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Como a ditadura militar impulsionou o mercado financeiro - Nexo Jornal

nexojornal.com.br By Sérgio Barbo 2026-04-02 1476 words
Em junho de 1971, a popular revista Manchete cravou no título de uma reportagem: "A Bolsa está na moda". Outros meios de comunicação corroboravam a afirmação.

Enquanto a Rádio Nacional transmitia diariamente o Jornal da Bolsa, os cadernos de economia e finanças dos jornais do país eram tomados por páginas de informações sobre o mercado de capitais. Subitamente, os cadernos foram encorpados com gráficos de índices do mercado financeiro, indicadores de altas e baixas da Bolsa de Valores, balancetes de empresas, notícias sobre investimentos em ações, fundos, debêntures e outros valores mobiliários, além de anúncios diversos de corretoras financeiras.

O tema não se atinha ao setor de economia e se expandia para colunas sociais – com comentários sobre a atividade de algum "colunável" na Bolsa – e até mesmo para o horóscopo. A seção de astrologia do jornal Correio da Manhã, datada de 1 de janeiro de 1970, previa para o signo de Escorpião que o ano seria próspero e que a sorte lhe sorriria "em rifas, bolsa de valores e loteria". Já um anúncio da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro no mesmo jornal, lembrava que "progresso é feito de ação" e propunha a questão: "uma pessoa fica rica porque é acionista ou se torna acionista porque é rica?".

O teor otimista e explicitamente propagandístico exposto na mídia em relação ao mercado acionário fazia parte da política desenvolvimentista do governo militar, que então vivia o propalado "milagre econômico", na virada da década de 1960 para 1970. E a Bolsa de Valores, em pleno momento de ascensão, seria uma espécie de termômetro da situação econômica do país.

Para a instalação de tal mercado e para a popularização de investimentos em compras de ações de empresas como forma de poupança – já que, até o início dos anos 1960, a aquisição de imóveis era o investimento favorito de camadas da população dotadas de disponibilidade monetária –, uma profunda reforma econômica e financeira foi programada pelo governo ditatorial, que assumiu o poder em abril de 1964.

"Essas reformulações foram concebidas originalmente no interior de órgãos como o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPÊS), que constituía uma frente empresarial-militar. Houve uma reestruturação do sistema financeiro nacional logo no primeiro governo ditatorial, com o Castelo Branco. Entre as reformulações, estavam as criações do Banco Central e do Conselho Monetário Nacional e também do mercado de capitais", explica o historiador Pedro Henrique Pedreira Campos, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

"Eles partiam do princípio que era preciso criar uma poupança interna, já que o Brasil não tinha poupança. Para isso, haveria a necessidade de um mercado de capitais e da reformulação do sistema financeiro nacional", acrescenta.

A fundação, em 1964, do Banco Central (BC) e do Conselho Monetário Nacional (CMN) – órgãos cruciais para a regulação do mercado e da política financeira – e a instauração, em 1965, da Lei de Mercado de Capitais, ao lado da criação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e da Lei das Sociedades Anônimas, em 1976, criariam a base do mercado de ações e títulos atual.

As reformas da época construíram a infraestrutura que permitiu o desenvolvimento do setor, mas que também resultaram em um crescimento especulativo, concentração do capital e aumento das disparidades econômicas.

Entre o mercado financeiro e os porões da repressão

Durante a ditadura civil-militar, o grande capital e a repressão estatal integravam o mesmo ecossistema estrutural. Para a proteção do capital, parte do empresariado nacional patrocinou a criação de órgãos clandestinos de segurança e vigilância.

Signatário do AI-5, o ato que reforçou o autoritarismo do regime, o ministro do Planejamento Delfim Netto lidava com o balcão de negócios da economia oficial e também participava de reuniões fechadas sobre o financiamento empresarial para estruturar os porões da repressão e tortura. "Seu assessor, o empresário Paulo Henrique Sawaya Filho, [já falecido] espécie de tesoureiro da Operação Bandeirante, a Oban (precursora do DOI-Codi), coletava polpudas contribuições junto a banqueiros e empresários paulistas", conta Ivan Seixas, consultor especial da Comissão Nacional da Verdade.

O relatório da comissão descreve: "ficou conhecido o banquete organizado pelo ministro Delfim Netto no Clube São Paulo, antiga residência da senhora Veridiana Prado, durante o qual cada banqueiro, como Amador Aguiar (Bradesco) e Gastão Eduardo de Bueno Vidigal (Banco Mercantil de São Paulo), entre outros, doou o montante de 110 mil dólares para reforçar o caixa da Oban".

