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Por que votamos tão mal?

braziljournal.com By José Roberto de Castro Neves 2026-04-05 1062 words
Em ano de eleição, a política toma a frente nas discussões. Nas conversas ouvimos, com frequência, o clichê de que nossos políticos são deploráveis, e que são eles os culpados por todos os males que assolam o País. Um lugar-comum.

Parece justo responsabilizar os políticos por omissões e por muitos abusos. Contudo, para examinar o fenômeno na sua real dimensão, precisamos reconhecer que, numa democracia, os políticos assumem seus cargos depois de eleitos pelo voto popular. A qualidade dos dirigentes, portanto, decorre de escolhas feitas pelo eleitor. Logo, a crítica chavão à classe dos políticos sofre de um problema conceitual: quem elege o político não deveria reclamar dele, e sim de si mesmo, por tê-lo escolhido.

A primeira saída simplista para escapar desse acerto de contas consigo mesmo passa por dizer que não se votou no político criticado, mas em outro, que não se elegeu. Isso pode até trazer algum conforto, mas não resolve o problema. O pacto democrático reside precisamente nessa ideia de que devemos aceitar a orientação da maioria. Se a maior parte da comunidade elege um político, este fala por todos. Com razão, podemos – e, até, precisamos – manifestar nossas opiniões de forma construtiva sobre os agentes públicos, porém os políticos, depois de eleitos, representam toda a comunidade.

Objetivamente, a responsabilidade pela qualidade dos políticos é do povo. Embora seja fundamental desenvolver o espírito crítico em relação aos políticos, essa censura deve, antes de mais nada, recair sobre quem detém o poder do voto, ou seja, sobre a sociedade que elege seus representantes.

No seu discurso de posse, em janeiro de 1961, John F. Kennedy instigou seus conterrâneos a se posicionar proativamente: "E assim, meus companheiros americanos: não pergunte o que seu país pode fazer por você – pergunte o que você pode fazer pelo seu país."

A assunção de responsabilidade pelo eleitor, compreendendo sua posição fundamental no modelo democrático, é o começo da mudança de postura. Trata-se de uma análise mais honesta e, logo, ética do processo político: a culpa dos políticos desqualificados não é dos outros.

Assumindo a nossa "culpa", passa-se à pergunta seguinte: por que elegemos políticos que, logo em seguida, desqualificamos veementemente? E, veja-se, uma grande parte da população não critica apenas um ou outro homem público, mas dirige sua censura a toda a classe.

A democracia não é um modelo antigo. Fora o espasmo ateniense, no século V a.C., a democracia surge, com consistência, apenas na modernidade, mais precisamente na formação dos Estados Unidos, no final do século XVIII.

Ela é uma conquista da civilização, constantemente ameaçada e carente de aperfeiçoamentos – carente de uma vigília dos cidadãos. Se fosse adotada uma lógica linear, dir-se-ia que, no regime democrático, os eleitores ficariam felizes com seus representantes, pois, afinal, foram eles que os selecionaram. Mas na prática não é assim. Por quê?

Talvez a resposta a essa inquietante questão esteja na força que a sociedade dá às questões éticas, como a honestidade de propósitos e a coerência.

Numa sociedade na qual exista um conceito bem definido de ética e se reconheça a importância de respeitar os bons valores, os comportamentos amorais serão repudiados consistentemente. Se os eleitores, de forma majoritária, compreendem a desonestidade, nas suas variadas formas, como algo reprovável, candidatos inescrupulosos não receberão votos – e, logo, haverá uma depuração no corpo político.

De outro lado, nas comunidades desprovidas de valores éticos bem arraigados, nas quais se trate desse tema de forma flácida, a reação a uma conduta nociva varia. Numa sociedade com dificuldade de separar o certo do errado, a mesma situação costuma ter desfechos diferentes.

Um político reconhecidamente desonesto pode, por exemplo, receber o repúdio de parte da população – em decorrência de seus desmandos – e ser eleito por conta de outra parte dos votantes, que não dá importância aos desvios éticos.

Quanto mais consistente for a sociedade no apreço aos valores éticos, a diferença da reação a uma conduta amoral tende a diminuir. Numa comunidade que condene a desonestidade de forma mais rígida, um político reconhecidamente desleal dificilmente obterá apoio da população.

O bordão "rouba, mas faz" – associado ao administrador público que, embora corrupto, cumpra seu trabalho – serve de bom exemplo da permissividade. Admitir que o político possa mentir ou ocultar fatos também revela tolerância com a má-fé. A falta de cuidado ético dos eleitores resvala na condescendência com alguma forma de desonestidade dos políticos.

Ninguém vai divergir que uma sociedade saudável se preocupa fundamentalmente com temas éticos, ao passo que uma comunidade desatenta a esses valores fica atolada no atraso e condenada a um ciclo vicioso, elegendo políticos egoístas sem compromisso com o interesse público.

Para piorar, sem políticos éticos, até o debate sobre assuntos de interesse geral, fundamental no processo de formação da massa crítica, perde, pois, despidos do compromisso com a verdade, não há espaço para a adequada compreensão da realidade – e grassam as 'fake news', que deveriam ser duramente repudiadas como um assalto à democracia.

A complacência com a imoralidade começa com os eleitores. Sem essa consciência, desperdiça-se o voto.

Surge, então, a terceira camada dessa análise: como solucionar essa carência de apreço à ética? Como fortalecer a atenção aos bons valores? A resposta não é complexa – difícil é sua implementação.

O papel do cidadão consciente é colocar a ética na pauta do dia a dia. Falar sobre ética, identificar esse tópico como preliminar na discussão de organização do governo. Eis o necessário pacto social: assumir um rigor com a desatenção aos bons valores, repudiando a mentira e a conduta não republicana de candidatos aos cargos públicos. Trazer as discussões éticas para o centro do debate político, adotando "tolerância zero" com pessoas desonestas, é o único caminho para garantir bons servidores públicos. O processo democrático só ganha sentido se o eleitor refletir sobre seu voto, garantindo que os dirigentes passem por um rigoroso filtro dos bons valores.

Apenas assumindo a responsabilidade pelo voto, de forma consciente e atenta, poderemos nos orgulhar do exercício do poder/dever cívico, manifestando a felicidade de ter escolhido um político que nos faça sentir representados. Mais útil do que desqualificar os políticos é refletir como eles chegaram lá.

Mahatma Gandhi nos provocou: "Seja a mudança que quer ver no mundo". A mudança passa por votar tomando a ética como esteio.

José Roberto de Castro Neves é advogado, professor universitário, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.

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