Giro Cine Ninja Europa: entre domesticação e fuga, o cinema brasileiro na França
Um percurso crítico pelas tensões que atravessam a circulação internacional das imagens brasileiras
Por Fernanda Merizio
Pensar a circulação do cinema brasileiro na França talvez exija deslocar a ideia de difusão para o terreno das disputas simbólicas. Não se trata de um fluxo neutro, contínuo, mas de uma rede de mediações, seleções e enquadramentos que inscrevem essas imagens em uma história mais longa de assimetrias. O que circula não é exatamente o "cinema brasileiro", mas um conjunto de obras que se tornam visíveis e legitimadas segundo critérios específicos, frequentemente atravessados por hierarquias estéticas e políticas.
Podemos talvez melhor entender essa circulação como um campo de forças, atravessado por linhas que se cruzam, se desviam e se reconfiguram. Os festivais franceses não apenas selecionam os filmes, mas também produzem as condições de sua legibilidade, exigindo uma certa transparência que muitas vezes entra em tensão com gestos que desestabilizam e até contaminam os próprios circuitos que os acolhem. Gestos que não se deixam reduzir a um regime do Verdadeiro, no sentido de Édouard Glissant¹.
Mais do que mapear presenças, trata-se de devorar esses espaços de circulação e de interrogar como o cinema brasileiro é traduzido e domesticado no contexto francês. Ao mesmo tempo, tornam-se incontornáveis os gestos de resistência que nele se insinuam e se entrelaçam, compondo uma trama em lianas, onde cada gesto se apoia em outro sem jamais se fixar. Devorar, aqui, não apenas no sentido de absorver, mas de deslocar — isto é, perceber que esses circuitos também podem ser tensionados pelas próprias formas cinematográficas que neles emergem.
É nesse sentido que as reflexões de Victor Guimarães² se tornam particularmente instigantes. Entre a universalização — que apaga as marcas históricas e materiais dos filmes — e a exotização — que os reduz a signos de alteridade — constrói-se um regime de visibilidade que molda não apenas a recepção, mas as próprias condições de existência dessas imagens no circuito internacional.
Não por acaso, o ensaio de Guimarães nasce também de uma experiência situada no interior do próprio circuito que analisa. Uma primeira versão foi apresentada em Toulouse, em um colóquio, enquanto o autor atuava como jurado no Cinélatino. Pensar a circulação a partir desse lugar — no momento em que os filmes são vistos, comparados, premiados — interage com o próprio gesto crítico.
Essa posição ecoa nas experiências que atravessam este texto. Em 2022, trabalhando no Cinéma du Réel, me deparei com "Mato seco em chamas", de Adirley Queirós e Joana Pimenta, na competição internacional. Adirley já era um nome decisivo no cinema brasileiro dos anos 2010 — e, ainda assim, havia uma espécie de suspensão no ar, como se aquele reconhecimento ainda estivesse por vir. O Grand Prix lhe foi atribuído — mas com não menos que uma década de atraso.
No ano seguinte, no FID Marseille, ao mencionar seu nome com entusiasmo entre colegas, a surpresa foi outra: pareciam simplesmente não o conhecer. Como se certas obras precisassem atravessar um regime de percepção "dominante" para existir plenamente. O festival corrigiria parcialmente esse descompasso em 2024, com uma retrospectiva. Mas a sensação de arritmia persiste como sintoma.
No Regards Satellites, uma retrospectiva de Adirley Queirós ao lado de Lincoln Péricles propunha outro tipo de gesto. O festival acontece todos os anos nesse território — onde habito desde minha migração para a França — marcado por uma história de migração, de periferias urbanas e de circulações que ressoam, de forma não evidente, com as geografias do cinema brasileiro contemporâneo.
Sob o título "Matéria e memória das periferias brasileiras", a curadoria não buscava agrupar os cineastas sob uma mesma categoria, mas aproximar sem assimilar. No catálogo, a crítica e programadora Claire Allouche, atenta às questões em jogo nesse tipo de gesto curatorial, escreve sobre a necessidade de fazer emergir aquilo que, em cada filme, permanece irredutível.
Essa tentativa de suspender a equivalência — de não reduzir os filmes a uma identidade periférica como identidade estável, ou a uma forma reconhecível — encontra, no entanto, tentativas de recepção persistentes. Lembro de uma pergunta vinda do público após uma das sessões: "Isso acontece mesmo no Brasil?".
