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Uma Israel subterrânea

revistaoeste.com By Miriam Sanger 2026-03-22 922 words
Na manhã do dia 1º de março, assim que soaram as primeiras sirenes alertando sobre o contra-ataque do Irã em resposta à ofensiva israelense, a equipe do Hospital Rambam, no norte de Israel, transferiu rapidamente todos os seus cerca de 700 pacientes internados para uma área protegida localizada nos andares subterrâneos do prédio, regularmente utilizados como estacionamento. Ali, ficam as instalações do Fortified Underground Emergency Hospital (FUEH), o maior hospital desse gênero no mundo, capaz de acomodar até 2 mil pacientes com proteção total contra bombardeios.

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O complexo hospitalar protegido não apenas atende os internados locais, como também recebe pacientes de outros hospitais do país que não contam com estruturas semelhantes. Em momentos de crise, ele funciona como uma espécie de hospital de retaguarda nacional, pronto para absorver rapidamente um grande fluxo de feridos ou pacientes em estado crítico.

Gêmeos sob a terra

O FUEH foi inaugurado em 2014, mas a decisão de construí-lo foi tomada em 2006, depois qu
e Haifa — a maior cidade do norte de Israel — foi atingida por mísseis lançados do Líbano. Naquele ano, pela primeira vez, Israel contabilizou mais mortos e feridos civis do que militares. Também foi a primeira vez que a equipe do Rambam se viu obrigada a tratar pacientes sob fogo.

Hoje, todos os grandes hospitais israelenses utilizam essa mesma solução para manterem-se operantes durante conflitos bélicos. A adoção dessas estruturas protegidas foi se tornando uma necessidade em todo o país à medida que cresceu o poder de fogo dos vizinhos pouco amigáveis de Israel. No centro de Tel Aviv, uma das cidades mais alvejadas pelos mísseis iranianos durante esta guerra, está o maior hospital de Israel, o Sheba, considerado um dos dez melhores do mundo e o maior do país. Mesmo em meio aos piores dias de bombardeio, o local registrou um fenômeno simbólico: o primeiro nascimento de gêmeos por parto normal dentro de uma maternidade instalada em área protegida.

O episódio rapidamente se transformou em símbolo da capacidade israelense de preservar a rotina da vida mesmo sob ameaça constante. Enquanto sirenes ecoavam na superfície, dois recém-nascidos davam seus primeiros choros em uma sala de parto protegida por toneladas de metal e concreto.

Tarantino e a estação de trem

O cineasta Quentin Tarantino, morador de Tel Aviv, talvez encontre inspiração para seu próximo filme na súbita transformação das estações do trem urbano da cidade em verdadeiras cidades improvisadas sob a terra. O sistema permanece aberto 24 horas por dia e funciona como abrigo coletivo durante as noites, quando os trens deixam de circular.

O objetivo é acolher aqueles que não contam com quartos de segurança dentro de seus apartamentos — uma exigência do governo estabelecida para prédios construídos a partir da década de 1980 — ou com acesso rápido a abrigos públicos. Cerca de 35% da população israelense ainda vive sem proteção adequada dentro de casa.

Criativid
ade à toda prova

Famílias inteiras estão dormindo nas plataformas das estações. Colchões pessoais ou fornecidos pela prefeitura cobrem o chão. Crianças brincam entre mochilas e carrinhos de bebê. Voluntários distribuem café, sanduíches e cobertores. A cena é ao mesmo tempo alegre — o israelense sabe transformar tudo em festa — e um tanto apocalíptica.

Falando em festa, durante a festividade de Purim, celebrada no último dia 2 de março e conhecida por seus desfiles e fantasias, vários dos abrigos públicos espalhados pelo país foram palco de festas com DJs ou bandas ao vivo. Músicos como o brasileiro Daniel Ring aproveitam a pausa forçada para tocar para os vizinhos.

Em tempos de guerra, a criatividade torna-se uma ferramenta essencial para preservar não apenas a segurança física, mas também a saúde emocional da população. Os israelenses têm experiência de longa data nesse assunto.

Proteção da história

Israel é conhecida internacionalmente por seus museus, cujos acervos contam a história não apenas local, mas da própria humanidade. Por essa razão, o país criou um protocolo especial para tempos de guerra — entre eles, transferir parte, infelizmente apenas uma pequena parte, de seu acervo para áreas protegidas sob a terra.

"Você precisa entender profundamente o significado de tudo o que há em sua coleção e escolher as peças mais frágeis e importantes", explica Nurith Goshen, curadora da área de Arqueologia responsável pelas peças da era Neolítica até a Idade do Bronze (entre 3300 e 1200 a.C.) do Israel Museum, em Jerusalém.

"Também precisamos nos preocupar com as peças de outros museus do mundo que estão sob nossa custódia", acrescenta. Assim, estão neste momento protegidos em instalações especiais, por exemplo, os famosos Pergaminhos do Mar Morto, preservados no Shrine of the Book, e uma obra de Gustav Klimt datada de 1916 pertencente ao Tel Aviv Museum of Art.

Uma volta ao subsolo

povos ancestrais da região utilizaram largamente cavernas, túneis e passagens escavadas
na terra para fins diversos, como armazenamento, abastecimento hídrico e defesa.

Em Jerusalém, por exemplo, extensos sistemas de túneis, visitáveis hoje em dia, percorrem camadas sucessivas da história da cidade. Alguns foram escavados há milhares de anos para transportar água; outros serviram de esconderijo durante revoltas contra impérios antigos.

É incrível perceber que, mais uma vez, estruturas subterrâneas estejam sendo usadas como um espaço de vivência e sobrevivência. Muito mais do que um refúgio antibombas, ele é um lugar onde a vida se renova, a memória se mantém e a história se perpetua, enquanto se aguarda o momento de voltar à superfície.

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Leia também: "O apagão da ditadura", reportagem publicada na Edição 314 da Revista Oeste

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