Zafari: Duas classes e uma selva | Outras Palavras
Um edifício classe média e um cortiço separados por um parque zoológico. A escassez move a ação – das famílias em busca do êxodo e a fome dos mais pobres. Filme venezuelano vai além da leitura simplista dada a polarização: mostra como crises fazem cair máscaras sociais
Publicado 12/02/2026 às 19:00
Por José Geraldo Couto, no Blog do IMS
Um dos filmes mais fortes e originais da temporada, o venezuelano Zafari, corre o risco de ser descartado ou receber uma leitura simplista e enviesada por conta da polarização política que assola o país vizinho – e, aliás, boa parte do mundo.
A ação se passa numa grande cidade não nomeada, num momento de crise econômica e social aguda, em que escasseiam alimentos e os apagões de energia são cada vez mais frequentes e duradouros.
A diretora Mariana Rondón, que está exilada e rodou seu filme no Peru, no México e na República Dominicana, diz que o tema começou a lhe interessar em 2015, quando animais de um zoológico venezuelano começaram a ser roubados, tudo indica que para alimentar pessoas famintas. Em 2017 e 2018 a situação se agravou com o aprofundamento da crise na Venezuela.
Homens e feras
É nesse contexto de deterioração geral que a cineasta ambienta seu filme. A definição do espaço é essencial desde o início. Há um frondoso parque florestal que abriga um zoológico com espécies silvestres, e em cada lado dele um edifício residencial: um deles, modernista e estiloso, abriga apartamentos espaçosos de classe média; o outro, meio em ruínas, meio em construção, é ocupado por famílias pobres, um pouco à maneira de um cortiço.
A história começa com a chegada de um hipopótamo – o Zafari do título – ao zoológico. A cerimônia é assistida de binóculos por uma família do prédio de classe média, Ana (Daniela Ramirez), Edgar (Francisco Denis), e o filho adolescente do casal, Bruno (Varek la Rosa). Simetricamente, no lado pobre do parque, a família Romero – o pai, Ali (Ali Rondón), a mãe, Natalia (Samantha Castillo), e o filho adolescente – é encarregada de cuidar do hipopótamo.
O filme todo se desenvolve a partir dessa organização geográfica e social – duas classes sociais antagônicas, com uma selva no meio. A partir de um certo momento, a piscina do edifício bacana passa a ser frequentada também pelos pobres do outro lado.
Outro fator que aproxima os dois lados é a escassez, ou, melhor dizendo, a fome. O prédio de classe média está cada vez mais vazio, pois as famílias que conseguem abandonam o país. Com a desculpa de ser da associação de moradores e verificar vazamentos de água, Ana entra nos apartamentos vazios e recolhe para si tudo o que pode: ovos, alimentos enlatados, guardanapos de papel.
Enquanto isso, o marido tenta vender o terreno que era da sogra para financiar a fuga para o exílio. O terreno, como depois macabramente se revela, é o jazigo de onde a mulher foi retirada para ser cremada.
Cães selvagens
Com segurança e sutileza, Mariana Rondón cria um ambiente crescentemente de pesadelo, em que cada personagem parece se animalizar dia a dia, fazendo cair uma a uma as máscaras sociais e os escrúpulos éticos – analogamente aos cães que, abandonados pelos donos em fuga, voltam a ser selvagens.
Perpassando todo esse processo há uma tensão erótica latente, que se manifesta na sensualidade ostensiva de Natalia Romero e no esboço de sedução entre o casal "pobre" e o casal "rico", incluindo o filho adolescente deste último. Incomoda a Ana e Edgar o fato de seu filho Bruno se aproximar do filho negro dos Romero e, mais ainda, da própria Natalia.
Pouco ou nada se vê do mundo urbano exterior a esse complexo prédio rico/selva/prédio pobre. Apenas o rugido das gangues de motoqueiros, uma ameaçadora milícia informal chavista.
A atmosfera claustrofóbica e de progressiva degeneração lembra O anjo exterminador, realizado por Luis Buñuel no México em 1962. Mas na sátira surrealista de Buñuel era a aristocracia que se tornava prisioneira de sua própria vacuidade. Os criados fugiam a tempo. Na distopia realista de Mariana Rondón as classes sociais se igualam na degradação e na desumanização provocadas pela escassez. Não há saída, não há catarse.
