B
24/30
Good

Empresas investigadas movimentaram milhões:É roubo demais

opovo.com.br By Marcelo Bloc; Marcelo-Bloc 2026-03-21 1255 words
Empresas investigadas no Ceará movimentaram R$ 455 milhões e um envolvido comentou:"É roubo demais"

Resumo

Companhias investigadas receberam R$ 455,5 milhões de municípios entre 2023 e 2025; R$ 91,6 milhões têm origem federal.

Investigação cita saques fracionados próximos de R$ 50 mil e movimentações financeiras consideradas suspeitas.

Relatório indica controle de empresas por Bebeto do Choró e uso da estrutura para financiar atividades políticas.

Relatório da Polícia Federal aponta que empresas contratadas por prefeituras cearenses teriam sido utilizadas por um grupo investigado para movimentar recursos públicos e financiar atividades políticas, incluindo compra de votos. Segundo a
investigação, as companhias analisadas receberam R$ 455,5 milhões de municípios entre 2023 e 2025, sendo R$ 91,6 milhões provenientes de recursos federais repassados às prefeituras.

A Controladoria-Geral da União (CGU), que prestou apoio técnico à investigação, analisou contratos e movimentações de empresa
s ligadas ao grupo e identificou que essas companhias receberam cerca de R$ 455,5 milhões de prefeituras do Ceará entre janeiro de 2023 e janeiro de 2025.

Do total movimentado, ao menos R$ 91,6 milhões tiveram origem comprovada em recursos federais, repassados aos municípios por meio de convênios, transferências constitucionais e repasses fundo a fundo.

O relatório da PF menciona ao menos dez empresas ligadas direta ou indiretamente ao grupo investigado. Desse conjunto, sete aparecem de forma mais recorrente nas movimentações financeiras, nos contratos públicos e nas comunicações interceptadas, sendo tratadas pelos investigadores como o núcleo empresarial da estrutura.

Leia mais

Entre as empresas citadas na análise estão:

Altosol Serviços Locações (atualmente AT Locação)

Altosol Serviços Locações (atualmente AT Locação)

AM Transportes Locações e Serviços

Caio Construções Servilo

Cearense H

K H Leoncio Silva

LOCAX Locações

LR Serviços e Construções

Millenium Serviços

MK Serviços / MK Empreendimentos

Essas empresas aparecem em contratos públicos, registros extraídos de celulares apreendidos e depoimentos colhidos durante a investigação.

Segundo a PF, muitas delas teriam sido controladas de forma informal por Carlos Alberto Queiroz Pereira, conhecido como "Bebeto do Choró", apontado como líder operacional da organização investigada. Bebeto era prefeito de Choró, foi cassado e está foragido há mais de um ano.

O relatór
io afirma que Bebeto coordenava o uso dessas empresas para movimentar recursos provenientes de contratos públicos e direcioná-los para operações políticas, incluindo pagamentos a cabos eleitorais, financiamento de campanhas e compra de votos em municípios cearenses.

Leia mais

"Não vamos produzir nada"

Em certo momento do relatório, a PF aponta indícios explícitos de que as atividades das empresas eram propositalmente paralisadas ou subordinadas ao calendário eleitoral para que o grupo pudesse focar exclusivamente na conquista dos pleitos.

Em uma conversa interceptada, Bebeto do Choró afirma categoricamente que, na se
mana que antecedia as eleições, as empresas do grupo não deveriam realizar atividades produtivas.

Ele diz: "Essa semana aí é política, vamos ganhar as eleição. Todas as eleição. As empresas essa semana, não vamos produzir nada não. Vamos produzir depois da eleição".

O relatório da Polí
cia Federal aponta a fala como uma prova de que os compromissos empresariais eram secundários e estavam completamente subordinados ao projeto eleitoral, que era o verdadeiro centro de atenção da organização criminosa.

Há registros de que inaugurações de empreendimentos do grupo eram adiadas para após o período eleitoral para não desviar o foco da "correria" pelos votos. Em um diálogo, Bebeto reforça essa divisão de tarefas com seu sócio Yago Viana: "Cuide aí da nossa empresa, cuide aí, que estou cuidando aqui de voto".

Próximo às eleições, a movimentação das empresas deixava de simular operações regulares e passava a focar na realização de saques vultosos em espécie. O objetivo era redistribuir esses valores para operadores financeiros e destiná-los à compra ilegal de apoio eleitoral, aponta a PF.

