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Brasileiros ganham prêmios por avanços no combate ao Alzheimer

jornalggn.com.br By Camila Bezerra 2026-03-22 819 words
Mychael Lourenço, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Wagner Brum, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), foram reconhecidos por organizações internacionais por contribuições que podem mudar a forma como a doença é detectada e tratada.

Lourenço recebeu o ALBA-Roche Prize for Excellence in Neuroscience Research, distinção concedida a cientistas em meio de carreira com conquistas excepcionais na área de neurociências. Brum foi escolhido como o Next "One to Watch" pela Alzheimer's Association, premiação americana voltada a jovens pesquisadores com trabalhos de grande potencial.

A doença de Alzheimer segue como um dos maiores desafios da medicina atual. Até hoje, nenhuma cura foi descoberta e poucos tratamentos demonstraram eficácia em retardar sua evolução. O sintoma mais conhecido é a perda de memória recente, mas, com o avanço da doença, o paciente passa a ter dificuldades de raciocínio, comunicação e movimentação, chegando à dependência total.

Alzheimer no Brasil

Lourenço estuda a doença desde a graduação em Biologia e, ao longo dos anos, aprofundou sua pesquisa até fundar o Lourenço Lab, grupo dedicado ao estudo das demências na UFRJ. Para ele, a motivação vai além da curiosidade científica.

"Nós temos hoje no mundo em torno de 40 milhões de pessoas com doença de Alzheimer. Dessas, umas 2 milhões devem estar no Brasil, um número que pode ser subestimado por causa de problemas de acesso à saúde e diagnóstico. E nós temos uma população que está envelhecendo cada vez mais, mas a maior parte dos estudos são feitos no Norte global. Nós precisamos de dados para entender a doença no Brasil."

O pesquisador explica que, desde quando Alois Alzheimer descreveu a enfermidade em 1906, já se sabia que ela causava placas no cérebro. Décadas depois, na virada dos anos 1980, cientistas identificaram que essas placas são formadas por fragmentos da proteína beta-amiloide. Contudo, mesmo drogas capazes de remover essas placas não conseguiram reverter a doença, o que indica que há lacunas importantes que a ciência ainda precisa preencher.

Uma das frentes do Lourenço Lab investiga o que torna certas pessoas resistentes ao Alzheimer, mesmo quando apresentam as marcas biológicas da doença sem desenvolver sintomas cognitivos.

Outra linha testa substâncias capazes de evitar o acúmulo das proteínas beta-amiloide e tau no cérebro. A hipótese é que fortalecer o sistema natural de eliminação de resíduos das células, o proteassoma, poderia ajudar a conter o avanço da doença.

Diagnóstico precoce

Lourenço também coordena uma pesquisa que busca validar, para a população brasileira, os biomarcadores sanguíneos usados para identificar o Alzheimer em outros países. O objetivo é detectar a doença antes que os sintomas se tornem evidentes, quando ainda há maior chance de intervenção.

"A doença de Alzheimer não aparece quando os sintomas aparecem: ela começa a se desenvolver muito tempo antes. Então, a gente está tentando pegar essa janela, em que a doença está se desenvolvendo, mas os sintomas ainda não apareceram tão claramente."

Essa mesma aposta no diagnóstico precoce guia o trabalho de Wagner Brum. Doutorando na UFRGS e pesquisador do Zimmer Lab, Brum se dedicou ao desenvolvimento de protocolos clínicos para um exame de sangue capaz de detectar o Alzheimer a partir da proteína p-tau217, um dos principais biomarcadores da doença.

O desafio não era apenas provar que o teste funcionava, mas estabelecer padrões de interpretação que permitissem seu uso na rotina médica. O protocolo desenvolvido por Brum já é utilizado por laboratórios na Europa e nos Estados Unidos. No Brasil, porém, apenas alguns laboratórios privados adotaram a tecnologia até o momento.

"Em pacientes com medição muito alta ou muito baixa, claramente a gente poderia saber, apenas com o exame de sangue, se a pessoa tem ou não a doença. Mas tem cerca de 20% a 30% que ficam numa faixa intermediária, e esses precisam de um exame adicional."

SUS

A meta do Zimmer Lab é levar o exame ao Sistema Único de Saúde. Para isso, são necessários estudos que comprovem que o uso dos biomarcadores melhora tanto a precisão diagnóstica quanto a conduta do tratamento, algo que pesquisas em outros países já vêm indicando. Testes com esse objetivo já estão em andamento no Rio Grande do Sul e serão expandidos para outras cidades brasileiras.

Hoje, o diagnóstico do Alzheimer é feito principalmente com base nos sintomas e em exames de imagem, como tomografia e ressonância magnética, que não são específicos para a doença. Os dois testes mais precisos disponíveis, o exame de líquor e o PET-CT, são caros e pouco acessíveis à maioria dos pacientes.

Para Brum, a adoção de um exame de sangue acessível poderia transformar esse cenário, aumentando a confiança dos médicos no diagnóstico e abrindo caminho para a detecção da doença antes mesmo do aparecimento dos sintomas.

Os dois pesquisadores contam com financiamento de instituições como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), a Fundação Serrapilheira e o Instituto Idor de Pesquisas.

*Com informações da Agência Brasil.

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