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"Trump assinou seu atestado de óbito político no Irã", diz Marco Fernandes

brasil247.com By Redação Brasil 2026-04-04 1827 words
"Trump assinou seu atestado de óbito político no Irã", diz Marco Fernandes

Analista afirma que Trump cometeu um erro estratégico ao ampliar a guerra contra o Irã e avalia que o conflito aprofunda a crise da hegemonia dos EUA

247 – O analista geopolítico Marco Fernandes, que é correspondente do Brasil de Fato em Moscou, na Rússia, afirmou que Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, assinou seu "atestado de óbito político" ao decidir pela guerra contra o Irã. A avaliação foi feita em entrevista ao programa A Semana no Mundo, conduzida por José Reinaldo Carvalho, na TV 247, em que ele analisou os desdobramentos militares, econômicos e geopolíticos do conflito e apontou que a ofensiva norte-americana tende a aprofundar tanto a crise interna do governo Trump quanto o desgaste da posição dos Estados Unidos no cenário internacional.

Ao longo da conversa, reproduzida pela TV 247, Fernandes sustentou que a decisão de Trump representa uma ruptura com a própria plataforma política que o projetou nacionalmente. "O Trump quando decidiu fazer a guerra contra o Irã, ele assinou atestado de óbito político dele", declarou. Em seguida, lembrou que o atual presidente dos Estados Unidos voltou ao centro da disputa política defendendo a ideia de "no more wars", ou seja, de não ampliar o envolvimento militar de Washington em novos conflitos externos.

Na avaliação do analista, a contradição entre discurso e prática pode ter consequências profundas dentro da própria base trumpista. Segundo ele, parte do movimento Make America Great Again já demonstra divisão diante da escalada bélica. Além disso, Marco observou que o confronto com o Irã não mobiliza apoio social expressivo dentro dos Estados Unidos, o que diferencia essa guerra de intervenções anteriores conduzidas por Washington.

Guerra impopular e pressão econômica

Um dos pontos centrais da análise é que a guerra contra o Irã não encontra respaldo amplo na sociedade norte-americana. Para Marco Fernandes, Trump estaria jogando "um jogo que não é um jogo que o público americano gostaria de est jogando". A observação ganha relevância num contexto em que a sociedade dos Estados Unidos já enfrenta polarização política, perda de confiança nas instituições e pressão econômica crescente.

O analista também destacou os impactos materiais do conflito. Segundo ele, a guerra já afeta os preços da energia, dos fertilizantes e do gás hélio, insumo importante para a produção de chips. Ao comentar os efeitos econômicos globais da escalada, Marco afirmou que o Irã conseguiu transformar o confronto em uma guerra de alcance muito mais amplo. "Essa guerra é uma guerra global, porque ela afeta o mundo inteiro", disse.

Na entrevista, ele observou ainda que os Estados Unidos já vinham sob pressão inflacionária em razão das tarifas impostas por Trump nos últimos meses. Com a elevação dos combustíveis e o encarecimento de cadeias produtivas estratégicas, o governo norte-americano passa a enfrentar mais um fator de desgaste. Para Fernandes, esse quadro ajuda a explicar por que a decisão de Trump foi, em suas palavras, "uma decisão estúpida".

Erro de cálculo diante de um adversário preparado

Marco Fernandes afirmou que o principal erro estratégico de Trump foi escolher um adversário que se preparou por décadas para esse tipo de enfrentamento. Segundo ele, o Irã não dispõe do mesmo volume de armamentos dos Estados Unidos, mas construiu uma estratégia de guerra assimétrica capaz de impor custos elevados ao inimigo. "É uma guerra para a qual o Irã vem se preparando há pelo menos 30 anos", disse.

Na visão do analista, esse elemento foi subestimado por Washington. Ele afirmou que os Estados Unidos e Israel falharam ao calcular a capacidade militar iraniana e ignoraram o acúmulo estratégico obtido por Teerã ao longo de décadas. O resultado, segundo ele, é que o conflito começou a evidenciar limitações norte-americanas e a anunciar uma derrota política e geopolítica do projeto imperial.

