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Globo de Ouro pode tornar Brasil país-sede de premiação latina

mais.opovo.com.br By Arthur Gadelha 2026-03-28 998 words
Resumo

O protagonismo internacional do cinema brasileiro, consolidado pelas vitórias históricas de Fernanda Torres e Wagner Moura entre 2025 e 2026, culminou na realização do inédito Golden Globes Tribute Gala Brazil no Copacabana Palace. O evento, que homenageou ícones como Fernanda Montenegro e Antônio Pitanga, marca uma expansão estratégica do Globo de Ouro fora dos Estados Unidos e sinaliza a futura criação de um "Globo de Ouro Latino" com sede no Brasil.

Em 2025, as vitórias históricas de Fernanda Torres no Globo de Ouro e "Ainda Estou Aqui" no Oscar reacenderam uma chama na esfera internacional em torno do óbvio: mais do que atender a um País com 200 milhões de habitantes, o cinema brasileiro também sabe se comunicar com o mundo. Para nós essa resposta sempre foi óbvia, basta lembrar que em 1962, "O Pagador de Promessas" se tornou o primeiro brasileiro a vencer a Palma de Ouro em Cannes e a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional.

No dia 18 de março de 2026, a organização do Globo de Ouro deu um passo pioneiro na configuração atual de Hollywood ao levar sua tradicional cerimônia, pela primeira vez, para fora do círculo norte-americano. Intitulado de Golden Globes Tribute Gala Brazil, o evento remontou seu aspecto exclusivo de celebração para homenagear exclusivamente artistas brasileiros. Fernanda Montenegro e Antônio Pitanga, expoentes vívidos diante da perspectiva do que é fazer TV, teatro e cinema no Brasil, foram os grandes reverenciados da noite com o Troféu Apogeu.

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"Grandes histórias nos conectam através de culturas, continentes e gerações", discursou Helen Hoehne, presidente do Globo de Ouro, para inaugurar a edição no Copacabana Palace, clássico hotel no Rio de Janeiro que replica o glamour do Beverly Hilton Hotel, onde o evento acontece em Los Angeles desde os anos 1960. Para além do luxo, perpetuando a estética "baile de gala" que faz sucesso em Hollywood, o que realmente deve ficar como influência e legado?

Primeiramente, há um propósito interessante de expandir a marca
do evento ao se vincular diretamente com outras indústrias fora dos Estados Unidos. Como já foi confirmado pelos organizadores, há pelo menos mais duas edições confirmadas até 2028, gesto que espera amadurecer para a fundação de um "Globo de Ouro Latino". A ideia tem uma força própria, principalmente, pela possibilidade de tornar o Brasil o país-sede do cinema produzido nos países da América do Sul. Embora a indústria do entretenimento norte-americano tenha iniciativas semelhantes para expandir suas premiações, como o Emmy Internacional (TV) e Grammy Latino (música), nenhum desses eventos acontece fora dos EUA.

Em outra mão, o evento já mostra para o mundo que o Brasil tem uma força artística muito plural que ainda não tem holofotes o suficiente. Em 2020, a vitória do sul-coreano "Parasita" como Melhor Filme no Oscar já parece ter ligado o alerta de que Hollywood não dá - e nunca deu - conta de tudo. A linguagem do cinema, afinal, está para muito além das fronteiras de mercado que sustentam o mecanismo norte-americano.

Se uma pessoa comum ao redor do mundo pensa em países referenciais de cinema e lhe vem à cabeça Itália, França, Irã ou Japão, ultimamente tem se tornado mais improvável que ela não adicione Brasil a essa lista. Se essa pessoa hipotética, do Egito ou da Noruega, poderia apontar apenas "Cidade de Deus" (2002) como o último grande filme brasileiro, hoje certamente conhece um carioca e um pernambucano, em anos seguidos, chamando atenção do mundo inteiro.

Em 2025, a Academia de Artes e Ciências de Hollywood enviou uma comitiva com o CEO Bill Kramer ao Festival do Rio para falar sobre a "ascensão do cinema brasileiro internacionalmente". Em 2026, dois meses depois de Wagner Moura e "O Agente Secreto" vencerem o Globo de Ouro numa noite catártica, o 1º Golden Globes Tribute Gala constata o que para nós sempre foi evidente, que não dá para imaginar o mundo sem as imagens, histórias e memórias do Brasil.

Homenageados da Noite

Troféu Apogeu: Antônio Pitanga (foto) e Fernanda Montenegro foram os principais reverenciados da noite. A escolha é revigorante porque além de serem presenças estruturais na história da arte brasileira, os dois artistas seguem ativos. Em 2025, Pitanga lançou "Malês", seu segundo longa como diretor. Montenegro está agora mesmo em cartaz com um novo filme, a comédia "Velhos Bandidos", dirigida pelo filho Cláudio Torres.

Troféu Ascensão: Valentina Herszage (foto) e Adolpho Veloso foram laureados com uma espécie de "prêmio revelação". Valentina foi alçada aos holofotes pela participação especial em "Ainda Estou Aqui", primeiro filme brasileiro a vencer o Oscar. Já Adolpho está na mídia neste ano pela indicação ao Oscar de Melhor Fotografia pelo filme americano "Sonhos de Trem".

O que é o Globo de Ouro?

Fundado em 1944 por jornalistas estrangeiros residentes em Los Angeles, O Globo de Ouro é uma cerimônia quase tão antiga quanto o Oscar. Sua principal identidade é não ser formada por artistas da indústria e não permitir votantes nascidos nos EUA. A premiação tem uma posição estratégica no calendário americano porque costuma ser o primeiro grande evento midiático do ano, e a escolha dos vencedores costuma influenciar, cristalizar ou encerrar rumos da temporada. Em 2025, por exemplo, a indicação de Fernanda Torres ao Oscar de Melhor Atriz só aconteceu porque sua vitória no Globo de Ouro lhe deu a visibilidade no momento certo.

Voto do O POVO

Em 2025, o repórter do Vida&Arte Arthur Gadelha passou a integrar o corpo de votantes internacionais da premiação para sua 83ª edição, que aconteceu em janeiro de 2026. A cada ano, a organização convida ou renova cerca de 250 críticos de cinema de veículos com coberturas internacionais fora dos EUA para tornar mais ampla a influência da imprensa estrangeira sobre a escolha dos indicados e vencedores. Além do O POVO, os demais jornais brasileiros com representantes são O Globo, Valor Econômico, Veja, UOL, Folha de S. Paulo, Estado de São Paulo e Correio da Manhã. (Isabel Costa)

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