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Vassili Zaitsev, o matador de nazistas de Stalingrado

operamundi.uol.com.br By Estevam Silva 2026-03-23 1324 words
Vassili Zaitsev, o matador de nazistas de Stalingrado

Consagrado como um dos melhores atiradores do Exército Vermelho, soldado russo foi responsável por abater ao menos 225 nazistas

Há 111 anos, em 23 de março de 1915, nascia Vassili Zaitsev, capitão do Exército Vermelho e um dos mais célebres franco-atiradores da Segunda Guerra Mundial.

Zaitsev ganhou notoriedade durante a Batalha de Stalingrado, quando se tornou um símbolo da resistência soviética contra as forças alemãs. Ao longo do conflito, ele seria responsável por eliminar centenas de soldados e oficiais nazistas.

Além de sua atuação na linha de frente, Zaitsev também desempenhou papel fundamental na formação de novos atiradores e no desenvolvimento das estratégias empregadas pelos snipers soviéticos.

Por suas contribuições na luta contra o nazismo, Zaitsev recebeu o título de Herói da União Soviética e foi condecorado com a Ordem de Lenin.

Juventude e formação

Vassili Grigoryevich Zaitsev nasceu em Yeleninka, um povoado rural no oblast de Tcheliabinsk, no centro-oeste da Rússia. Descendente de uma família de camponeses cossacos, ele foi criado na região dos Montes Urais, onde se dedicou ao pastoreio de ovelhas.

Zaitsev começou a manejar armas ainda na infância e ganhou seu primeiro rifle aos 12 anos de idade. Ele aprendeu o ofício da caça com seu avô, Andrei, e com o pai, Grigory, um soldado veterano da Primeira Guerra Mundial que lutou na famosa Ofensiva Brusilov.

Na adolescência, Zaitsev conciliou os estudos com o trabalho em uma companhia siderúrgica de Magnitogorsk. Após concluir o ensino básico, ele frequentou a Escola Técnica de Construção Civil, especializando-se como montador. Em seguida, graduou-se em um curso de contabilidade.

Em 1937, Zaitsev ingressou nas Forças Armadas, servindo como escriturário da Marinha Soviética em Vladivostok. Ele frequentou a Escola Militar da Frota do Pacífico e assumiu o cargo de chefe de finanças no quartel-general na Ilha Russky pouco antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial.

A Batalha de Stalingrado

Em junho de 1941, a Alemanha nazista lançou a Operação Barbarossa, uma gigantesca ofensiva militar contra a União Soviética. Considerada a maior força de invasão da história, a campanha mobilizou quase quatro milhões de soldados, avançando sobre o território soviético em uma frente com 2.900 quilômetros de extensão.

A invasão teve consequências drásticas para os soviéticos, convertendo-se em uma guerra de extermínio. Mais de 5.000 cidades e vilarejos foram destruídos e milhões de civis morreram em função dos massacres, bombardeios, crises famélicas e epidemias.

Logo após a invasão, Zaitsev pediu para ser transferido para a linha de frente. Após um breve treinamento em combate urbano, ele foi incorporado à 284ª Divisão de Fuzileiros, parte do 62º Exército, lutando sob o comando do general Vassili Chuikov.

Zaitsev chegou a Stalingrado em 22 de setembro de 1942. Desde o mês anterior, a cidade servia de palco a uma batalha sangrenta. Soldados e civis soviéticos resistiam desesperadamente ao violento avanço das tropas do Eixo, que buscavam obter o controle sobre o transporte fluvial no Rio Volga.

Lutando junto aos escombros e ruínas de Stalingrado, Zaitsev se destacou por sua habilidade e mira impecável, alvejando 40 soldados alemães em pouco mais de uma semana. Em certa ocasião, ele conseguiu matar três soldados nazistas que manejavam metralhadoras a quase 100 metros de distância no campo de batalha, usando um rifle comum.

A cena foi testemunhada por um superior que, impressionado com o feito, decidiu presentear Zaitsev com um bônus em dinheiro e um fuzil Mosin-Nagant com mira telescópica.

Zaitsev logo se consagrou como um dos melhores snipers do Exército Vermelho. Ele concentrava todas as características necessárias a um bom atirador de elite: observação aguçada, resistência física, controle emocional, furtividade e, acima de tudo, precisão absoluta no tiro.

O soviético era especialmente hábil em conceber emboscadas e táticas de distração e camuflagem. Zaitsev desenvolveu estratégias inovadoras que até hoje são empregadas pelas forças russas, incluindo o chamado "sistema dos seis" — o uso de três duplas de snipers e observadores em posições alternadas, cobrindo vastas áreas no campo de batalha.

