha. Yuval é solidário, se expõe e corre riscos, mas pode sempre que preciso retornar para a casa. Basel está sob invasão, habita o conflito. Na paciência de Basel não repousa nenhuma imagem de redenção messiânica. Não há a decisão das utopias ou visão de mundo. Basel luta porque senão amanhã eles não estarão mais ali, na terra. Luta porque outros já não estão. E é exatamente por isso que ele encarna uma temporalidade que transcende o agora desta manifestação ou daquele artigo, e também o desta vida. Talvez ele não veja o fim da ocupação, seus avós não viram. Outros verão. Disso ele parece não duvidar nunca. A política em Basel carrega a força quieta da crença.
Já a maioria de nós é iluminista demais. Só nos dedicamos ao que é ao menos provável. A crença foi esconjurada como mito e no seu lugar exaltamos o entendimento. A razão instrumental opera para identificar as causas e fornecer o remédio. Com esses aparatos todos, nos qualificamos a gestores do mundo que está aí. Será possível mudá-lo sem algum tipo de crença? A política, em sentido forte, não supõe um resto indemonstrável, algo irracional? Destituídos dos nossos mitos e utopias, absolutamente nus diante da nossa razão, podemos tudo e por isso mesmo nunca fomos tão impotentes. Perdemos nossa teologia, como diagnosticou Vladimir Safatle. O socialismo sempre foi a nossa teologia. Sem esse horizonte, estaremos mais próximos de Yuval, aquele que pode simplesmente voltar para casa.
Mas podemos mesmo voltar para casa? A catástrofe distendida do colapso climático não oferece refúgio. O momento de perigo se desdobrou e coincidiu com o próprio tempo. Não temos para onde ir. Ainda assim, nos falta a crença paciente de Basel. Ele vê e disputa palmos com quem quer lhes tomar a terra. Por isso pode perguntar aos soldados israelenses se eles também não têm mães e irmãos, se não moram numa casa, se conseguem dormir à noite. A abstração do capital que nos empurra ao abismo está por toda a parte e não está em lugar algum. A dominação impessoal do capital impregnou inclusive a matéria. A nuvem e o virtual deslocaram o ódio de classe, usurparam seu objeto. O motorista de Uber sabe que é inútil odiar um aplicativo. O capital não tem mãe e irmãos. Ele não dorme à noite. O drama é que continuaremos sem casa para voltar.
Basel, contudo, não deixa de lembrar um passado que é o nosso, da esquerda socialista. A fresta do presente por onde a qualquer momento poderia passar o messias benjaminiano, a revolução que haveria de rebentar num segundo, era a nossa. Dela dependia o descanso dos vivos e dos mortos. Também aqui a revolução era um compromisso dos que ainda sofrem com os que sofreram, mais do que impulso movido por imagens redimidas do futuro. O passado se revela no instante do perigo e está em jogo toda a história da humanidade.
Mesmo Adorno, que numa leitura rápida e superficial aparece como catastrofista resignado, mantinha o momento da não identidade à espreita, pronto para implodir a praça-forte da falsa totalidade. A abstração da troca, sob a pulsão do capital feito sujeito, impôs a todos a obrigação de participar da roda da valorização, a despeito de serem ou não movidos por um afã de lucro. No processo subordinou a si as palavras e as coisas. É então quando tudo foi aparentemente subsumido ao capital que o perigo se torna crescente e pervasivo, porque quanto mais forte, mais sobras a falsa totalidade deixa atrás e por debaixo. E essas sobras carregam um nome: sofrimento. As sobras da falsa totalidade também devem se chamar alegria. Todo dia à noite a família de Basel se reúne em torno da comida, compartilha suas esperanças, fala das dores e, apesar da ameaça sem fim, sorri.
A recusa de Adorno em se agarrar a qualquer negatividade de contrabando se ancorava na crença de que ela permanecia viva e secretamente possível. A nossa crença era a do largo horizonte. Ela se abria até o que o velho Marx chamou de reino da liberdade, o fim da pré-história da humanidade.