Esse diagnóstico foi reforçado quando Fernandes comentou que o Irã não apenas resiste, mas também apresenta capacidade de contra-ataque. Ao longo da entrevista, ele defendeu que o conflito demonstra a emergência de novos centros de poder no sistema internacional e enfraquece a pretensão dos Estados Unidos de manter hegemonia absoluta, especialmente na Ásia Ocidental.

Hegemonia predatória e declínio dos Estados Unidos

Outro eixo importante da entrevista foi a crítica à estratégia global de Washington. Ao comentar uma avaliação publicada pela mídia chinesa sobre a "hegemonia predatória" dos Estados Unidos, Marco Fernandes concordou com a interpretação de que o imperialismo norte-americano acelera seu próprio desgaste ao investir trilhões de dólares em destruição, guerras e desestabilização de países, em vez de apostar em desenvolvimento, infraestrutura e cooperação internacional.

Para sustentar esse ponto, ele comparou a atuação dos Estados Unidos com a política chinesa de investimento em infraestrutura global. Segundo Fernandes, Washington gastou recursos gigantescos em guerras no Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, Ucrânia e agora Irã, enquanto a China ampliou sua influência com projetos econômicos, logísticos e produtivos. "Os Estados Unidos têm uma opção muito clara. Os estados investem no seu poderio militar para justamente submeter países", afirmou.

Ainda segundo o analista, essa lógica predatória corrói a legitimidade dos Estados Unidos como parceiro político e econômico. "Os Estados Unidos, a cada ano que passa, a sua legitimidade como poder global, como parceiro político, como parceiro econômico, essa legitimidade ela tá indo por água baixo", declarou. Na avaliação dele, a conta dessa estratégia já começou a ser cobrada tanto no plano internacional quanto no ambiente doméstico.

Crise de legitimidade dentro e fora dos Estados Unidos

Marco Fernandes também chamou atenção para os efeitos internos da política belicista norte-americana. Segundo ele, se parte dos recursos consumidos por guerras e gastos militares tivesse sido aplicada em infraestrutura, desenvolvimento e melhoria das condições de vida, os Estados Unidos teriam hoje um cenário econômico e social menos convulsionado.

Ao comentar a situação doméstica, o analista lembrou que o país vive uma sequência de tensões políticas, raciais e sociais acumuladas nos últimos anos. Na sua leitura, a política externa agressiva se conecta diretamente com essa deterioração interna. "São uma série de contradições, tanto domésticas quanto internacionais, que vão se acumulando", afirmou.

No front externo, ele disse que Trump agrava ainda mais o desgaste com aliados históricos. Na entrevista, citou as tensões com a União Europeia, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, o Japão, a Coreia do Sul e também com países árabes que mantiveram, ao longo de décadas, relação estreita com Washington. Segundo ele, esses parceiros começam a perceber que a proteção oferecida pelos Estados Unidos é seletiva e subordinada, em última instância, aos interesses de Israel.

Irã, resistência e mudança histórica na geopolítica

Em um dos trechos mais fortes da entrevista, Marco Fernandes afirmou que a guerra em curso pode representar um marco decisivo na reorganização da ordem mundial. "Eu acho que o Irã é a estalingrado do século 21", declarou. Com essa formulação, ele buscou destacar o peso histórico do confronto e seu potencial de redefinir os rumos da multipolaridade, do Sul Global e do próprio império norte-americano.

Na visão do analista, a guerra já demonstrou que a segurança regional não poderá mais ser pensada a partir da tutela de potências estrangeiras. Ao comentar declarações do chanceler iraniano Abbas Araghchi, Fernandes afirmou que o sentido político do momento é claro: os países da região terão de construir soluções próprias para seus conflitos e mecanismos autônomos de segurança, sem dependência de Washington.