Mais do que curiosidade, esse reflexo — nada inédito — revela uma lógica conhecida: a de um olhar que exige dos filmes uma função de confirmação. Como se sua validade dependesse sobretudo de uma garantia do real. Nesse gesto, a exotização opera como um regime de leitura que captura as imagens e as reduz a marcadores de alteridade, neutralizando aquilo que nelas poderia permanecer não assimilável.
Daí a presença de realizadores brasileiros parecer operar como um ponto de fricção. Ao deslocar a posição do filme, de objeto a ser interpretado para situação de encontro, abre-se a possibilidade de tensionar essas leituras imediatas e de reinscrever as imagens em um campo de experiência compartilhada. Aqui, forma, processo e matéria voltam a se entrelaçar. Nesse encontro, algo passa a agir, a afetar e a desestabilizar o próprio espaço da recepção.
Não por acaso, muitos dos debates do festival gravitavam em torno das condições de elaboração desses filmes e da maneira como os diretores trabalham a partir de limites: de produção, de visibilidade, de linguagem. Longe de serem obstáculos, esses limites aparecem como forças ativas, capazes de engendrar formas singulares, que não se deixam reduzir facilmente às lógicas de forma, fundo, ou mesmo de representação.
A Cinémathèque idéale des banlieues du monde, concebida por Alice Diop, insere-se no mesmo horizonte do Regards Satellites, ao propor uma revisão crítica das formas de visibilidade das periferias. Além de obras de Adirley e Lincoln, esse espaço conta com filmes de Priscila Nascimento, Natali Mamani, Cristyelen Ambrozio, Avelino Regicida, Karina Pretita, Lillah Halla, Nay Mendl, Stheffany Fernanda, Vita Pereira, Rosa Caldeira e Juan Andrés Arango.
Por um lado, essa dinâmica da circulação de filmes brasileiros no território francês pode ser observada em experiências mais situadas, como é o caso do Brésil en Mouvement — festival de documentário com viés sociopolítico e militante. Esse festival propõe uma noção de "cinema nacional" em sentido amplo, como espaço de reflexão simbólica, estética e sociopolítica.
Já no Festival du cinéma brésilien de Paris, os filmes se inscrevem em uma lógica mais panorâmica, em que o cinema brasileiro aparece como uma cinematografia ampla, diversa e relativamente estabilizada para o olhar francês: do melodrama ao filme histórico, do cinema de gênero às obras já legitimadas por Cannes, Berlim ou pelo Oscar. Neste ano, a competição de ficção reúne nomes como Antônio Pitanga, Susanna Lira, José Eduardo Belmonte, Cláudio Torres e Susana Garcia, enquanto a mostra documental inclui filmes de Sérgio Machado, Lírio Ferreira, Karen Harley, Flávia Moraes, Lucas Weglinski e Pedro Dumans. A programação hors compétition traz ainda Walter Salles, Kleber Mendonça Filho, Karim Aïnouz, Gabriel Mascaro e Marianna Brennand. Os homenageados da edição serão Lázaro Ramos e Taís Araújo, e o festival dedica também um tributo a Paulo Gustavo.
O cinema brasileiro também marca sua presença em um conjunto mais amplo de espaços dedicados exclusivamente ao cinema latino-americano. Nesses contextos, os festivais não operam segundo uma mesma lógica: alguns privilegiam um quadro interpretativo explicitamente político, outros funcionam mais como vitrines de consagração, enquanto outros ainda investem em formas de mediação mais abertas à experimentação e à heterogeneidade estética. Não se trata de estabelecer uma oposição rígida entre os espaços, mas de reconhecer que os modos de exibição e mediação produzem diferentes possibilidades de encontro com os filmes e de disputas.
O Cinélatino – Rencontres de Toulouse aparece como um grande espaço histórico de mediação entre América Latina e Europa, contando com a presença massiva de realizadores, que ora participam de debates, ora circulam por encontros profissionalizantes. A presença brasileira ali é relevante e plural, e o Brasil não aparece apenas como "tema social", mas como diversidade formal.
Neste ano foram programados os longas de ficção "Nosso segredo", de Grace Passô, e "Ela foi ali guardar o coração na geladeira", de Gustavo Galvão e Cristiane Oliveira, além do longa documentário "A vida secreta de meus três homens", de Letícia Simões. A programação de curtas-metragens conta com filmes de Kimberly Palermo, Rosana Urbes, Deivison Fiuza, Sofia Leão, Leonardo Martinelli, Denilson Baniwa e Felipe Bragança.
