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Documento desmente Carlos Viana; Valadão reage na neve

revistaforum.com.br By Diego Feijó de Abreu 2026-03-21 1110 words
Transparência

Valadão solta nota e vídeo de Carlos Viana para rebater reportagem da Fórum; documento da prefeitura de BH expõe contradição

Sem citar nominalmente a Fórum, pastor reagiu em meio a um cenário de neve falando em "mídia canhota" e tentou empurrar a crise para Fabiano Zettel e a unidade Belvedere; no entanto, documentos da prefeitura de BH e da CGU cravam que emenda foi destinada por Viana diretamente para a Fundação Oásis, ligada à estrutura central da Lagoinha

Pastor André Valadão reagiu nas redes sociais a denúncias sobre emendas parlamentares milionárias destinadas à Fundação Oásis, vinculada à Igreja Batista da Lagoinha.

Documentos da CGU e da prefeitura de BH comprovam que o senator Carlos Viana indicou diretamente a Fundação Oásis para receber R$ 700 mil de uma emendas Pix, contradizendo sua alegação de que apenas destinou recursos à prefeitura.

A defesa da igreja tenta atribuir a crise a Fabiano Zettel, mas a Fundação Oásis é diretamente ligada à matriz gerida por Valadão, conforme registros contábeis da própria fundação.

O STF (ministro Flávio Dino) determinou prazo de cinco dias úteis para Viana e o Senado prestarem esclarecimentos sobre R$ 3,6 milhões em repasses à Fundação Oásis nos anos de 2019, 2023 e 2025.

A publicação de uma reportagem da Fórum, que revelou os meandros da destinação de emendas parlamentares milionárias à Fundação Oásis, ligada à Igreja Batista da Lagoinha, provocou uma reação em cadeia na cúpula da denominação. Nas últimas horas, o pastor André Valadão utilizou suas redes sociais para atacar críticos e divulgou um vídeo do senador Carlos Viana, numa tentativa de desqualificar as investigações e afastar de si o foco do escândalo.

Em publicações feitas em formato de stories, ostentando um cenário de neve e roupas de inverno, Valadão afirmou que não havia sumido "pelos motivos das mentiras ridículas e acusações infundadas" e justificou a ausência dizendo que estava "curtindo muito muito a minha família e amigos". Sem citar nominalmente a Fórum, o líder religioso mirou o que chamou de "esquerdas e mídias esquerdistas compradas" e "canhotas difamadores". O pastor prometeu ainda que começará a "desconstruir esses mentirosos".

A "desconstrução" prometida por Valadão, no entanto, é atropelada pelos registros oficiais do próprio poder público. A estratégia articulada pela igreja tenta criar uma narrativa que blinde a estrutura central da Lagoinha, mas esbarra frontalmente em documentos da prefeitura de Belo Horizonte (PBH), no portal de transparência e em relatórios de auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU).

O "buraco" na defesa e a mentira de Carlos Viana

Para tentar estancar a crise, Valadão compartilhou um vídeo em que o senador Carlos Viana (Podemos-MG) nega irregularidades nos repasses e tenta se afastar da responsabilidade de ter escolhido a entidade beneficiada pelo dinheiro público.

Na gravação, Viana crava: "Primeiro, nós não mandamos dinheiro para igrejas. Não é possível fazer isso. Você manda dinheiro para as prefeituras e as prefeituras aprovam planos de trabalhos com fundações ligadas a igrejas". O senador argumenta ainda que a investigação seria perseguição de "ano eleitoral".

A versão do parlamentar, contudo, não condiz com a realidade. Um Relatório de Avaliação da CGU, datado de 5 de dezembro de 2022, detalha a execução das chamadas "emendas Pix" (transferências especiais) e flagra a contradição no caso de Belo Horizonte. O documento descreve que parte de uma emenda (R$ 700 mil de um total de R$ 1,5 milhão) foi direcionada à Fundação Oásis, que foi explicitamente "indicada por parlamentar".

Ao questionar o município sobre qual critério foi usado para selecionar a ONG sem um processo competitivo amplo, a CGU registrou formalmente: "a Secretaria encarregada esclareceu que o próprio parlamentar estabeleceu que os recursos seriam destinados à Fundação Oásis".

Além disso, o portal da PBH confirma a vinculação da emenda de 2019, de autoria de Carlos Viana, diretamente ao "Projeto Esperança Fundação Oásis", mediante dispensa de chamamento público. Ou seja, Viana determinou o destino do dinheiro, que chegou a ficar parado em uma "conta de investimento" a partir de junho de 2020, sem objeto definido, enquanto a ONG regularizava sua situação fiscal.

A manobra de Valadão: Zettel como "cortina de fumaça"

A segunda frente da estratégia de Valadão atua no campo institucional da igreja. Em nota oficial da Lagoinha Global, a instituição afirma acompanhar "com surpresa as informações divulgadas sobre supostas movimentações envolvendo Fabiano Zettel e a unidade da Lagoinha Belvedere".

O texto ressalta a "autonomia administrativa, jurídica e financeira" das igrejas locais e tenta empurrar toda a responsabilidade da crise para o ex-sócio Zettel. A nota alega que a direção "nunca teve conhecimento de transações milionárias de Fabiano Zettel destinadas à Lagoinha Belvedere". O próprio Valadão, em suas redes, também cita o "escândalo do Master" para justificar os ataques.

Ocorre que o "escândalo Zettel" é apenas uma cortina de fumaça para a denúncia central. A emenda parlamentar apontada pela CGU e os repasses milionários sob investigação do STF não foram para Fabiano Zettel ou para a Lagoinha Belvedere, mas sim para a Fundação Oásis. E, ao contrário do que a defesa da igreja tenta insinuar, a Fundação Oásis não é ligada a Zettel, mas sim diretamente vinculada à estrutura matriz gerida por André Valadão.

Embora a Fundação Oásis tenha emitido sua própria nota garantindo ser auditada pelo Ministério Público de Minas Gerais, seus próprios registros contábeis entregam a relação umbilical com a matriz. Nas notas explicativas do balanço de 2023, a fundação relata uma íntima relação financeira com a cúpula, incluindo "adiantamentos da Igreja de Lagoinha" e uma remissão (perdão) de dívida no valor de R$ 485.000,00 concedida pela igreja principal à fundação naquele ano.

Cerco se fecha no Supremo Tribunal Federal

Enquanto a cúpula da Lagoinha e o senador Carlos Viana tentam vencer a crise na retórica e nas redes sociais, as apurações avançam institucionalmente. A controvérsia orçamentária já subiu para o STF.

Em despacho proferido no dia 19 de março de 2026 na ADPF 854, o ministro Flávio Dino determinou um prazo de cinco dias úteis para que o Senado Federal e Carlos Viana prestem esclarecimentos detalhados. A cobrança do Supremo é ampla e envolve repasses que somam R$ 3,6 milhões destinados à Fundação Oásis em diferentes exercícios (2019, 2023 e 2025), incluindo transferências para a filial de Capim Branco.

Por trás dos vídeos na neve e da terceirização de culpa, a base documental revelada pela Fórum segue de pé: uso de "emendas Pix" sem transparência clara, dispensa de processos competitivos pela prefeitura, interferência direta de parlamentar na escolha de favorecidos e uma ONG umbilicalmente ligada à matriz da Igreja Batista da Lagoinha operando cifras milionárias sob a mira da CGU e do STF.

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