Basel ganhou um Oscar. Algo impossível até acontecer. A visibilidade que daí adveio, no entanto, não impediu que sua casa fosse invadida e um de seus companheiros de direção, Hamdan Ballal, fosse sequestrado e torturado por colonos israelenses. O Oscar, de fato, nunca foi o impossível com qual Basel lidou. Por isso a luta continua. Até o fim.
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Source Quality
Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
Summary
Relies heavily on analysis of documentary content and philosophical references with minimal named sources.
Specific Findings from the Article (3)
"Basel Adra, Yuval Abraham, Hamdan Ballal e Rachel Szor"
Documentary directors are named but serve as subjects of analysis, not journalistic sources.
Named source"Vladimir Safatle"
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Named source"o velho Marx"
References Marx's concept without direct citation or source attribution.
Tertiary sourcePerspective Balance
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
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Specific Findings from the Article (3)
"as arbitrariedades e agressões dos sionistas"
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One sided"forças invasoras de Israel"
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One sided"O socialismo sempre foi a nossa teologia"
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Specific Findings from the Article (3)
"a ocupação não vai se desfazer em 10 dias. Ela e, portanto, as arbitrariedades e agressões dos sionistas, perduram há décadas"
Provides historical timeframe for conflict.
Background"Mesmo Adorno, que numa leitura rápida e superficial aparece como catastrofista resignado"
References philosophical context for analysis.
Context indicator"A catástrofe distendida do colapso climático não oferece refúgio"
Connects to broader climate change context.
Context indicatorLanguage Neutrality
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
Summary
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"as arbitrariedades e agressões dos sionistas"
Politically charged term 'sionistas' used pejoratively.
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Left loaded"O socialismo sempre foi a nossa teologia"
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"Publicado 20/03/2026 às 14:04 - Atualizado 20/03/2026 às 14:05"
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Date present"Yuval, israelense antissionista, está decepcionado e conta ao amigo:"
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Quote attributionLogical Coherence
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
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Generally coherent philosophical argument with one minor inconsistency.
Specific Findings from the Article (2)
"O motorista de Uber sabe que é inútil odiar um aplicativo. O capital não tem mãe e irmãos."
Makes psychological claim about Uber drivers without evidence.
Unsupported cause"O motorista de Uber sabe que é inútil odiar um aplicativo."
Asserts knowledge of Uber drivers' psychological states without evidence.
Logic unsupported causeLogic Issues Detected
-
Unsupported cause (low)
Asserts knowledge of Uber drivers' psychological states without evidence.
"O motorista de Uber sabe que é inútil odiar um aplicativo."
Core Claims & Their Sources
-
"Political struggle requires belief beyond rational calculation."
Source: Analysis of documentary subjects Basel and Yuval Named secondary
-
"Capitalism has created impersonal domination that prevents effective resistance."
Source: Author's philosophical analysis Unattributed
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (5)
-
P1
"Basel Adra, Yuval Abraham, Hamdan Ballal and Rachel Szor directed No Other Land"
Factual -
P2
"Harun Abu Aram was shot by Israeli military and left paraplegic"
Factual -
P3
"No Other Land won an Oscar"
Factual -
P4
"Because everything has been subsumed by capital causes we have become powerless"
Causal -
P5
"Because we lost our socialist theology causes we are closer to those who can simply return home"
Causal
Claim Relationships Graph
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: Basel Adra, Yuval Abraham, Hamdan Ballal and Rachel Szor directed No Other Land P2 [factual]: Harun Abu Aram was shot by Israeli military and left paraplegic P3 [factual]: No Other Land won an Oscar P4 [causal]: Because everything has been subsumed by capital causes we have become powerless P5 [causal]: Because we lost our socialist theology causes we are closer to those who can simply return home === Causal Graph === because everything has been subsumed by capital -> we have become powerless because we lost our socialist theology -> we are closer to those who can simply return home
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.