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Opinião - Muniz Sodré: Homens que odeiam mulheres

www1.folha.uol.com.br 2026-04-04 483 words
São alarmantes as estatísticas de estupros e feminicídios no Brasil. E não cabe perguntar se estaria havendo aumento expressivo de casos ou uma maior exposição midiática, considerando que certas notícias favorecem, mais que outras, impacto emocional e comoção imediata. Na Índia, onde é relevante o número de ataques às mulheres, a mídia é mais lacônica sobre o assunto do que a brasileira. Entre nós, os números são reais e vexaminosos.

A questão, complexa, demandaria pesquisas em busca de alguma resposta. Mas é admissível especular, quando fatos privados de densidade conceitual perigam ficar na superfície das coisas, talvez bem descritos em sua realização, mas obscuros no sentido. A violência masculina deita raízes num patriarcado cuja intensidade opressiva, embora varie geográfica e culturalmente, sempre deixa visíveis pontos comuns.

Nesse escopo, visibilizam-se virilismo e misoginia. O primeiro (virilidade opressiva, machismo) é uma posição de supremacia fálica, análoga àquela exercida pelo colonizador sobre o colonizado. Diz Achile Mbembe que o falo e o patriarcado constituem as duas faces do poder orgástico, "um poder habitado por um espírito-cão, um espírito-porco e um espírito-canalha" (em "Brutalisme"). A dominação escravagista e a submissão colonial foram de ponta a ponta uma dominação genital sobre os corpos racializados.

Isso é implicitamente corroborado pelo Senado brasileiro, que acaba de equiparar misoginia ("conduta que exterioriza ódio ou aversão a mulheres") a racismo. É louvável o acerto da decisão, com endurecimento das penalidades. De fato, o conceito de "corpos raciais" evidencia que racialização não se restringe a classificações hierárquicas por cor da pele. Nas ditaduras islâmicas, as mulheres são conotadas como outra "raça", semelhante à do corpo escravizado. No passado escravagista árabe, escravos masculinos podiam receber nomes femininos ("Iasmin", por exemplo) para gáudio sexual de seus senhores.

A sexualidade virilista limita-se à genitalidade, sem erotismo nem amor. Junto com a herança colonial vem a violência que esvazia o outro (a) de seu conteúdo humano, inscrevendo na forma oca uma imagem de dócil submissão. Isso as crianças aprendem em família e nas redes sociais. Interioriza-se o pronome possessivo, traduzido na fórmula "minha mulher", designação de propriedade de um objeto. E como objeto não tem vida própria, a fúria feminicida irrompe nos surtos narcísicos masculinos.

O fantasma colonial é também o do paroxismo, em que misoginia implica não só aversão, mas também ódio continuado à diferença. O estuprador, mais do que sexo, deseja bater. O feminicida mata por medo de que a diferença autônoma lhe exproprie a identidade masculina. Neste caso, o ódio é visionário: quer silenciar uma voz.

Tudo indica que a exacerbação desses crimes tenha sido estimulada por comportamentos da extrema direita na vi
da social. A esfera pública permanece saturada de palavras antifemininas, à revelia do gesto inovador do Exército brasileiro, com sua primeira general em quatro séculos. Mas houve Bolsonaro, há Trump, Orban, o pentecostalismo e a gerontocracia petrolífera. A devassidão de Epstein não consegue camuflar que todo esse gado é inimigo de mulher.

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