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Ataques de Israel na Sexta-Feira Santa atingem civis e deslocam milhares no Líbano

operamundi.uol.com.br By Stefani Costa 2026-04-04 1034 words
'Deixamos tudo para trás': ataques de Israel na Sexta-Feira Santa atingem civis e deslocam milhares no Líbano

Lindaura Hijazi, que é líbano-brasileira, precisou deixar a casa em que morava com marido e filhos por conta da ofensiva israelense; mais de 1.400 pessoas já morreram

No prédio da Universidade Libanesa, em Beirute, milhares de pessoas estão desalojadas por conta dos ataques de Israel contra o país. Entre elas, brasileiros. Opera Mundi visitou o local e conversou com Lindaura Hijazi, uma líbano-brasileira que hoje divide uma sala da instituição com o marido libanês, dois filhos e mais sete famílias. Ela foi obrigada a abandonar sua casa no subúrbio de Dahieh, deixando tudo para trás, há um mês.

"Nas manhãs em que os bombardeios dão uma trégua, meu marido, que ficou desempregado por conta da guerra, voltou para ver se nossa casa ainda está de pé. Ele tentou resgatar alguns pertences, mas infelizmente não temos muito espaço aqui". Lindaura recordou que, em 2024, foi repatriada pela Operação Raízes do Cedro, organizada pelo governo brasileiro. Desta vez, não tem esperanças de que a ação vá se repetir.

Enquanto dividia o seu café com a reportagem, ela compartilhou experiências acumuladas em anos de guerra no Líbano. "Na invasão israelense de 2006, fiquei num buraco com minhas quatro filhas, ainda crianças, por 17 dias, enquanto bombas caíam sobre nossas cabeças o dia todo. Só conseguimos sair do vilarejo, na fronteira com Israel, porque um parente nosso veio de Beirute nos buscar. Durante todo o caminho, minha sogra segurou um pano branco na janela para evitar que atirassem no carro".

A comunidade brasileira no Líbano tem enfrentado dificuldades devido ao alto custo das passagens aéreas para o Brasil, que podem chegar a quatro mil dólares (cerca de R$ 20 mil). Diante da situação, muitos cogitam pressionar o Itamaraty por uma nova operação de resgate, especialmente porque o custo de vida no país segue elevado. Além disso, brasileiros relataram a Opera Mundi que perderam ou precisaram abandonar suas casas devido aos conflitos, sendo forçados a pagar cerca de dois mil dólares (cerca de R$ 10 mil) por um apartamento em áreas fora das zonas de ataque.

"Quem não conta com o apoio do Hezbollah, que garante o básico a muitos, está em uma situação muito difícil. Infelizmente, o governo não planejou e subestimou a ameaça israelense de invadir o território libanês. Quem não tem acesso a abrigos ou dinheiro para reconstruir sua casa hoje vive nas ruas, sem perspectiva de futuro e sem o apoio das autoridades", disse outra brasileira que preferiu não se identificar. Atualmente, mais de 20 mil brasileiros residem no país.

Sobre o futuro, Lindaura não se mostra confiante. Para ela, enquanto Israel não transformar o Líbano em uma "nova Gaza", a guerra não vai parar. "O objetivo é tomar nossas terras e ocupar nosso país. Dizer que querem destruir o Hezbollah, grupo criado em 1982 justamente para conter a invasão israelense, é só uma desculpa para continuar a limpeza étnica na região. Aqui mesmo há cristãos sem casa. Todos os civis são alvos".

Ataque na Sexta Santa

Desde 2 de março, quando Israel iniciou sua ofensiva no Líbano, mais de 1,2 milhão de pessoas foram impactadas. Cerca de 20% da população já foi forçada a deixar suas casas, principalmente no sul do país, onde os ataques israelenses avançam com extrema violência. Segundo a ONU, a destruição de estradas e pontes que ligam o sul ao resto do território libanês impediu a fuga de mais de 150 mil pessoas, uma ação considerada crime de guerra pelo Artigo 49 da Quarta Convenção de Genebra, de 1949.

Na capital Beirute, a realidade não é diferente. Opera Mundi esteve em Dahieh, uma das áreas mais bombardeadas, onde vivem grande parte da comunidade xiita e imigrantes de diversos países, incluindo os brasileiros. As mais de 700 mil pessoas que residiam no local também tiveram que abandonar tudo. Muitas agora sobrevivem em barracas improvisadas nas ruas ou em abrigos públicos, como escolas, universidades e espaços religiosos. Já são mais de 640 locais adaptados pelo governo.

A destruição no local é completa. Há um cheiro de fumaça dos escombros que se mistura ao som de rajadas de tiros, que ora anunciam um novo bombardeio, ora marcam mais um funeral. O Hezbollah, partido político com braço armado, controla quem entra e sai da região. Jornalistas, por exemplo, só podem acessar a área com autorização prévia.

Um combatente do grupo explicou à reportagem que a medida visa evitar a exposição das vítimas e o registro de locais estratégicos para a defesa da região. Apesar das críticas de membros do governo libanês, o Hezbollah tem apoiado moradores, especialmente os que perderam suas casas. Muitas famílias dependem dos recursos distribuídos pelo grupo para se alimentar. Um quilo de tomate, por exemplo, pode custar até 4,50 dólares (quase R$ 24).

O militar ainda afirmou que Is
rael justifica os ataques a prédios residenciais com casas de câmbio com a narrativa de estar combatendo a "lavagem de dinheiro" do Hezbollah. No entanto, os bancos ligados ao grupo movimentam a economia local num contexto em que grande parte da população tem seus rendimentos congelados em bancos privados, que impõem limites severos de saque. "Eles querem destruir toda a infraestrutura e usar a guerra psicológica para deixar a população em pânico. Mas esquecem que o povo libanês está acostumado a resistir e a recomeçar".

Israel intensificou os ataques aéreos contra Beirute a partir da Sexta-Feira Santa, com bombardeios que se estenderam pela madrugada até a manhã deste sábado. Os alvos incluíram não apenas o sul da cidade, mas também uma área central, onde ficam a Igreja e o Hospital Santa Teresa, além de um posto de gasolina. No Vale do Bekaa, duas pessoas morreram e 15 ficaram feridas em ataques que destruíram uma mesquita, além de cinco pontes.

Até a tarde deste sábado, o balanço da guerra é de 1.422 mortos e 4.294 feridos. Entre as vítimas estão 54 profissionais de saúde e mais de 20 jornalistas. A UNICEF informou que mais de 300 mil crianças foram forçadas a deixar suas casas desde o início da escalada no mês passado. Os bombardeios permaneceram mesmo durante o período de cessar-fogo acordado em novembro de 2024.

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