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O carnaval mostra que bicheiro é o bandido que deu certo

intercept.com.br By Cecília Olliveira 2026-02-13 540 words
"Eu não sou miliciano. Sou bicheiro". A frase atribuída a Adriano da Nóbrega não expressa confusão nem bravata. É uma declaração de posição. Ao recusar o rótulo de miliciano e reivindicar o de bicheiro, Adriano aponta para uma hierarquia clara dentro do crime organizado: bicheiro é o bandido que deu certo. Não apenas porque veio antes, mas porque soube se institucionalizar, operar com o Estado e transformar ilegalidade em poder durável. A frase expõe o vínculo profundo entre duas estruturas que costumam ser tratadas como distintas: o crime em torno do jogo do bicho e a milícia, que hoje controla parcelas significativas da vida urbana do Rio de Janeiro.

Essa distinção importa porque desmonta uma das mentiras mais persistentes sobre o crime no Rio, que exploro ao longo de Como nasce um miliciano: a ideia de que a milícia seria uma anomalia recente, um desvio extremo de policiais corrompidos, algo corrigível com operações pontuais ou trocas de comando. O livro mostra o oposto. A milícia não rompe com o passado. Ela dá continuidade a ele. O jogo do bicho funciona como uma escola, ou, mais precisamente, como um curso avançado de gestão criminosa.

Ao longo de décadas, o bicho construiu um modelo de poder ilegal altamente funcional e, arrisco dizer, a esta altura do campeonato, indestrutível. Não se limitou à exploração do jogo – hoje legal e operado online. Organizou uma estrutura estável de governança criminosa, com controle territorial e eleitoral, hierarquia, regras internas, gestão de conflitos e, sobretudo, relações orgânicas com agentes do Estado. O bicho não sobreviveu apesar da polícia, do Judiciário ou da política. Sobreviveu porque soube capturá-los seletiva e eficientemente.

É nesse ponto que entra Ailton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães. Ex-oficial do Exército, agente da repressão política e apontado como torturador do DOI-Codi pela Comissão Nacional da Verdade, Guimarães atravessa da violência oficial à contravenção sem ruptura ética ou institucional. Ele não rompe com o Estado ao ingressar no jogo do bicho; apenas muda de posição dentro dele, mantendo a mesma lógica de operação.

Guimarães usou por anos suas credenciais como agente da repressão para extorquir contrabandistas na Zona Portuária do Rio, apreendendo mercadorias irregulares para revendê-las aos próprios donos ou a concorrentes. Pressionado, deixou o Exército em 1981, sem que isso representasse queda real. Preso pouco depois, aproximou-se de Ângelo Maria Longa, o Tio Patinhas, um dos bicheiros mais poderosos da época, de quem recebeu o direito de explorar o jogo. A ascensão foi rápida e acompanhada por acusações de homicídio, corrupção, formação de quadrilha e tortura – nenhuma delas capaz de produzir consequências reais, numa trajetória sustentada pela certeza de que, com bons advogados, quase tudo é negociável.

'Para durar, o crime precisa ser aceito, naturalizado, integrado à vida social'.

Capitão Guimarães encarna o que o jogo do bicho produziu de mais sofisticado: crime com respeitabilidade, protegido por um verniz de institucionalidade. Não se limitou a comandar bancas e redes ilegais. Tornou-se dirigente de escolas de samba, presidente da Liga das Escolas de Samba, a Liesa, patrono do carnaval. Nas mãos de figuras como esta, o carnaval deixa de ser expressão cultural e passa a funcionar como estratégia de legitimação, capaz de converter dinheiro ilegal em prestígio social, influência política e blindagem simbólica.

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