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Caso Master: parlamentares temem vídeos de festas em hotel no Rio e mansão na Bahia

otempo.com.br By Renato Alves 2026-02-12 1683 words
BRASÍLIA – Enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) analisa pedido de suspeição do ministro Dias Toffoli como relator do caso Master após menção a ele ser encontrado em um dos celulares de Daniel Vorcaro, dono da instituição financeira liquidada pelo Banco Central (BC), alguns parlamentares temem a revelação de outros conteúdos que podem constar nos cinco aparelhos do banqueiro apreendidos pela Polícia Federal (PF).

Congressistas que frequentavam os imóveis de Vorcaro e festas bancadas pelo banqueiro não escondem a preocupação com possíveis textos e, principalmente, áudios e vídeos de encontros em um hotel de luxo no Rio de Janeiro e em uma mansão em Trancoso (BA). Deputados contaram à equipe de O TEMPO em Brasília que as reuniões tinham muita bebida importada, comida fina e "convidadas".

Os convites para os encontros se restringiam aos parlamentares, excluindo as namoradas e esposas deles. Quem aceitava tinha que deixar o celular em cômodo fechado, controlado por seguranças. Mas a medida não valia para Vorcaro. E, ao menos no caso da hospedaria em Trancoso, sabia-se que havia amplo e moderno sistema de monitoramento por câmeras, em quase todos os ambientes.

Leia mais: PF analisa vídeos de câmeras dos imóveis onde Vorcaro, do Master, recebia autoridades

Na segunda-feira (9/2), foi noticiado que peritos da PF conseguiram quebrar a criptografia dos celulares de Vorcaro. Quando prestou depoimento, em 30 de dezembro do ano passado, ele se recusou a fornecer a senha do aparelho às autoridades, que inicialmente não tiveram sucesso ao tentar acesso aos dados, devido a uma camada adicional de proteção. Mas a PF adquiriu, recentemente, novos programas para quebrar criptografias dos modelos mais recentes de celular.

Com a ferramenta, peritos também terão a possibilidade de recuperar informações deletadas pelo dono do dispositivo. Os investigadores já fizeram acesso aos vídeos dos sistemas de vigilância dos imóveis, conforme duas fontes ouvidas na terça-feira (10/2) pela equipe de O TEMPO Brasília. O conteúdo que mais interessa aos agentes é o registro de visitas a Vorcaro. O simples contato não prova crime algum, mas pode reforçar um conjunto probatório, sustentado vínculos.

Além de comprovar o contato de Vorcaro e outros investigados com autoridades já citadas, os vídeos também poderiam revelar a intimidade dessas pessoas, principalmente em festas organizadas e bancadas por Vorcaro, em Minas Gerais, São Paulo, Brasília, na Bahia e em outras localidades. O banqueiro gostava de ostentar.

A mansão brasiliense de R$ 36 milhões onde Vorcaro recebia autoridades

O banqueiro, que tem residência fixa na cidade de São Paulo, onde cumpre prisão domiciliar, comprou vários imóveis residenciais e comerciais em diferentes cidades do país e até no exterior. Um deles é uma mansão avaliada em R$ 36 milhões em Brasília, onde costumava ficar e receber convidados. Entre eles, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, segundo o portal "Metrópoles". O magistrado negou tais encontros.

Em uma das ocasiões, segundo o "Metrópoles", Moraes foi apresentado ao então presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, que autorizou a compra do Master pelo banco público mesmo com pareceres contrários à operação. O portal diz que o encontro entre Moraes e Paulo Henrique Costa na casa de Vorcaro teria ocorrido em um fim de semana do primeiro semestre de 2025, quando já estava em vigor um contrato de R$ 129 milhões entre o Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

A mansão fica em um condomínio do Lago Sul, a área mais nobre da capital federal. Ela tem 1.700 m², de acordo com a escritura. Antes de Vorcaro, a casa foi alugada por Salim Mattar, secretário de Desestatização do Ministério da Economia do governo de Jair Bolsonaro (PL). Vorcaro admitiu, em depoimento à PF, que a aquisição da residência na capital federal visava "aprofundar contatos". Até então, ele havia dito ser apenas inquilino na casa já visitada também pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) e pelo deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara.

O banqueiro teria usado um empréstimo desviado do banco dele para comprar a propriedade, revelou investigação da PF que desencadeou a Operação Compliance, em novembro de 2025. A aquisição foi feita por meio da Super Empreendimentos e Participação, empresa que, de acordo com Vorcaro, tem como sócio seu cunhado, Fabiano Zettel, revelou a "Folha de S. Paulo".

A mesma Super comprou um duplex nos Jardins, bairro nobre de São Paulo, por R$ 30 milhões, em 2023. O imóvel tem 600 m² e fica em um prédio que tem uma unidade por andar. Ele foi oferecido à modelo Izabel Goulart como investimento na marca de produtos de beleza que seria lançada por ela. Por meio da assessoria, Izabel confirmou a oferta, mas disse que a negociação de investimento com Vorcaro não foi adiante.

A Super integra a lista, à qual a reportagem da "Folha" teve acesso, de 35 empresas suspeitas de tomar empréstimos fraudulentos do Master para alimentar uma rede de fundos que, segundo os investigadores, desviavam dinheiro do banco para laranjas para retroalimentar o próprio Master. Há forte suspeita de ilegalidade na prática.

