C
21/30
Fair

O que podemos aprender com Cabanis hoje? | Outras Palavras

outraspalavras.net By Ana Paula Magalhães 2026-02-12 1823 words
O que podemos aprender com Cabanis hoje?

Livro recém-lançado aborda a vida e legado do pensador humanista francês. Dedicou-se, no século XVIII, a uma reforma no ensino médico, que impactou até países da América Latina, e sugeriu: instrução pública, saúde e cidadania são inseparáveis

Publicado 12/02/2026 às 18:15 - Atualizado 12/02/2026 às 18:16

Recensão crítica do livro: A Revolução de Georges Cabanis, de Naomar de Almeida Filho (Belo Horizonte: Editora Quixote, 2025)

Paris, meados de 1794. O fim do regime do Terror e a morte de Robespierre encerravam um momento de um fenômeno que se tornaria emblemático de toda uma Era, ao catalisar (em que pese a flagrante heterogeneidade dos grupos e de suas formas de pensamento e agência) o espírito do Iluminismo e ao sintetizar, na imagem da cidade de Paris, o conceito moderno de Luz. Ao passo que para os antigos e medievais a Luz estivera relacionada à Verdade ou à Sabedoria, a Luz do século XVIII vinha revestida de um plural – as Luzes – cujos fundamentos podem ser identificados no dístico "Liberdade, Igualdade, Fraternidade" – valores humanos universais, porém hoje indissociáveis da Revolução Francesa.

O médico Georges Cabanis passara os últimos dois anos em um semi-exílio, residindo em uma mansão em Auteuil, no subúrbio de Paris, propriedade de Anne-Catherine, viúva do filósofo Claude-Adrien Helvetius. Nas dependências da propriedade, uma clínica destinava-se a prestar cuidados gratuitos aos pobres, e foi a razão pela qual médico e proprietária acabaram poupados do rigor do regime. Com o fim do Terror, Cabanis convenceu Madame Helvetius a reabrir seu salon em Paris, célebre por reunir influentes personalidades, entre franceses e estrangeiros. Ali, onde em sua juventude passara soirées entretido com as belle-lettres e onde conhecera o Marquês de Condorcet e Benjamin Franklin, um já experiente Cabanis engajava-se, agora, em um debate filosófico que tinha como horizonte a construção de uma agenda política.

Nos salons parisienses, a aristocracia territorial que buscava as "Luzes" encontrava-se com as famílias de altos funcionários públicos – após o fim do Terror, seus remanescentes retornaram, mas as Luzes parisienses pareciam singularmente opacas. Para além do diletantismo literário e filosófico, era chegado o momento de idealizar um projeto de nação após a ruptura: a Idéologie. Seus intelectuais, sob a liderança de Cabanis e de Antoine Destutt de Tracy, autodenominaram-se "ideologistas". O termo, anterior à concepção marxista, identificava os estudiosos de um campo do conhecimento específico: a "ciência das ideias".

Esse livro é uma tradução revisada e atualizada de The Revolution of Georges Cabanis: a Forgotten Education Reform in Post-Enlightenment France, publicado em 2022 pela Queen's University, do Canadá. Muito mais do que uma bem urdida biografia ou a competente descrição historiográfica de um fenômeno, para além do enfoque na vida e na obra de Georges Cabanis e da análise histórica meticulosa dos esforços em prol da reforma na saúde francesa do pós-Iluminismo, o livro é o retrato de uma Era e a radiografia de sua mentalidade – com seus imaginários sobre a República e a Democracia e com seus projetos de consolidação da cidadania e de universalização de direitos.

* * *

Melancólico, inquieto e curioso: assim Naomar de Almeida Filho descreve o jovem Pierre-Jean-Georges Cabanis, quinto filho do advogado e funcionário real Jean-Baptiste Cabanis e da aristocrata Marie-Héléne de Souleyrac, nascido em 1757, em Cosnac, atual Nova Aquitânia, na França centro-meridional.