Ele também argumentou que o Irã emerge desse processo não apenas como potência regional, mas como protagonista de uma nova ordem internacional em formação. "Sem dúvida nenhuma o Irã tá se tornando um dos grandes atores protagonistas, eu diria, da construção de uma nova ordem mundial", disse.

Ameaças de Trump fortalecem a resistência iraniana

Ao comentar declarações de Donald Trump sobre "fazer o Irã retornar à pedra", Marco Fernandes avaliou que a retórica brutal da Casa Branca tende a produzir o efeito contrário ao desejado. Segundo ele, esse tipo de ameaça não intimida a sociedade iraniana, mas amplia a disposição de resistência. "Essa ameaça só vai fazer os iranianos lutarem com mais com mais garra", afirmou.

Fernandes relacionou esse processo à cultura política e religiosa do Irã, marcada, segundo ele, pela centralidade do martírio na tradição xiita. Em sua interpretação, isso ajuda a entender a capacidade de mobilização social diante da agressão externa. O analista observou ainda que as ações dos Estados Unidos e de Israel acabaram unificando setores que antes estavam em desacordo com o governo iraniano.

"Esse pessoal todo agora tá em torno da bandeira do Irã", afirmou, ao descrever como jovens, críticos da República Islâmica e grupos antes insatisfeitos passaram a se alinhar na defesa nacional diante da ofensiva estrangeira. Na leitura dele, quanto maior for o grau de destruição e humilhação imposto ao país, maior será também o custo político internacional para os agressores.

Israel, Ásia Ocidental e o impacto regional da guerra

A entrevista também abordou o papel de Benjamin Netanyahu e os efeitos da guerra sobre a Ásia Ocidental. Marco Fernandes afirmou que a região "mudou para sempre" e sugeriu que a escalada bélica pode produzir consequências muito mais profundas do que as imaginadas pelo governo israelense.

Ao recordar a declaração de Netanyahu de que a guerra produziria "outro Oriente Médio", Fernandes respondeu que isso de fato pode ocorrer, mas em sentido oposto ao planejado por Tel Aviv. Para ele, um dos efeitos colaterais mais graves da escalada pode ser o enfraquecimento estrutural do regime sionista e a exposição das limitações militares de Israel diante de um adversário de maior capacidade estratégica.

O analista foi especialmente duro ao comentar o desempenho das forças israelenses. Segundo ele, Israel demonstrou eficiência no massacre de populações desarmadas, mas enfrenta outra realidade diante de um confronto direto com um Estado militarmente preparado. Também citou relatos de autoridades israelenses sobre dificuldades de mobilização e sinais de esgotamento das defesas antiaéreas.

Rússia, Ucrânia e o cenário da maioria global

Na parte final da entrevista, Marco Fernandes comentou ainda a guerra na Ucrânia e a situação da Rússia após a libertação total de Lugansk. Embora tenha evitado fazer previsões definitivas sobre uma vitória total russa, ele observou que o prolongamento do conflito cobra custos humanos, econômicos e estratégicos elevados de Moscou.

Mesmo assim, avaliou que o encerramento da guerra interessa ao conjunto do Sul Global, ou, como afirmou, à "maioria global". Fernandes destacou que a continuação do conflito limita projetos mais amplos da política externa russa, inclusive iniciativas de articulação com a África e de aceleração dos BRICS.

Ao final, a entrevista consolidou um diagnóstico amplo sobre o momento geopolítico: a guerra contra o Irã, longe de restaurar a autoridade dos Estados Unidos, tende a aprofundar sua crise de legitimidade, a acelerar o desgaste político de Donald Trump e a abrir ainda mais espaço para a afirmação de novos polos de poder no mundo. Nesse cenário, a frase de Marco Fernandes que dá título a esta matéria resume o sentido central de sua análise: "O Trump quando decidiu fazer a guerra contra o Irã, ele assinou atestado de óbito político dele"

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