Na época do financiamento, Zettel era um dos diretores da Super. Ele saiu do quadro societário da empresa em 23 de julho de 2024, deixando no seu lugar uma funcionária. Zettel foi um dos alvos da segunda fase da Compliance, deflagrada em 14 de janeiro pela PF. Ele foi preso ao tentar embarcar para Dubai, mas foi liberado horas depois. Agentes apreenderam seu celular e passaporte.

Banqueiro recebia convidados em vila particular de R$ 300 milhões na Bahia

Era em um imóvel específico de altíssimo padrão, em Trancoso, destino de luxo no sul da Bahia, que Vorcaro costumava agradar aos convidados com muito mimo e festas. Entre os vips na lista da hospedagem privê do dono do Master estavam executivos do mercado financeiro, empresários de diversos setores, juristas e políticos. Tal imóvel tinha (e ainda tem) um grande e moderno sistema de monitoramento por câmeras.

Trata-se da Villa 21. A propriedade fica no condomínio Terravista Golf, na Praia dos Nativos, em frente ao mar. Ela tem 40 mil metros quadrados, com 12 suítes e cinco bangalôs de dois pavimentos. A suíte principal funciona como uma casa central. Em seus 400m², há sala de leitura, academia de ginástica, terraço, piscina privativa e outras comodidades. É nela que Vorcaro costumava ficar quando viajava para Trancoso em um dos seus três jatinhos.

Em setembro de 2025, dois meses antes de a PF desencadear a Operação Compliance, que escancarou as fraudes envolvendo o Master, a "Folha de S. Paulo" revelou que um corretor de imóveis de luxo entrou com uma ação judicial contra Vorcaro cobrando uma comissão de R$ 18 milhões referente à intermediação na venda da Villa 21. A mansão foi adquirida por empresas ligadas a Vorcaro, que nega envolvimento direto na negociação.

O corretor disse ser o responsável por apresentar o imóvel ao banqueiro e intermediar tratativas iniciais da venda. Porém, a transação teria sido concluída depois, sem a participação do corretor, o que motivou a ação por suposta quebra de acordo. Vorcaro, por sua vez, alegou não ter vínculo com as empresas que compraram a propriedade. Mas, assim como vários outros dos seus negócios, o empreendimento envolveria vários sócios, alguns deles ocultos.

O processo movido pelo corretor contra Vorcaro menciona que o banqueiro frequentou o imóvel em 2021 e 2022, pagando mais de R$ 760 mil por 14 dias de estadia. Ainda segundo o processo, ele teria reservado uma nova estadia em outubro de 2023, no valor de R$ 325 mil, que acabou sendo cancelada. Até junho de 2024, a Villa 21 pertencia à Sandra Habib, esposa de Sérgio Habib, presidente da JAC Motors Brasil, segundo a "Folha de S. Paulo". Naquele mês, empresas ligadas a Vorcaro compraram a vila.

Esse é o negócio que está no centro da disputa judicial. Ainda segundo a "Folha", nas estadias na vila, ainda quando não era o dono, Vorcaro foi alvo de reclamações da dona por avarias nas instalações. Ela mandou mensagem em aplicativo de texto dizendo que seus funcionários estavam "chocados" com uma festa do banqueiro, com muitas pessoas e som alto. "Nada discreto. Contratou um conjunto de pagode com música alta, chamando a atenção dos vizinhos, da polícia", escreveu Sandra.

Vorcaro teve de pagar mais de R$ 20 mil por danos a itens como cabos USB, cinzeiros, pufes, banquetas, copos, bandejas, taças, itens de decoração, entre outros. Ele também recebeu uma multa de R$ 70 mil por excesso de pessoas o local, de acordo com a apuração da "Folha". Após ter sido procurado pelo jornal para se manifestar, Vorcaro apresentou à Justiça uma petição para o processo ser colocado em segredo e que a imprensa seja proibida de divulgar o conteúdo dos autos. Ele foi atendido.

Mesmo após adquirida e cada vez mais frequentada por Vorcaro, a Villa 21 continuou aberta para locação. A tarifa mais barata para um fim de semana – três diárias – é R$ 95 mil. Já para o próximo carnaval, o pacote com o mínimo de 5 diárias custa R$ 550 mil. Os valores garantem a hospedagem exclusiva em toda a estrutura. "Os seus espaços primam pela amplitude e pelas aberturas para o exterior, estabelecendo ligações muito harmoniosas com o jardim envolvente", destaca o site para locação.

A mansão de quase meio bilhão de reais em Miami comprada por Vorcaro

A PF investiga a origem do dinheiro de Vorcaro para adquirir imóveis também no exterior. Um deles é uma casa de 1.905 m², no condomínio Bay Point, em Miami, nos Estados Unidos. A propriedade foi comprada por US$ 85 milhões, o equivalente a cerca de R$ 580 milhões. O dono do Master tem outra casa luxuosa na mesma rua do condomínio.

A mansão de quase meio bilhão de reais tem 11 quartos, 12 banheiros e quatro banheiros sociais, além de uma piscina e dois píeres de frente para o mar. Também nos EUA, Vorcaro alugou 26 mil metros quadrados no edifício 830 Brickell, em Miami, por US$ 190 (cerca de R$ 1.100) por metro quadrado para abrigar salas do Master.

A PF ainda não obteve possíveis imagens feitas por câmeras instaladas no condomínio e nas duas casas.

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