Hoje ninguém vê o filme de Buñuel como um retrato do México daquele período, mas sim como uma obra-prima universal. Mal comparando, um dia Zafari talvez venha a ser apreciado com esse olhar mais amplo, não contaminado pelo fla-flu em torno da Venezuela, uma ditadura cheia de equívocos que acaba de ser agredida por uma potência não menos ditatorial.
Em tempo: a diretora Mariana Rondón realizou em 2014 o ótimo Pelo malo, comentado aqui na época Cinema de cabelo duro – por José Geraldo Couto, e já tem um novo filme, Ainda é noite em Caracas, rodando com sucesso pelos festivais do mundo.
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"A diretora Mariana Rondón, que está exilada e rodou seu filme no Peru, no México e na República Dominicana, diz que o tema começou a lhe interessar em 2015"
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Named source"a ditadura cheia de equívocos que acaba de ser agredida por uma potência não menos ditatorial."
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"quando animais de um zoológico venezuelano começaram a ser roubados, tudo indica que para alimentar pessoas famintas. Em 2017 e 2018 a situação se agravou"
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Background"A atmosfera claustrofóbica e de progressiva degeneração lembra O anjo exterminador, realizado por Luis Buñuel no México em 1962."
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"A ação se passa numa grande cidade não nomeada, num momento de crise econômica e social aguda"
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"Por José Geraldo Couto, no Blog do IMS"
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Author attribution"Publicado 12/02/2026 às 19:00"
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Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
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The analysis is logically structured, moving from introduction, to context, to plot summary, to thematic comparison, without internal contradictions.
Core Claims & Their Sources
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"The Venezuelan film 'Zafari' risks being dismissed or simplistically read due to political polarization, but it is a strong, original work that shows how crises strip away social masks."
Source: Analysis and evaluation by the author, José Geraldo Couto, supported by context attributed to the film's director, Mariana Rondón. Named secondary
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"The film is set in a context inspired by real events in Venezuela from 2015-2018, where zoo animals were stolen, likely due to hunger."
Source: Attributed to the film's director, Mariana Rondón. Named secondary
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"Venezuela is characterized as a flawed dictatorship recently aggressed by another equally dictatorial power."
Source: Presented as the author's own political viewpoint without a cited source. Unattributed
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (8)
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P1
"The film 'Zafari' is directed by Mariana Rondón."
Factual -
P2
"Mariana Rondón directed 'Pelo malo' in 2014."
Factual -
P3
"The film 'Zafari' features actors Daniela Ramirez, Francisco Denis, and others."
Factual -
P4
"The article was published on February 12, 2026, at 19:00."
Factual -
P5
"The author is José Geraldo Couto, writing for the Blog do IMS."
Factual -
P6
"Political polarization (cause) risks leading to a causes simplistic reading of the film 'Zafari' (effect)."
Causal -
P7
"Scarcity and hunger (cause) lead to social degradation causes and dehumanization for both classes in the film (effect)."
Causal -
P8
"The real-world crisis in Venezuela from causes 2015-2018 (cause) inspired the film's themes (effect)."
Causal
Claim Relationships Graph
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: The film 'Zafari' is directed by Mariana Rondón. P2 [factual]: Mariana Rondón directed 'Pelo malo' in 2014. P3 [factual]: The film 'Zafari' features actors Daniela Ramirez, Francisco Denis, and others. P4 [factual]: The article was published on February 12, 2026, at 19:00. P5 [factual]: The author is José Geraldo Couto, writing for the Blog do IMS. P6 [causal]: Political polarization (cause) risks leading to a causes simplistic reading of the film 'Zafari' (effect). P7 [causal]: Scarcity and hunger (cause) lead to social degradation causes and dehumanization for both classes in the film (effect). P8 [causal]: The real-world crisis in Venezuela from causes 2015-2018 (cause) inspired the film's themes (effect). === Causal Graph === political polarization cause risks leading to a -> simplistic reading of the film zafari effect scarcity and hunger cause lead to social degradation -> and dehumanization for both classes in the film effect the realworld crisis in venezuela from -> 20152018 cause inspired the films themes effect
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.