Em Pessac, a programação do Les Rencontres du cinéma latino-américain parece mais fortemente organizada por um recorte político-temático explícito — ditadura, lawfare e relações de poder. A programação conta com os filmes "Cyclone", de Flavia Castro, e "O Último Azul", de Gabriel Mascaro.
Já o Festival Biarritz Amérique Latine atua sobretudo como instância de consagração. O que importa ali não é tanto a pluralidade da presença brasileira, mas o valor simbólico de sua seleção e premiação. A competição contou com o longa-metragem "A Melhor Mãe do Mundo", de Anna Muylaert (Prix coup de coeur), além dos documentários "Copan", de Carine Wallauer, e "Hora do recreio", de Lúcia Murat. Já a competição de curta-metragens contou com filmes de Felipe Bibian e Leonardo Martinelli.
O Les Reflets du cinéma ibérique et latino-américain, por sua vez, opera com uma lógica de coprodução e enfatiza a relação entre memória histórica e política. O Brasil aparece ali menos como volume e mais como ponto de articulação França-Brasil. Neste ano o festival programou os filmes de Gabriel Mascaro e Vincent Boujon (realizador francês).
Nesse panorama, o Festival des 3 Continents ocupa um lugar singular. Espaço histórico dedicado ao cinema africano, asiático e latino-americano, o festival articula uma tradição cinefílica forte — marcada pela revelação de autores — com a tentativa de construir espaços de encontro, escuta e transformação entre os três continentes. Em 2025, o festival programou os longas "Iracema – Uma Transa Amazônica", de Jorge Bodansky e Orlando Senna, e "Suçuarana", de Clarissa Campolina e Sérgio Borges (Prix du Jury Jeune).
A circulação do cinema brasileiro na França não pode, portanto, ser pensada como uma cartografia estabilizada e homogênea, nem como um simples mecanismo de reconhecimento. O que se instaura é um campo atravessado por forças contraditórias — entre domesticação e fuga, tradução e opacidade, captura e desvio. Se certos dispositivos tendem a enquadrar, tornar legível, organizar, outros deixam emergir zonas de fricção onde os filmes não se deixam reduzir.
É talvez nesse intervalo — nesse entre-lugar — que o cinema brasileiro permanece vivo!
GUIMARÃES, Victor. "Escrever e programar a partir da América Latina: respostas críticas e curatoriais à circulação europeia do cinema latino-americano". In: "Crítica e curadoria em cinema: múltiplas abordagens", Laécio Ricardo de Aquino Rodrigues. Belo Horizonte, 2023.
GLISSANT, Édouard. "Nada é verdadeiro, tudo é vivo". "Rien n'est vrai, tout est vivant". In: "Les Transformations du vivant dans un monde en relation". Maison de l'Amérique Latine, Paris, 2010.
ALLOUCHE, Claire. "Matéria e memória das periferias". "Matière et mémoire des périphéries". Programme Festival Regards Satellites, Saint-Denis, 2025.
Links e datas dos festivais citados:
Cinémathèque idéale des banlieues du monde
Regards Satellites — 13 a 22 de fevereiro de 2026
Les Rencontres du cinéma latino-américain – Pessac — 11 a 15 de março de 2026
Cinélatino – Rencontres de Toulouse — 20 a 29 de março de 2026
Cinéma du Réel — 21 a 28 de março de 2026
Les Reflets du cinéma ibérique et latino-américain – Lyon — 25 a 31 de março de 2026
Festival du cinéma brésilien de Paris — 7 a 14 de abril de 2026
FID Marseille — 7 a 12 de julho de 2026
Festival Biarritz Amérique Latine — 26 de setembro a 2 de outubro de 2026
Brésil en Mouvements — provavelmente em setembro de 2026
Festival des 3 Continents — 20 a 28 de novembro de 2026
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Source Quality
Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
Summary
Relies on secondary sources like theorists and critics, with some named experts but no primary interviews or documents.
Specific Findings from the Article (4)
"Édouard Glissant¹"
Cited theorist without direct interview
Secondary source"Victor Guimarães²"
Cited academic without direct interview
Secondary source"Claire Allouche, atenta às questões"
Named critic and programmer
Named source"Alice Diop, insere-se no mesmo horizonte"
Named filmmaker referenced indirectly
Secondary sourcePerspective Balance
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
Summary
Acknowledges multiple perspectives on how Brazilian cinema is framed in France, though primarily from critical/academic viewpoint.
