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'Desastre térmico': Brasil deve bater recordes de calor em 2026 com El Niño e crise climática

exame.com By Sofia Schuck 2026-04-04 907 words
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Sob calor intenso, brasileiros enfrentam temperaturas cada vez mais extremas e o cenário deve piorar em 2026 (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 4 de abril de 2026 às 16h50.

Última atualização em 4 de abril de 2026 às 17h12.


Se o brasileiro já vinha sofrendo com as altas nos termômetros, a má notícia é que o segundo semestre de 2026 deve ser pior.

O alerta é do Cemaden, que caracterizou os próximos meses como um "desastre térmico" diante de uma dupla ameaça climática: o El Niño e os efeitos do aquecimento global em curso.

A combinação do fenômeno com 80% de chance de se estabelecer no Oceano Pacífico ainda este ano, chega a um planeta mais aquecido do que nunca. Os anos de 2023 a 2025 já entraram para a lista dos mais quentes da história, segundo o observatório europeu Copernicus.

O climatologista José Marengo, um dos autores da nota técnica enviada pelo Cemaden à Casa Civil, disse que 2026 pode superar os recordes.

Em fevereiro, o Brasil já registrou uma onda de calor que atingiu quase 42°C no Sul e colocou 511 municípios em risco.

Segundo especialistas, o 'desastre térmico' pode levar a impactos sem precedentes à saúde pública e economia.

Em dias de calor extremo, a população liga mais o ar-condicionado, único recurso eficaz quando a sensação térmica supera os 35°C. O resultado é peso financeiro: a conta de energia pode triplicar se o aparelho for usado por cerca de dez horas diárias.

Na agricultura, o calor constante combinado com extremos de seca e chuva reduz a produtividade e pressiona os preços. Os produtores de alimentos tendem a ser os mais afetados, com impacto direto na inflação e no bolso do consumidor.

O El Niño ocorre quando o Pacífico equatorial permanece ao menos 0,5°C acima da temperatura média por pelo menos três meses.

Parece pouco, mas o fenômeno tem dimensões colossais e equivale a uma piscina de água quente do tamanho da Amazônia Legal. Toda essa energia se propaga por correntes oceânicas e ventos, desencadeando uma cascata de desequilíbrios climáticos ao redor do planeta.

No Brasil, seus efeitos já são conhecidos: ondas de calor mais frequentes e longas, seca no Norte e chuvas acima da média no Sul.

O que agrava o cenário do fenômeno desta vez é a intensificação das mudanças climáticas, com menos vegetação para regular a temperatura devido ao desmatamento e com a formação de ilhas de calor devido ao concreto nas cidades.

"Vai acontecer, será muito quente e vamos sentir mais a partir de setembro. Mais que isso, é especulação", afirma Marengo.

"Vai acontecer, será muito quente e vamos sentir mais a partir de setembro. Mais que isso, é especulação", afirma Marengo.

Os modelos de previsão perdem precisão em períodos acima de dois meses, mas o cientista é categórico: as ondas de calor devem acontecer e podem bater recordes.

O Brasil já vive um período histórico de ondas de calor. Foram dez em 2024, oito em 2023 e sete em 2025 , mesmo sem os efeitos do El Niño. Com o fenômeno a caminho, a tendência é de agravamento, sobretudo nas regiões Sudeste e Centro-Oeste.

Outro fator menos visível que preocupa é a elevação das temperaturas mínimas. O termômetro passa o dia nas alturas, ao mesmo tempo que não cai o suficiente à noite.

O corpo humano, sem descanso térmico, acumula estresse. Semanas seguidas acima da zona de conforto térmico, que oscila em torno dos 23°C, são mais prejudiciais à saúde do que picos pontuais de calor extremo.

"O calor é um assassino invisível e silencioso", alerta o climatologista.

"O calor é um assassino invisível e silencioso", alerta o climatologista.

Os efeitos do El Niño não são iguais no Brasil. No Sudeste, o calor é a marca predominante do fenômeno. A região, classificada pelos meteorologistas como de transição, não apresenta aumento significativo nos extremos de chuva associados, mas sofre com as ondas de calor.

No Centro-Oeste, o risco se concentra na seca. Se o El Niño se estabelecer na segunda metade do ano, pode piorar a estiagem já em curso, especialmente se vier acompanhado de baixa umidade e atraso no início da estação chuvosa 2026-2027. O cenário cria condições favoráveis para incêndios florestais a partir de agosto, com atenção especial ao Pantanal.

No Sul, o risco é o oposto: chuvas acima da média elevam a probabilidade de deslizamentos e enchentes. As áreas mais vulneráveis incluem Grande Curitiba, litoral do Paraná, Vale do Itajaí, Serra Gaúcha e região metropolitana de Porto Alegre. Bacias como Uruguai, Taquari-Antas e Iguaçu podem registrar cheias significativas.

Na Amazônia, o impacto dependerá do timing. Como o pico de cheia principal ocorre antes de setembro — quando o El Niño já deve estar configurado —, o efeito esperado é um atraso no início do novo ciclo hidrológico, afetando principalmente as nascentes dos rios Solimões e Negro.

Já no Nordeste, um eventual atraso nas chuvas pode pressionar municípios que dependem de barragens intermitentes. O Cemaden lembra, porém, que o El Niño não é o único fator: o Atlântico Tropical e o desmatamento também interferem no regime hídrico da região.

O Cemaden reforça que o monitoramento do fenômeno segue em curso, mas o recado já está dado: o Brasil precisa se preparar.

Adaptar infraestrutura, proteger populações vulneráveis e reduzir o desmatamento são urgências em 2026, mesmo ano em que o país passa o bastão da presidência da COP30 para a Turquia em novembro.

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