A investigação conclui que empresas como a MK Serviços não possuíam autonomia e serviam exclusivamente como instrumentos de lavagem de dinheiro e financiamento ilícito, sendo "ativadas" ou "desativadas" conforme a necessidade de irrigar as campanhas.

Essa estratégia demonstra, segundo o relatório, que o grupo operava sob uma lógica puramente mercantil da política, onde as empresas eram apenas peças de uma engrenagem maior destinada à "compra" e "apropriação" de prefeituras.

Saques fracionados e tentativa de evitar controle

Um dos padrões financeiros identificados pelos investigadores foi a realização de saques frequentes em espécie em valores próximos de R$ 50 mil.

Esse limite é relevante porque, pelas regras do sistema financeiro, transações iguais ou superiores a esse valor devem ser automaticamente comunicadas aos órgãos de controle, como part
e dos mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro.

Segundo o relatório, o grupo passou a operar com valores imediatamente inferiores ao limite, como R$ 49.900 ou R$ 49.999, em um padrão considerado indicativo de tentativa deliberada de evitar o monitoramento das autoridades financeiras.

A análise indica que os saques eram frequentemente realizados por diferentes pessoas ligadas ao grupo, o que ampliaria a dispersão do dinheiro e dificultaria o rastreamento das operações.

Movimentação da MK chama atenção da investigação

Entre as empresas citadas no relatório, a MK Serviços / MK Empreendimentos aparece como uma das estruturas centrais da rede financeira investigada.

Formalmente registrada em nome de Maurício Gomes Coelho, vigia que ganhava R$ 2,4 mil, a empresa seria controlada de fato por Bebeto, segundo os investigadores.

A análise financeira apontou que a empresa movimentou valores considerados incompatíveis com sua estrutura e faturamento declarados.

De acordo com a investigação, a MK chegou a dissimular cerca de R$ 36 milhões em operações realizadas em apenas 19 dias, por meio de transferências internas em contas digitais empresariais.

Além disso, a capacidade operacional da empresa também foi questionada. Em determinado momento da investigação, a MK possuía apenas quatro veículos registrados, estrutura considerada insuficiente para executar contratos públicos de grande porte que lhe foram atribuídos.

Diálogos e documentos reforçam suspeitas

A investigação também reuniu diálogos interceptados e documentos enviados entre integrantes do grupo, que, segundo a PF, ajudam a demonstrar o funcionamento do esquema.

Em um dos episódios citados no relatório, um operador ligado à empresa Cariri Edificações envia a Bebeto um contrato assinado com a Prefeitura de Tianguá, destacando o valor do ajuste e informando: "Contrato de Tianguá assinado aí".

Para os investigadores, a troca de mensagens indica que integrantes da organização acompanhavam de perto a obtenção de contratos públicos e a execução das medições que autorizariam os pagamentos.

Em outra conversa citada no relatório, um dos envolvidos comenta sobre o volume de recursos movimentados pelo grupo e afirma: "É roubo demais", frase registrada pela investigação em meio às comunicações interceptadas. Não fica claro quem é o autor da frase.

Estrutura voltada para movimentação de recursos

Segundo a análise da CGU e da PF, as empresas citadas apresentam características estruturais semelhantes.

Entre os pontos em comum identificados estão:

forte dependência de recursos públicos;

movimentação financeira superior ao porte declarado;

ausência de comprovação clara da finalidade de diversas transações;

saques frequentes em espécie;

transferências para pessoas físicas sem relação comercial evidente.

Para os investigadores, a repetição desses padrões indica que as empresas atuariam de forma interligada dentro de um mesmo sistema de circulação e ocultação de recursos ilícitos, funcionan
do como instrumentos de lavagem de dinheiro e financiamento político irregular.

Perfil dos sócios levanta suspeitas

Outro ponto destacado na análise da CGU é o perfil socioeconômico dos sócios formais das empresas investigadas.

Segundo o levantamento, diversos sócios ou ex-sócios aparecem registrados no Cadastro Único e, em algu
ns casos, foram beneficiários do Bolsa Família, situação considerada incompatível com a titularidade de empresas que movimentam milhões em contratos públicos.

Para os investigadores, esse elemento reforça a hipótese de que algumas dessas pessoas teriam sido utilizadas como "laranjas" para ocultar os verdadeiros controladores das empresas.

Tap highlighted text for details

Source Quality
Perspective
Context
Neutrality
Transparency
Logic