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Filiação de Moro ao PL foi um dos maiores motivos da desistência de Ratinho, diz professor

brasildefato.com.br By https://www.facebook.com/brasildefato 2026-03-24 780 words
O governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), surpreendeu o cenário político nacional ao anunciar sua desistência da candidatura à presidência da República. A decisão, oficialmente atribuída a um "consenso familiar", tem implicações profundas para a corrida eleitoral no estado e para a reorganização das forças políticas no campo da direita e da extrema direita.

O professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Ronaldo Gaspar, desfaz a versão apresentada pelo governador: "A decisão expressa, a meu ver, muito menos essa preocupação de natureza familiar e mais a percepção de que seria muito difícil ocupar o espaço que foi ocupado por Bolsonaro e seu filho. Disputar esse espaço com chances de vitória eleitoral parecia inviável".

Ele explica no Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, que Ratinho optou por se manter no Paraná para tentar preservar seus índices de popularidade e viabilizar um sucessor.

Um dos principais motivos para a decisão de Ratinho foi o desembarque do ex-juiz Sérgio Moro no PL para disputar o governo do Paraná. "Com Moro no PL, essa franja bolsonarista tende a sair de uma candidatura apoiada por Ratinho. Ele corre o risco de não ter a participação dos bolsonaristas nessa candidatura."

Gaspar caracteriza Ratinho como um político de direita que flerta com a extrema direita, mas não é um "bolsonarista raiz". "Ele é aliado do bolsonarismo em diversos aspectos, implementa políticas semelhantes, especialmente nos aspectos econômicos neoliberais, mas tem dificuldade de se alinhar em todos os âmbitos. Seu governo e sua candidatura procuram uma certa distinção para não ser mais um bolsonarista entre outros."

Com a candidatura de Moro consolidada, o cenário eleitoral no Paraná se define. "Moro vai sair como candidato estrito do bolsonarismo. Ratinho terá que fazer muita campanha para esvaziar essa base bolsonarista que está com Moro. Se não conseguir, sua candidatura não se viabiliza."

Os possíveis sucessores de Ratinho — Alexandre Curi, presidente da Assembleia Legislativa, e Guto Silva, secretário do governador — são figuras sem estofo eleitoral significativo, segundo Gaspar. "Para disputar espaço com Moro, eles vão precisar de muita campanha."

Gaspar vê espaço para a esquerda e o centro. "A disputa vai se dar fundamentalmente entre um segmento mais ao centro, ligado ao MDB e PT, na candidatura do Requião, e Moro, que neste momento é o favorito. Mas não é uma candidatura inviável."

A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), foi indicada por Lula para concorrer ao Senado pelo Paraná. Atualmente, as pesquisas a colocam em terceiro ou quarto lugar. Gaspar pondera que o cenário ainda é fluido. "Antes de começar o processo eleitoral, antes de as candidaturas se moverem e apresentarem suas plataformas, o cenário pode se modificar."

Ele lembra que a chapa Moro-Dallagnol representa o "lavajatismo" — uma força que antecedeu e alimentou o bolsonarismo. "Há tensões e dissensões dentro desse espectro bolsonarista-lavajatista. Eles se aliam em diversos aspectos, mas não são exatamente a mesma coisa. Além disso, não parecem trazer respostas para as camadas mais pobres da população paranaense."

A desistência de Ratinho também tem impacto nacional. Gaspar analisa que o governador percebeu a dificuldade de competir com a polarização Lula-Flávio Bolsonaro. "Seria muito difícil ocupar o espaço que foi ocupado por Bolsonaro e seu filho. Disputar esse espaço com chances de vitória eleitoral parecia muito difícil."

Sobre a tentativa de Flávio Bolsonaro de se apresentar como "moderado", Gaspar é cético. "Bolsonaro e moderação não cabem numa mesma linha. O bolsonarismo é por natureza um extremismo de direita. Se por um lado Flávio procura acenar para um segmento de centro, por outro lado isso parece uma certa traição aos princípios que moveram o governo Bolsonaro. Vai ser difícil manter a fidelidade plena da sua base."

Com a saída de Ratinho, Ronaldo Caiado (União Brasil-Goiás) desponta como uma alternativa no campo da direita. Gaspar lembra que Caiado é uma figura de longa data da extrema direita brasileira. "Ele se alinhou estritamente ao bolsonarismo na última década, passou de defensor dos grandes proprietários de terras para uma figura importante do bolsonarismo, mas com baixa viabilidade eleitoral."

A desistência de Ratinho, conclui Gaspar, escancara a dificuldade de qualquer candidatura que não seja Lula ou Flávio de furar a polarização. No Paraná, a batalha se dará entre o "lavajatismo" representado por Moro e as forças de centro-esquerda e centro, em uma disputa que pode expor as fraturas internas do bolsonarismo e abrir espaço para candidaturas alternativas.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

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