Órfão de mãe aos sete anos, expulso aos quatorze do pequeno colégio confessional de Brives, em sua região natal, Cabanis foi enviado a Paris para terminar seus estudos – recomendado por Turgot, futuro ministro das finanças de Luís XVI. Era o ano de 1771. Almeida Filho situa, então, o percurso da formação de Cabanis em articulação com a efervescência de ideias no centro nervoso do Iluminismo, e confere uma dimensão dialógica entre a agenda da Paris revolucionária e a agência política do jovem ansiado. A exemplo de outras mentes brilhantes em seu respectivo tempo, Cabanis dedicou-se em um primeiro momento aos estudos clássicos, tendo traduzido parte da Ilíada de Homero. A frequência nos solons de Paris ampliaria rapidamente seu horizonte de interesses, de maneira que passaria rapidamente a interessar-se pelos temas filosóficos de vanguarda e, por extensão, às Ciências Naturais.

Na mesma medida em que nenhum homem é uma ilha, tampouco o conhecimento sobre o que quer que seja pode ser contido em uma caixa. Em Cabanis, ingresso em 1778 na rigorosa e tradicional Faculdade de Medicina de Paris, os saberes transbordavam as divisórias. Entre 1785 e 1788, anos imediatamente anteriores à eclosão da Revolução, enquanto cuidava dos pobres na propriedade familiar de Madame Helvetius, desenvolvia seus estudos médicos sob uma perspectiva humanista, procurando associar a Filosofia à Medicina e criticando um racionalismo que remontava ao século XVII e que preconizava o emprego irrestrito da Matemática como forma de legitimação das ciências. Ao mesmo tempo, sua agência política ecoou sua preocupação com a totalidade do corpo social. À frente da Comuna de Auteuil, em 1791, Cabanis foi o responsável por alguns dos relatórios que inspiraram a reorganização das instituições francesas nos primeiros anos da Revolução: dentre seus temas, encontravam-se a educação – então denominada "instrução pública" – e o bem-estar social.

Foi no campo da educação médica que o ideário de Georges Cabanis se desenvolveu por meio de práticas duradouras que se prolongam até nossos dias, conforme nos faz notar o autor e também médico epidemiologista Naomar de Almeida Filho. O livro todo pode ser compreendido como um diálogo entre os modelos de prática em saúde propostos por Cabanis e os esforços por sua implementação, até os dias de hoje, em regiões periféricas do mundo – tais quais o Brasil. Seja ao retomar Cabanis em sua atuação junto à Comissão Hospitalar entre 1790 e 1792, seja ao descrever sua atuação como professor adjunto na Faculdade de Medicina de Paris a partir de 1797, Almeida Filho recupera um debate sempre atual a respeito da relação médico-paciente. É quase possível identificar, nas entrelinhas do texto, um diálogo entre dois profissionais médicos, pautado na defesa de uma medicina humanista, que prescreve a identificação de signos e sintomas no exame do paciente, em uma concepção totalizante daquilo a que denominamos "pessoa".

Inquietude de Cabanis, inquietude de Almeida Filho. A busca pelo médico, ideólogo, político, literato e filósofo esquecido pela posteridade é a busca pela reafirmação de valores humanísticos fundamentais, associada à devolução de Cabanis ao lugar que sempre deveria ter sido o dele. Wilhelm von Humboldt foi recepcionado pelos seus pósteros como o grande ideólogo da Universidade alemã contemporânea, o que contém uma boa dose de exagero e um grande desejo de se construir um mito. A Cabanis, por seu turno, coube o oblívio. Que sua memória venha a ser reavivada em um país periférico que a custo afirmou sua democracia – e que hoje vive um franco retrocesso de valores republicanos, civilizatórios e humanitários – é um evento que não passa despercebido pelo autor.

