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Irã usa mísseis secretos em ataque inédito a base no Índico

www1.folha.uol.com.br By Igor Gielow 2026-03-21 916 words
O Irã atacou neste sábado (21) a base de Diego Garcia, no oceano Índico, empregando dois mísseis até aqui secretos, com um alcance desconhecido no Ocidente. Um dos projéteis foi abatido por um destróier americano na região, e o outro caiu no mar.

A ação é surpreendente e dará argumentos para quem defende a continuidade da guerra iniciada há três semanas pelos Estados Unidos e Israel contra a teocracia, que tem na ameaça do programa de mísseis balísticos iraniano um de seus "casus belli".

Segundo disse três dias antes da guerra o próprio chanceler iraniano, Abbas Araghchi, o país tinha mísseis com alcance máximo de 2.000 km. Diego Garcia fica, por mar, a 3.800 km da costa do país persa —como suas bases de lançamento são no interior, é presumível que os mísseis usados neste sábado possam voar 4.000 km ou mais.

É uma capacidade que cobre praticamente toda a Europa, continente que até aqui se recusou a apoiar o pedido de Donald Trump para enviar navios com o objetivo de garantir a reabertura do estratégico estreito de Hormuz.

É provável que os mísseis em questão sejam versões aprimoradas da família Khorramshahr, cujo modelo 4, com alcance conhecido de 2.000 km, tem sido lançado com munição de fragmentação contra alvos em Israel neste conflito.

Diego Garcia, no arquipélago de Chagos, é uma base britânica usada há décadas pelos Estados Unidos. Inicialmente, neste conflito, Londres havia vetado a presença de bombardeiros para ataque ao Irã até há duas semanas, quando permitiu o uso de suas instalações lá e em Fairford (Inglaterra) para "ações defensivas".

Desde então, ao menos 12 bombardeiros B-1B e 6 B-52 passaram a usar a unidade militar no Reino Unido. O avião furtivo ao radar B-2 voa diretamente dos EUA, em missões de quase 40 horas no ar apoiadas por aviões de reabastecimento.

Não se sabe se algum bombardeiro já foi usado em Diego Garcia, que abrigou os três modelos. Imagens de satélite feitas no começo da guerra mostravam uma presença maior de aviões-tanque KC-135 e de caças F-16 americanos.

Na sexta, o governo britânico ampliou ainda mais sua autorização, afirmando que suas bases poderiam ser empregadas para ataques contra lançadores de mísseis iranianos em Hormuz.

A base no Índico era considerada altamente estratégica por estar fora do alcance presumido de mísseis do Irã, além de não ter nenhum território estrangeiro a ser sobrevoado por aviões em rota de ataque à teocracia, dispensando assim autorizações. Agora o cálculo pode mudar.

O Ministério da Defesa do Reino Unido afirmou que "caças da Força Aérea Real e outros ativos militares continuam a defender o pessoal na região" e criticou as "ações irresponsáveis do Irã", mencionando inclusive "o sequestro do estreito de Hormuz".

Diego Garcia esteve também no centro de uma polêmica entre Trump e o premiê Keir Starmer não só devido ao veto britânico ao uso de bombardeiros, mas também pelo fato de que os britânicos estão em processo de devolução de Chagos às Ilhas Maurício —embora irão manter o direito ao uso da base.

Trump criticou Starmer pela medida, numa das etapas da crise entre o americano e seus aliados europeus. Na sexta (20), o republicano disse que os 30 países europeus da Otan eram covardes por não apoiar a reabertura de Hormuz, e que a aliança era "um tigre de papel" sem a musculatura militar de Washington.

Já o Comando Central das Forças Armadas dos EUA divulgou neste sábado um balanço bastante róseo da guerra até aqui. Segundo o seu chefe, almirante Brad Cooper, a "capacidade do Irã de ameaçar a navegação no estreito de Hormuz foi degradada" após ataques americanos na região nesta semana.

O comandante disse que já foram feitas mais de 8.000 missões aéreas sobre o país e que foram afundados 130 navios. O dano naval, disse, "é o maior em três semanas desde a Segunda Guerra Mundial", o que é fato se o número estiver correto.

MAIS DE 100 FICAM FERIDOS EM ISRAEL

Ainda neste sábado, houve ataques em diversos pontos do Oriente Médio.

Israel bombardeou a central nuclear de Natanz, uma das principais do programa iraniano, cuja destruição é um dos objetivos declarados da guerra. Segundo a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), não houve registro de contaminação radioativa na região atingida.

Na mão contrária, o Irã atacou pelo segundo dia seguido a cidade de Dimona, onde fica o centro do programa nuclear de Israel e, segundo relatos, estão estocadas as 90 ogivas atômicas do país.

Mísseis venceram a defesa antiaérea, e ao menos 39 pessoas ficaram feridas. Não houve danos a estruturas sensíveis, disse a AIEA. O ataque também atingiu Arad, a 30 km dali, e ao todo há mais de cem feridos.

De seu lado, Teerã citou pela primeira vez a possibilidade de agir contra o fluxo comercial no mar Vermelho, onde seus aliados houthis do Iêmen travaram combates por dois anos com forças ocidentais e ainda não se envolveram na guerra atual.

Segundo uma autoridade militar anônima disse à agência Tasnim, um alvo pode ser o estreito de Bab al-Mandab, no sul do mar Vermelho. O petróleo saudita está sendo escoado por lá, a partir do porto de Yanbu, terminal de um oleoduto que dribla a saída usual pelo golfo Pérsico, obstruída em Hormuz.

Também neste sábado, 22 países, a maioria europeus, assinaram uma nota divulgada pelos Emirados Árabes Unidos condenando os ataques no estreito e se colocando à disposição para ajudar nos esforços de reabertura. Ninguém afirmou, contudo, estar disposto a enviar navios de guerra.

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