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Irã em guerra, Mar do Norte na mira: por que perfurar mais petróleo não resolve a crise?

exame.com By Lia Rizzo 2026-04-03 1163 words
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Estreito de Ormuz: o corredor por onde passa um quinto do petróleo mundial virou epicentro de uma crise que não poupou nem quem mais produz. (Langevin Jacques / Colaborador/Getty Images)

Lia Rizzo

Editora ESG

Publicado em 3 de abril de 2026 às 17h25.

Um grupo de mais de 65 cientistas climáticos britânicos assinou uma carta aberta pedindo ao governo que não retome as perfurações de petróleo e gás no Mar do Norte.

O documento, publicado nas últimas semanas em meio à pressão política gerada pela guerra no Oriente Médio, poderia ter ficado restrito ao debate doméstico. Mas não ficou.

A pergunta que ele coloca ressoa em governos, indústrias e pesquisadores do mundo todo: produzir mais petróleo resolve uma crise causada pela dependência do petróleo?

A carta não é só uma advertência ambiental, mas econômica. Cerca de 90% das reservas do Mar do Norte já foram extraídas ao longo de décadas, o que significa que qualquer produção adicional teria impacto marginal num mercado global que já não respeita fronteiras nacionais.

A lógica ficou evidente com a guerra. No Texas, uma das maiores regiões exportadoras de petróleo do mundo, os preços nos postos subiram cerca de 25% desde o início do conflito, mais do que em países importadores como o próprio Reino Unido. Portanto, nem quem mais produz saiu ileso.

Não é a primeira vez que o mundo se vê nessa situação. A invasão russa na Ucrânia em 2022 provocou um choque e impactos semelhantes. Na época, o pânico dominou nações europeias dependentes do gás russo, que se viram forçadas a buscar fornecedores alternativos.

Algumas, como a Espanha, aceleraram a implantação de solar e eólica e saíram mais protegidas. Outras, como a Polônia e temporariamente a própria Alemanha, voltaram ao carvão e ao gás doméstico. Agora o mesmo padrão se repete, com outros personagens.

Desta vez, quem paga o preço mais alto é a Ásia. Quase 90% do petróleo e gás que passa pelo Estreito de Ormuz vai para mercados asiáticos. Bangladesh fechou universidades mais cedo e as Filipinas reduziram a jornada de trabalho de servidores públicos diante da escassez de combustível.

Para o secretário-geral da ONU, António Guterres, trata-se de uma vulnerabilidade estrutural, não de um acidente. Três quartos da humanidade vive em países importadores de combustíveis fósseis, dependentes de energia que não controlam, a preços que não conseguem prever.

O Reino Unido não é exceção - e os números mostram por quê.

No estudo "Would more North Sea drilling lower UK energy bills? Our analysis says no" (em livre tradução, "Mais perfurações no Mar do Norte reduziriam as contas de energia dos britânicos? Nossa análise diz que não"), pesquisadores de Oxford apontaram que, mesmo que a região maximizasse a extração no Mar do Norte e repassasse todas as receitas diretamente às famílias, a redução nas contas de energia seria de apenas £16 a £82 por ano.

Uma transição completa para renováveis poderia gerar economias de até £441 anuais por residência. Um dado mais significativo quando se considera que a análise observou preços de janeiro de 2026, antes do choque causado pela guerra no Irã

Uma transição completa para renováveis poderia gerar economias de até £441 anuais por residência. Um dado mais significativo quando se considera que a análise observou preços de janeiro de 2026, antes do choque causado pela guerra no Irã

Os próprios pesquisadores descrevem esse como um cenário conservador, em que as renováveis competem contra combustíveis fósseis relativamente baratos.

Ainda assim, as fontes limpas se mostraram significativamente mais competitivas. Com o petróleo mais caro, a vantagem das renováveis só aumenta.

Há ainda uma dimensão que o debate político costuma ignorar. As economias geradas pela transição para energia limpa seriam reduções anuais recorrentes que continuariam indefinidamente, enquanto o petróleo e o gás do Mar do Norte são recursos finitos que se esgotariam por volta de 2040.

A questão não é apenas quanto se economiza, mas por quanto tempo. E a história recente oferece um parâmetro concreto sobre o preço de postergar essa decisão.

Pesquisadores da mesma instituição calcularam que, se o Reino Unido tivesse reduzido sua dependência do petróleo e gás russo após a invasão da Crimeia em 2014, teria economizado cerca de £22 bilhões durante o pico de preços que se seguiu à invasão da Ucrânia.

Da mesma forma, caso tivesse adotado o caminho de emissões líquidas zero recomendado pelo Comitê de Mudança Climática, poderia evitar cerca de £70 bilhões em gastos com petróleo e gás entre 2022 e 2030.

São números que direcionam o debate para outro terreno e os mercados financeiros já parecem ter chegado à mesma conclusão.

Ações das chinesas CATL, Sungrow e BYD subiram entre 19% e 22% desde o início do conflito, acumulando US$ 70 bilhões em valor de mercado, superando o desempenho das petroleiras BP, Chevron, Shell e ExxonMobil, mesmo com o petróleo em alta de 47%.

A crise colocou a Europa numa contradição difícil de ignorar. Conforme análise publicada por Annelise Vendramini, professora e pesquisadora em finanças sustentáveis da FGV, a guerra no Oriente Médio talvez tenha configurado a mais relevante ameaça à competitividade da indústria europeia desde a interrupção do fornecimento de gás russo em 2022.

Como resposta ao choque de custos, a União Europeia decidiu flexibilizar o Sistema de Comércio de Emissões (ETS), principal mecanismo criado para pressionar a descarbonização do continente, ampliando a oferta de licenças de carbono no curto prazo para aliviar a pressão sobre setores industriais já sufocados pelos custos energéticos.

Presidente da UE, Ursula von der Leyen sinalizou a necessidade de modernizar o sistema para incorporar preocupações de competitividade. Na Itália, a primeira-ministra foi além e defendeu a exclusão imediata do setor termoelétrico do ETS. Para Vendramini, o movimento italiano ilustra o quanto a crise está testando os limites da política climática europeia.

A decisão, contudo, tem um custo político que vai além do cenário imediato. Como lembrou a especialista, organizações como a Carbon Market Watch alertam que flexibilizar o ETS em momentos de estresse envia um sinal preocupante ao mercado: o de que as regras do sistema podem ser alteradas sempre que houver pressão suficiente.

Para investidores que planejam projetos de energia limpa com horizonte de décadas, essa incerteza regulatória pesa tanto quanto o preço da energia.

O Brasil acompanha o debate a partir de uma posição que poucos países têm. Com 90% de energia renovável na matriz elétrica, segundo dados do Ministério de Minas e Energia, está estruturalmente menos exposto às oscilações do mercado fóssil do que a maioria das economias.

Num momento em que o petróleo mais caro torna tecnologias como veículos elétricos, hidrogênio verde e biocombustíveis ainda mais competitivas, essa posição pode se tornar uma vantagem econômica concreta, não apenas ambiental.

O desafio é saber aproveitá-la - e isso, alertam pesquisadores do Observatório do Clima, depende menos de decisões individuais do que de cooperação internacional.

Sem um esforço coordenado sobre a saída dos combustíveis fósseis, mesmo países bem posicionados seguem expostos à volatilidade econômica e aos impactos climáticos gerados pela dependência alheia.

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