E das páginas de A Revolução emerge um Cabanis cientista e humanista capaz de catalisar os anseios de nossa modernidade brasileira, esta modernidade sempre por vir. Um Cabanis talhado nas palavras do epidemiologista e historiógrafo Almeida Filho, e com o qual, a partir do trânsito entre objetos de interesse genuíno, somos tentados a identificá-lo. Essa dialética narrador-fonte, autor-tema, sujeito-objeto, perceptível nas entrelinhas do texto, atinge sua apoteose justamente no imbricamento dos contextos – o momento em que se encontram e se miram no espelho a França pré-revolucionária e a democracia brasileira de 2022. Do cruzamento desses dois porvires – projetos que em sua temporalidade ainda não deram frutos ou conheceram flagrantes retrocessos – extrai-se um diagnóstico que é também prognóstico: a noção de uma indissociabilidade entre instrução pública, acesso à saúde e cidadania.

* * *

Em obra intitulada Espaços da recordação, Aleida Assmann nos ensina a respeito dos mecanismos de produção da memória. Eles implicam em operações tais como recordação, rememoração, eternização, remissão, projeção e esquecimento, e, como tal, pressupõem a memória como um ato cultural. Resultado dos projetos de poder em disputa após o término da Revolução Francesa, a proposta da reforma do ensino médico conheceu seus limites de implementação ao longo da Era Napoleônica, concomitantemente ao arrefecimento das atividades dos Ideólogos na França. Neste sentido, os anos finais da vida de Cabanis, até sua morte, em 5 de maio de 1808, foram marcados por uma espécie de autoisolamento: atuando como titular da cadeira de Língua e Literatura Francesa no Institute de France, o ideólogo distanciou-se do debate público, em um contexto de refluxo das ideias libertárias e do ideal de igualdade. A República revolucionária, por vezes radical, cedeu lugar à instauração de um Império na França; aos despojos de Cabanis coube um lugar no Panteão de Paris, e sua memória foi agraciada com o título de Conde do Império. A honraria póstuma, contraditória com os princípios que marcaram o pensamento e a ação de Cabanis durante a Revolução, pode ser entendida como fator de apagamento, ao instituir determinados parâmetros para a memória coletiva acerca do personagem. Verificou-se um processo de dissociação entre o imortal do Panteão e o humanista revolucionário, resultando na neutralização do primeiro (um dentre tantos outros "imortais") e no esquecimento do segundo (e de sua ação fundamental, em vida).

Com uma proposta "neofoucaultiana" de apreensão e análise do personagem histórico Georges Cabanis, Almeida Filho propõe uma "arqueogenealogia" de seu sujeito-objeto: esta pode ser definida como uma investigação combinada em extensão e profundidade. O próprio Michel Foucault, por seu turno, em sua Naissance de la clinique, já havia encontrado naquele personagem um dos fundamentos da moderna concepção da medicina e da ciência médica. A obra de Foucault não chegou (e não se propôs) a superar o esquecimento a que o personagem e a agência de Cabanis foram relegados. A retomada desse Iluminismo vem à luz pela obra de um brasileiro em um contexto absolutamente obscurantista. Ao tomar a si a tarefa de denunciar uma hegemonia do pensamento que excluiu Cabanis da Revolução das ideias sobre a Educação, Almeida Filho se propõe, assumidamente, uma tarefa política. Ato voluntário de resistência, a escrita da história de Cabanis assume, nas mãos de Almeida Filho, a dimensão de denúncia: escrever a história de Cabanis é escrever a história da negligência a Cabanis. Essa forma do fazer História – de sobrepor para contrapor – ecoa a célebre prescrição de Walter Benjamin: escovar a História a contrapelo.

Do centro das Luzes à "lata de lixo da História oficial", dos salons da Paris revolucionária ao mausoléu dos imortais do Império napoleônico: o percurso pelo qual Almeida Filho nos conduz não busca compreender o final da história; ele focaliza a lacuna. É ali, no espaço até agora vazio, que se desenrola o essencial de sua trama historiográfica. A obra transborda uma inquietação, semelhante àquela do jovem e inquieto Cabanis. Ao leitor, será impossível permanecer quieto. Boa leitura!

Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, contribua com um PIX para [email protected] e fortaleça o jornalismo crítico.

Tap highlighted text for details

Source Quality
Perspective
Context
Neutrality
Transparency
Logic