Um duelo de snipers

Ao longo da Batalha de Stalingrado, Zaitsev seria responsável por abater ao menos 225 soldados nazistas, ganhando status de herói e tornando-se um símbolo da resistência soviética. O atirador participaria de outras campanhas, ingressando no rol dos snipers mais letais da história.

Documentos coevos do Exército Vermelho creditam a Zaitsev entre 242 e 257 mortes. Outras contagens não oficiais registram cifras ainda maiores, chegando a 468 mortes, incluindo dezenas de snipers inimigos.

Em suas memórias, Zaitsev registrou que costumava "matar quatro ou cinco alemães todos os dias". Entre as façanhas atribuídas ao soviético consta um famoso duelo travado contra o major Erwin König — um talentoso sniper nazista que teria sido enviado a Stalingrado com a missão de eliminá-lo.

O envio de um oficial de alta patente em uma missão de caça seria algo bastante incomum. Segundo o próprio Zaitsev, Erwin König era diretor de uma escola de franco-atiradores em Berlim.

O duelo entre os dois snipers se estenderia por três dias. O embate chegou ao fim quando o reflexo do Sol na luneta do fuzil denunciou a posição de König. O soviético aproveitou a oportunidade e o abateu com um tiro certeiro.

O relato de Zaitsev foi contestado por Antony Beevor. O historiador britânico afirma não ter encontrado registros de um major "Erwin König" nas Forças Armadas da Alemanha nazista e atribuiu a história à propaganda de guerra soviética.

A história do duelo foi parcialmente referendada por Alan Clark no livro "Barbarossa", onde o sniper alemão é identificado como "Heinz Thorvald", um coronel da Schutzstaffel (SS). Já o historiador russo Oleg Kaminsky afirma que "Erwin König" seria, na verdade, Hermann Stoff, um sniper alemão creditado com a morte de mais de 100 soldados soviéticos.

Outras campanhas

Zaitsev permaneceu lutando em Stalingrado até janeiro de 1943, quando foi atingido por estilhaços durante um ataque de morteiros, ficando com a visão comprometida.

Levado às pressas para Moscou, ele foi operado pelo célebre oftalmologista Vladimir Filatov, um dos pioneiros do transplante de córnea e fundador do Instituto Filatov de Doenças Oculares. O tratamento permitiu que o atirador soviético recuperasse parcialmente a visão.

Enquanto se recuperava, Zaitsev foi incumbido de treinar novos quadros para o Exército Vermelho. Ele escreveu dois manuais para atiradores de elite e foi responsável por formar ao menos 30 novos snipers.

Em 22 de fevereiro de 1943, Zaitsev foi oficialmente condecorado com o título de Herói da União Soviética. Nesse mesmo ano, tornou-se membro do Partido Comunista. Ele também seria laureado com a Ordem de Lenin, com a Ordem do Estandarte Vermelho e com a Ordem da Guerra Patriótica.

Zaitsev voltou a atuar na linha de frente ainda em 1943. Ele participou da ofensiva do Donbass e da Batalha do Dniepre e encerrou sua contribuição lutando na Batalha das Colinas de Seelow, às vésperas da queda do Terceiro Reich.

Pós-guerra

Com a derrota da Alemanha nazista e o fim da Segunda Guerra Mundial, Zaitsev pediu dispensa do Exército Vermelho e se estabeleceu em Kiev, na Ucrânia, onde se graduou como engenheiro têxtil e passou a trabalhar em uma fábrica. Ele se casou com Zinaida Sergeyevna, uma militante do Partido Comunista.

Zaitsev publicou uma autobiografia intitulada "Memórias de um franco-atirador em Stalingrado". Sua história também foi retratada no livro "Enemy at the Gates: The Battle for Stalingrad", do historiador norte-americano William Craig.

Vassili Zaitsev viveu em Kiev até sua morte, em 15 de dezembro de 1991, aos 76 anos de idade — 11 dias antes da dissolução da União Soviética. Monumentos em sua homenagem foram erguidos nas cidades de Yeleninka, Yaroslavl e Vladivostok.

A participação de Zaitsev na Batalha de Stalingrado também foi retratada no filme "Círculo de Fogo", de Jean-Jacques Annaud. A obra é imbuída de um discurso fortemente anticomunista e repleta de imprecisões históricas, vilanizando o alto comando soviético e retratando o Exército Vermelho como um agrupamento militar sucateado, amador e desprovido de senso humanitário. O filme foi muito criticado pelos espectadores russos e pelos descendentes de Zaitsev.

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