Specific Findings from the Article (3)
"entre domesticação e fuga, tradução e opacidade, captura e desvio"
Presents opposing forces in circulation
Balance indicator"Não se trata de estabelecer uma oposição rígida entre os espaços"
Explicitly avoids rigid opposition
Balance indicator"alguns privilegiam um quadro interpretativo explicitamente político, outros funcionam mais como vitrines"
Compares different festival approaches
Balance indicatorContextual Depth
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
Summary
Provides extensive historical, theoretical, and festival-specific context with detailed examples.
Specific Findings from the Article (3)
"uma história mais longa de assimetrias"
Historical context of asymmetries
Background"Em 2022, trabalhando no Cinéma du Réel"
Specific temporal context
Context indicator"O festival corrigiria parcialmente esse descompasso em 2024"
Timeline of festival responses
Context indicatorLanguage Neutrality
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
Summary
Mostly academic/analytical language with minor instances of potentially loaded terms.
Specific Findings from the Article (3)
"Pensar a circulação do cinema brasileiro na França"
Analytical, neutral framing
Neutral language"Podemos talvez melhor entender essa circulação como um campo de forças"
Theoretical, neutral language
Neutral language"devorar esses espaços de circulação"
Metaphorical language could be seen as dramatic
SensationalistTransparency
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
Summary
Clear author attribution, date, and citations, though methodology is implicit rather than explicit.
Specific Findings from the Article (3)
"Por Fernanda Merizio"
Clear author attribution
Author attribution"GUIMARÃES, Victor. "Escrever e programar a partir da América Latina:"
Full citation provided
Quote attribution"ALLOUCHE, Claire. "Matéria e memória das periferias""
Full citation provided
Quote attributionLogical Coherence
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
No logical inconsistencies detected; argument develops coherently from theoretical framing to specific examples.
Core Claims & Their Sources
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"The circulation of Brazilian cinema in France is not neutral but involves symbolic disputes, mediation, and framing within historical asymmetries."
Source: Theoretical framework drawing on Édouard Glissant and Victor Guimarães Named secondary
-
"French festivals domesticate Brazilian cinema through selection and interpretation, but films also resist through formal gestures that destabilize reception."
Source: Author's analysis supported by festival examples and critic Claire Allouche Named secondary
-
"Different French festivals operate with distinct logics (political, consensual, experimental) that produce varied encounters with Brazilian films."
Source: Author's comparative analysis of multiple festivals with specific programming examples Named secondary
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (7)
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P1
"Adirley Queirós won the Grand Prix at Cinéma du Réel in 2022"
Factual -
P2
"Regards Satellites festival occurred February 13-22, 2026"
Factual -
P3
"Festival Brésil en Mouvement has a sociopolitical and militant documentary focus"
Factual -
P4
"Cinélatino programmed specific Brazilian films in 2026 including "Nosso segredo" and "Ela foi ali guardar o coração na geladeira""
Factual -
P5
"Exoticization reduces films to markers of alterity causes neutralizes what remains unassimilable"
Causal -
P6
"Festival selection and framing criteria causes shape visibility and legitimacy of Brazilian cinema"
Causal -
P7
"Production limits (visibility, language, resources) causes engender singular cinematic forms"
Causal
Claim Relationships Graph
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: Adirley Queirós won the Grand Prix at Cinéma du Réel in 2022 P2 [factual]: Regards Satellites festival occurred February 13-22, 2026 P3 [factual]: Festival Brésil en Mouvement has a sociopolitical and militant documentary focus P4 [factual]: Cinélatino programmed specific Brazilian films in 2026 including "Nosso segredo" and "Ela foi ali guardar o coração na geladeira" P5 [causal]: Exoticization reduces films to markers of alterity causes neutralizes what remains unassimilable P6 [causal]: Festival selection and framing criteria causes shape visibility and legitimacy of Brazilian cinema P7 [causal]: Production limits (visibility, language, resources) causes engender singular cinematic forms === Causal Graph === exoticization reduces films to markers of alterity -> neutralizes what remains unassimilable festival selection and framing criteria -> shape visibility and legitimacy of brazilian cinema production limits visibility language resources -> engender singular cinematic forms
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.