A proximidade en
tre o mercado financeiro e a repressão se tornou evidente em certos casos, como o do paraquedista Valdemar Martins de Oliveira. Recrutado em 1968 pelo Centro de Informações do Exército (CIE), Oliveira, ao se recusar a participar de ações de apreensão e repressão após presenciar execuções de militantes, foi enviado para trabalhar numa corretora de valores mobiliários, a DIMIG, onde atuou como espião e também como funcionário – mesmo sem ter experiência.

"Não sabia o ofício, mas aprendi, então emitia e assinava títulos de fundos de investimentos de empresas como a Mannesmann. Ao mesmo tempo, eu tinha que vigiar a diretoria da corretora", conta ele, que afirma que militares visitavam constantemente a empresa. O ex-agente garante que, em pouco tempo, ganhou muito dinheiro na Bolsa de Valores: "como as ações explodiam na época, com o dinheiro de uma semana, eu comprei um [carro] Karmann Ghia", disse à reportagem.

Além da DIMIG, Oliveira trabalhou em outra corretora, a SPI. Diariamente, ele tinha que levar relatórios para o DOI-Codi de São Paulo sobre suas atividades. "Esse tipo de empresa era feito para acobertar esquemas dos militares. Já procurei informações, mas elas não deixavam rastros, e esse é um dos motivos para não se encontrar um CNPJ ou outro dado sobre elas", conta Thiago de Oliveira, filho do militar. A reportagem também não encontrou informações atuais sobre as empresas.

Aliada da ditadura, a empresa citada por Oliveira, a Mannesmann, foi denunciada, anos depois, por uso de monitoramento, repressão e tortura a seus funcionários. As mesmas acusações se aplicaram a outras empresas grandes e altamente valorizadas na bolsa, como a Petrobras e a Belgo-Mineira, por exemplo.

Escândalos financeiros

Enquanto algumas empresas tiveram seus nomes relacionados à repressão, outras, particularmente atreladas ao setor financeiro, estiveram envolvidas em rumorosos escândalos. "É importante frisar que o novo ambiente financeiro, com todo o cerceamento que a ditadura impôs, abriu margem para uma série de escândalos de corrupção", declara o historiador Pedro Henrique Pedreira Campos.

Apesar da censura e da intervenção do governo para salvar algumas empresas, diversos episódios do período se tornaram públicos, a exemplo do Banco Halles, Banco Econômico, Agropecuária Capemi, Caso Lutfalla (ligado a Paulo Maluf), Grupo Coroa-Brastel, Grupo Delfin – este, dono da maior caderneta de poupança do país.

Um episódio em específico, narrado pelo jornal Folha de S. Paulo, do grupo Brasilinvest, remete diretamente aos dias atuais. Antes do Banco Master e das fintechs de fundos de investimentos duvidosos, o grupo fundado em 1975 pelo empresário, banqueiro e investidor Mário Bernardo Garnero já causava rebuliços na região da Avenida Faria Lima.

Próximo de figuras proeminentes, como o embaixador estadunidense Lincoln Gordon (peça-chave no golpe de 1964), Juscelino Kubitschek, Helmut Schmidt e príncipe Rainier, Mário Garnero fundou a Brasilinvest como grupo financeiro e banco de negócios, com participação de 80 sócios de 16 países.

Acusada de conceder empréstimos a empresas fantasmas, a instituição financeira passou por liquidação em 1985 a pedido do Banco Central. O processo gerou a decretação de falência do banco e da corretora de valores do grupo. Garnero chegou a ser condenado a cinco anos de prisão pelos crimes de estelionato, formação de quadrilha e fraude contra o sistema financeiro pela Justiça Federal de São Paulo, mas a condenação foi anulada em 1989 pelo Supremo Tribunal Federal. No ano seguinte, o BC suspendeu a liquidação da Brasilinvest.

Anos depois, em entrevista à Folha, o empresário alegaria que seu grupo nunca esteve em estado de insolvência, e que ele fora vítima de "uma reportagem leviana e irresponsável" feita em 1985. No ano passado, seu filho, Mário B. Garnero Jr., teve seu nome mencionado em documentos e listas de contatos relacionados ao financista Jeffrey Epstein, conforme revelou a Justiça dos EUA.

O historiador Rafael Vaz Brandão, professor da UERJ, observa como estruturas articuladas durante a ditadura ainda se mantêm nos dias de hoje. "Claro que a corrupção, violência de Estado, nada disso surge com a ditadura, mas é impressionante como é nesse período que esquemas de corrupção se alastraram, se enraizaram no Estado de tal forma que prosseguem até hoje, claro que com outros contornos", conclui.

Preparando o terreno para a colheita

Membros do IPÊS – think tank financiado pelos EUA e empresários que conspirou para o golpe de 1964 –, os economistas liberais Roberto Campos, como ministro do Planejamento, e Octávio Gouvêa de Bulhões, como ministro da Fazenda, foram os principais artífices das transformações econômicas iniciais do regime militar. Mas o esboço do projeto econômico começou bem antes.

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