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Carta ao Leitor — Edição 314

revistaoeste.com By Branca Nunes 2026-03-20 745 words
Com a vitória de Jair Bolsonaro em 2018, a quase totalidade dos velhos veículos de comunicação se uniu numa espécie de consórcio que tinha como inimigo comum o presidente recém-eleito. "Para derrotar o bolsonarismo", o grupo firmou uma parceria com o Supremo Tribunal Federal e concedeu aos ministros o direito de usar todo tipo de artifício antidemocrático em nome da democracia.

O Inquérito 4.781, mais conhecido como Inquérito das Fake News — ou Inquérito do Fim do Mundo, na definição mais precisa do ex-ministro Marco Aurélio Mello —, é o grande símbolo desses tempos sombrios. Instalado por Dias Toffoli de forma ilegal — sem solicitação da Procuradoria-Geral da República —, a relatoria foi entregue a Alexandre de Moraes também de maneira ilegal (sem sorteio). A partir daí, o ministro praticamente se fundiu à aberração jurídica.

Plantada a árvore podre, todos os frutos também viriam apodrecidos. Nos sete anos seguintes, centenas de capítulos foram incluindo centenas de pessoas que ninguém sabe ao certo quem são nem quais crimes teriam cometido. O monstrengo virou um instrumento de chantagem: basta emitir uma opinião que contrarie a turma da toga — e não pertencer à esquerda radical, claro — para ser punido com requintes de crueldade. Contas bancárias e redes sociais bloqueadas são os castigos mais leves.

Em setembro de 2025, com a condenação de sexagenários, donas de casa, cabeleireiras, caminhoneiros, porteiros e outros brasileiros acusados de um golpe de Estado impossível, a imprensa velha tentou desfazer a aliança ao reconhecer que o país vivia sob uma juristocracia inconstitucional. "Uma vez encerrado o julgamento dos golpistas, não haverá mais desculpas para que o STF conserve os poderes excepcionais que invocou para enfrentar a ameaça à democracia", publicou um jornal. "Não há mais motivos para manter medidas que deveriam ser excepcionais", afirmou outro.

"Sob o Inquérito 4.781 e todos os seus acessórios de perseguição judicial sem precedentes, o Brasil foi feito refém", destaca Adalberto Piotto no texto que abre esta edição. A primeira reportagem de capa de Oeste sobre esse assunto foi publicada na 19ª edição, em 31 de julho de 2020. Sob o título "O STF contra a democracia", J. R. Guzzo foi certeiro: "O Supremo desrespeita o regime democrático e cria no Brasil o crime político".

A mais recente vítima do furor autoritário do STF foi o jornalista maranhense Luís Pablo Conceição Almeida. Depois de uma série de reportagens que mostraram Flávio Dino e sua família usufruindo de carros oficiais do Tribunal de Justiça do Maranhão para uso particular, Alexandre de Moraes expediu um mandado de busca e apreensão cumprido na casa do jornalista. A reportagem de Anderson Scardoelli conta o caso em detalhes. Desta vez, diversos veículos de comunicação e entidades jornalísticas romperam o longo período de indiferença e se mobilizaram contra o absurdo.

Em contrapartida, o silêncio desses jornais, sites e emissoras de rádio e TV continua quando a vítima é Jair Bolsonaro — o mais notório refém dessa espécie de perseguição. Cristyan Costa e Davi Vittorazzi relatam a situação lamentável do ex-presidente, que agora enfrenta no cárcere as consequências físicas da facada que por pouco não lhe tirou a vida. "Mesmo com seus colegas apoiando a concessão do benefício da prisão domiciliar, Moraes parece irredutível", informa a dupla de repórteres.

Curiosamente, os dois ministros que pariram e alimentaram a anomalia que conferiu plenos poderes ao STF são os principais envolvidos no escândalo do Banco Master. Nesta quinta-feira, depois de um ligeiro sumiço, Gilmar Mendes reapresentou no Supremo o espetáculo do "choro convulsivo sem lágrima", conta Augusto Nunes. Desta vez, o beneficiado com o discurso de canonização foi Alexandre de Moraes.

Apesar dessa estranha inversão de valores, o artigo deixa claro que nada vai impedir que o país continue exigindo respostas para a pergunta mais intrigante do ano: que fim levou a parte já embolsada dos R$ 129 milhões previstos no contrato assinado pelo dono do Master e pela mulher do ministro? O funcionamento do mecanismo que levou Daniel Vorcaro do ápice à ruína, aliás, é o tema da reportagem de Sarah Peres.

Em seu artigo, Adalberto Piotto recorre a um trecho de um discurso de Ruy Barbosa para mostrar que a honestidade tornou-se uma virtude em extinção. Para recolocar o país nos trilhos da lei, os ministros do Supremo deveriam ao menos ter em mente outra frase do grande jurista: "A liberdade não é um luxo dos tempos de bonança; é, sobretudo, o maior elemento de estabilidade das instituições".

Boa leitura,

Branca NunesDiretora de Redação

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