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Quando a taxa de juros faz terapia | Outras Palavras

outraspalavras.net By Henrique Morrone 2026-04-01 737 words
Quando a taxa de juros faz terapia

No consultório, ela desabafa: eu reajo à inflação, expectativas, clima… Mas, sobretudo, ao ambiente que eu mesmo criei. E, com autocrítica, percebe que, por meio dela, um sistema de captura da riqueza se organiza e um setor que intermedia o inexistente é forjado…

Publicado 01/04/2026 às 16:26

O consultório tinha paredes desmaiadas — um bege que outrora fora neutro — agora apenas cansado. A luz desferia-se de forma irregular sobre o divã, indecisa quanto ao que deveria iluminar.

A taxa de juros chegou pontual.

Sentou-se com cuidado. Anunciou que ficaria pouco. Tinha compromissos.

— Podemos iniciar — disse o analista.

— Eu reajo. Reajo reativamente.

O analista anotou.

Reagia à inflação.

Reagia às expectativas.

Reagia ao clima.

Era o que dizia.
E, por um tempo, parecia suficiente.

Havia ali um certo orgulho.

Diferentemente de alguns de seus primos estrangeiros — mais dados a antecipar, a sinalizar, a conduzir — a taxa insistia em sua natureza reativa. Não guiava. Acompanhava.

Mas, ao alinhar as reações com o que vinha ocorrendo, surgiu um descompasso discreto — não um erro, algo mais difícil de esquadrinhar.

Subia — mesmo quando o investimento fraquejava.

Subia — quando o crescimento desacelerava e a incerteza aumentava.

E, ao subir, não a debelava. No máximo, reorganizava seu semblante.

— Não produzo isso — disse.

— Apenas respondo.

— E, ao responder, o que acontece?

A pergunta pairou um tanto desamparada.

Do lado de fora — ou talvez a partir dali — ninguém identificou um ponto de início.

Não houve ruptura. Nem anúncio. Apenas continuidade.

Formou-se um setor.

Em economias como a brasileira, ganhou escala.

Não produzia bens.

Tampouco serviços, ao menos no sentido prosaico da palavra.

Sua função era outra: intermediar o que não existe.

Ou, por vezes, o que infelizmente existe — mas não produz.

Fluxos eram registrados antes de ocorrer.

Rendimentos, antecipados antes de serem gerados.

Expectativas circulavam como ativos líquidos — e, com o tempo, passaram a render.

Não havia fábrica. Nem máquina.

Nem trabalhador com rosto.

Ainda assim, havia lucros.

Robustos. E, sobretudo, justificáveis.

Tentou-se descrevê-lo.

Dizia-se que organizava o que ainda não havia acontecido.

Que dava forma à incerteza.

Que permitia decisões onde antes havia apenas espera.

Tudo isso parecia coerente — desde que não se observasse por muito tempo.

Porque, à medida que crescia, o setor não reduzia a incerteza.

Passava a depender dela.

E mais: começou a produzir algo específico.

Não bens.

Não serviços.

Mas necessidade de intermediação.

Quanto mais incerto o ambiente, maior sua relevância.

Quanto maior sua relevância, mais difícil se tornava prescindir dele.

Na segunda sessão, a taxa de juros foi mais cautelosa.

— Eu estabilizo — proclamou.

— O quê?

— O sistema.

— Qual sistema? Metabólico?

Houve uma pausa curta, suficiente para não parecer hesitação.

— O que está dado.

O analista anotou, dessa vez sem levantar os olhos.

Ao elevar-se, reorganizava decisões.

Adiava investimentos.

Reordenava fluxos.

Recompensava posições que não dependiam da produção.

E, ao fazê-lo, reforçava o ambiente em que o próprio setor — aquele que intermedia o que não existe — se tornava necessário.

— Então você participa do processo? — perguntou o analista.

— Eu reajo a ele.

A diferença parecia pequena. Não era.

Do lado de fora, a economia mantinha suas formas reconhecíveis.

Havia produção, ainda que irregular.

Havia investimento, ainda que hesitante.

Havia trabalho, ainda que pressionado.

Mas isso já não organizava o restante.

Ou apenas servia de referência para algo que operava por outros critérios.

Na última sessão, a taxa chegou no mesmo horário.

Deitou-se. Ajustou-se.

O analista esperou.

Nada.

Então, quase como um reflexo — ou um gesto aprendido — a taxa ensaiou uma leve queda.

Discreta. Quase imperceptível.

Nada que alterasse o quadro.

Apenas o suficiente para sugerir melhora.

Por um instante, pareceu responder menos ao sistema do que à própria cena.

Não havia mais o que esclarecer — não porque estivesse resolvido, mas porque a explicação deixara de ser necessária.

Do lado de fora, os fluxos seguiam circulando.

Sem origem que importe.

Sem destino que organize.

E, sobretudo, sem a necessidade de passar por aquilo que, por muito tempo, se chamou de produção.

No prontuário, não havia diagnóstico.

Apenas registros de variação.

E, ainda assim, os sinais — curiosamente — seguiam estáveis.

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