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Menores e degradados: os monumentos a negros nas capitais - Nexo Jornal

nexojornal.com.br By Lucas Veloso 2026-04-04 974 words
Homenagear uma personalidade negra com uma estátua em uma capital brasileira seria uma alegria para um escultor. Em tese, essa poderia significar uma oportunidade de instaurar no espaço urbano a contribuição de escritores e intelectuais brasileiros negros de destaque, mas, o que acontece na prática, é o contrário.

Artistas ouvidos pelo Nonada contam que ao esculpirem monumentos, encomendados pelo poder público, lidam com limitações impostas verticalmente, o que result
a em obras com problemas que se repetem pelo país: dimensões reduzidas, materiais precários, pouca contextualização, baixa preservação e uma consequente vulnerabilidade à depredação. É o que afirma um escultor ouvido pela reportagem: "Preferia o monumento lá no alto", diz. Para ele, a ausência de pedestal e de placa compromete não apenas a proteção da escultura, mas sua própria presença simbólica na cidade.

Um exemplo está na Praça da Liberdade, em São Paulo, onde Madrinha Eunice – um dos principais nomes do samba na capital paulista – permanece à vista de todos e, ainda assim, passa despercebida. Um casal cruza o caminho aos risos e não repara nela. Outros passam com a mesma pressa, como se a figura de bronze fosse apenas mais um elemento da paisagem. Aos pés da escultura, um cachorro para, se acomoda e permanece. Apesar de pública e oficial, a estátua sofre indiferença, agravada pela localização do monumento, instalado em uma região mais conhecida pela colônia japonesa do que pelas contribuições da população afro-brasileira.

Relatos de comerciantes, moradores e guias de turismo dão conta de que a está
tua já foi pintada com bigode, chutada e até usada como depósito de fezes humanas. "Ninguém sabe quem é ela. A placa no chão não dá pra ler direito", cita uma frequentadora da região. Grupos costumam passar por ali e a identidade também é ignorada. "Uma sambista" ou uma "baiana de acarajé" são títulos geralmente dados à Eunice, já que a placa que a identifica não chama atenção no chão.

Com valor de R$ 200 mil, a artista responsável pela escultura foi Lidia Lisboa. A obra foi
inaugurada em 2 de abril de 2022. Em bronze, com cerca de 1,75 metro de altura e 80 centímetros de largura, retrata Madrinha Eunice em pé, descalça, com colares e lenço na cabeça. Em dezembro de 2023, a Prefeitura de São Paulo anunciou em seus canais oficiais que a cidade ganharia mais cinco nomes: a ialorixá Mãe Sylvia de Oxalá, a cantora Elza Soares, Chaguinhas, cabo condenado à morte que inspirou o nome de Liberdade ao bairro paulistano, a filósofa e escritora Lélia Gonzalez e o geógrafo Milton Santos. Dois anos depois, porém, essa implementação ainda não aconteceu. "Os locais onde as esculturas ficarão serão divulgados em breve nos canais oficiais da Secretaria Municipal de Cultura", dizia o anúncio.

Zero previsão

Em resposta a um pedido do Nonada via LAI (Lei de Acesso à Informação), em março deste ano, a prefeitura
da capital informou que, até o momento, não foram definidos os locais de implantação das esculturas nem há previsão para a contratação dos artistas responsáveis pela concepção, execução e instalação das obras. "Informamos, ainda, que não há, por ora, previsão de implantação de novos monumentos em homenagem a personalidades negras".

O caso ajuda a iluminar uma questão maior. No Brasil, a desigualdade da memória pública não aparece apenas na baixa presença de estátuas e monumentos dedicados a pessoas negras, mas também na forma como essas homenagens são feitas. Quando existem, muitas vezes são pequenas, mal localizadas, pouco sinalizadas ou quase invisíveis na paisagem em comparação com outros monumentos.

Há também uma falta de informação generalizada por parte dos estados em relação à identidade étnico-racial dos homenageados no espaço urbano. Em levantamento exclusivo, a reportagem constatou que os estados, em geral, não têm documentos consolidados sobre estátuas e monumentos públicos nem classificação racial dos homenageados.

Nos últimos anos, um dos fatos que mais mobilizou a opinião pública mundial foi o assassinato de George Floyd, em maio de 2020, em Minneapol
is, nos Estados Unidos. Estrangulado pelo policial Derek Chauvin durante uma abordagem, Floyd se tornou símbolo de uma onda internacional de protestos antirracistas. O episódio deu maior visibilidade a uma demanda que os movimentos negros já vinham formulando desde o início do século: o reconhecimento e a homenagem a seus descendentes.

Cássia Caneco, diretora-executiva do Instituto Pólis e coordenadora do projeto que originou o estud
o "Patrimônio, Memória e Diversidade: um olhar antirracista sobre monumentos da cidade de São Paulo" afirma que foi justamente nesse contexto, impulsionado também por uma emenda parlamentar do mandato da então deputada estadual Erica Malunguinho, que a discussão ganhou tratamento mais sistemático na capital paulista. Segundo ela, o levantamento partiu do próprio registro da Secretaria Municipal de Cultura e buscou identificar quem eram os homenageados, de que material eram feitas as obras, qual era sua altura e onde estavam posicionadas na cidade.

Segundo ela, no caso de São Paulo, a prefeitura respondeu mais ao calor daquele momento do que à construção de uma política pública contínua. "Não tem u
ma continuidade, justamente porque é uma resposta ao momento e não à questão social mais aprofundada que a gente tem na nossa sociedade", afirma. Para ela, mesmo quando novas figuras passaram a ser incorporadas à paisagem, falta visibilização institucional: as homenagens foram apresentadas como nomes, sem que a própria gestão municipal investisse de forma ampla em comunicar quem eram essas personalidades e por que elas importam para a história da cidade.

Na capital paulista, esse ambiente de mobilização também ajudou a pressionar o poder público a rever a baixa presença de personalidades negras entre os monumentos da cidade. Pouco mais de um ano depois, em agosto de 2021, a Prefeitura anunciou a criação de cinco novas estátuas em homenagem a figuras negras: a escritora Carolina Maria de Jesus, o atleta Adhemar Ferreira da Silva, o compositor Itamar Assumpção, o sambista Geraldo Filme e Madrinha Eunice.

'Faltam negros'

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