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"Vidas Passadas": filme na Netflix mostra que escolhas doem para sempre

mais.opovo.com.br By Fernando Graziani 2026-03-28 815 words
Resumo

Recém-chegado ao catálogo da Netflix, o longa "Vidas Passadas", dirigido por Celine Song e indicado ao Oscar 2024, destaca-se como um drama introspectivo que subverte os clichês do triângulo amoroso para refletir sobre identidade, escolhas e o peso do tempo. Através do reencontro entre Nora (Greta Lee) e seu amigo de infância Hae Sung (Teo Yoo), a narrativa utiliza silêncios e uma estética contemplativa para explorar a melancolia das vidas que deixamos para trás, consolidando-se como uma obra de rara sensibilidade sobre a maturidade emocional e o custo inevitável de seguir em frente.

Não raro, quando converso sobre cinema, pergunto às pessoas se elas já assistiram a "Vidas Passadas". Faço isso por dois motivos: gosto demais do filme e entendo que ele não possui a valorização merecida. Por mais que tenha sido indicado ao Oscar 2024 em duas categorias (Roteiro Original e Melhor Filme), percebo que muita gente ainda não o conhece.

Como ainda estou no começo deste texto, aproveito, então, para perguntar, agora nas páginas do O POVO: já viu "Vidas Passadas"? Caso a resposta seja negativa, surge agora uma ótima oportunidade: a produção ficou disponível recentemente na Netflix.

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De cara, adianto: é uma história que machuca, deixando muito claro que as decisões que tomamos, assim como aquelas que optamos por não tomar, têm consequências inesperadas. É a partir dessa ideia simples, mas profundamente humana, que o enredo constrói a força e a angústia dos personagens, revelando aquilo que, no amor, vai sendo edificado ou ficando pelo caminho.

Em vários momentos, a obra deixa evidente que tudo o que poderia ter sido não ficou para trás por culpa do acaso, mas pela responsabilidade emocional dos próprios protagonistas diante da vida que decidiram seguir. Longe de grandes aventuras e reviravoltas, o longa encontra seu grande mérito justamente no não dito, no que poderia ter sido e nunca será. Até porque o elenco é brilhante ao expressar sentimentos profundos, muitas vezes sem precisar verbalizar.

Dirigido pela canadense Celine Song, o roteiro acompanha Nora, vivida com precisão por Greta Lee, uma dramaturga que construiu sua vida em Nova York após emigrar ainda criança da Coreia do Sul. Ao longo da história, sua trajetória se cruza novamente com a de Hae Sung, interpretado por Teo Yoo, amigo de infância e símbolo de um passado que nunca deixou de existir completamente. Entre os dois está Arthur, o marido de Nora, papel de John Magaro, que representa não um obstáculo, mas a materialização de uma vida construída com maturidade e afeto.

"Vidas Passadas" tem uma ótima sacada porque subverte brilhantemente a expectativa de um triângulo amoroso tradicional, mas nada disso se concretiza, até porque o roteiro cria um espaço em que todos os personagens são compreensivos e sensíveis. Essa ausência de conflito explícito pode causar estranhamento à primeira vista, mas é exatamente aí que mora a originalidade da obra, em um contexto até comum. O conflito que surge é interno: uma reflexão sobre identidade, pertencimento e os caminhos que inevitavelmente abandonamos ao longo da vida. Não é fácil.

Celine Song conduz tudo com um olhar contemplativo. O ritmo é pausado, os diálogos são econômicos. Há uma confiança rara na capacidade do espectador de ir preenchendo lacunas, de perceber nuances e de se aproximar dos personagens sem que tudo precise ser dito.

A relação entre Nora e Hae Sung está longe de ser apenas romântica. Ela carrega o peso do tempo, da distância, da amizade e das versões que ambos precisaram deixar para trás ao longo da vida. Nora jamais deixa de ser honesta, inclusive quando demonstra dúvida. Já Arthur não surge como um rival, mas está ali como alguém que compreende - ou faz de tudo para compreender - essa complexidade emocional em que se vê envolvido de repente, já que até então vivia em aparente segurança. Esse equilíbrio transforma o que poderia ser um drama convencional em uma reflexão delicada sobre o custo inevitável de seguir em frente ou não.

Visualmente, a obra reforça essa proposta intimista. A câmera observa os personagens com discrição, muitas vezes à distância, de forma totalmente proposital, como se respeitasse a intimidade daquele reencontro, mas sempre atiçando a curiosidade sobre o que vem a seguir. Pequenas pausas ganham protagonismo, criando uma atmosfera melancólica e acolhedora, mas que também provoca angústia (eu disse lá no começo que o longa machuca, e não é mentira).

No fim das contas, "Vidas Passadas" fala sobre aquilo que não vivemos. Sobre as existências que ficaram pelo caminho e que, de alguma forma, continuam nos acompanhando. É tudo muito bonito, comovente e sofrido, buscando mostrar que crescer também é abrir mão e amadurecer envolve aceitar que nem todas as possibilidades podem coexistir.

Sem recorrer a grandes explosões dramáticas, Song entrega uma obra de rara sensibilidade, que permanece ecoando muito depois dos créditos finais. Assista, vale a pena.

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