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Quando a vítima vira ré: a engrenagem da misoginia rentável

jornalggn.com.br By Carla Castanho 2026-02-13 926 words
Jovem morre após recusar pedido de namoro.

Filho é morto pelo pai após este descobrir que a esposa o traía.

Estes são apenas dois dos diversos casos de misoginia que apavoram as mulheres brasileiras – e que, mesmo assim, terminam com a culpa recaindo justamente sobre a mulher, a vítima nessas histórias – que sustentam a engrenagem de um mercado de ódio muito rentável.

"Se hoje, as mulheres comprometidas acordassem e decidissem que não queriam mais estar numa relação afetiva, quantas continuariam vivas e em paz?", questionou a escritora Adriana Ventura em suas redes sociais. A resposta é óbvia: menos do que imaginamos.

Uma dessas vítimas é Sarah Tinoco Araújo, casada com o secretário de governo da cidade de Itumbiara (GO), Thales Araújo. Ela perdeu o filho de 12 anos, e o filho de oito anos está hospitalizado em estado gravíssimo depois de serem vítimas de tiros disparados pelo próprio pai.

Como se não bastasse, Sarah foi hostilizada durante o enterro de seu filho – porque o companheiro chegou a justificar o injustificável nas redes sociais, como se uma suposta traição da esposa fosse argumento para ceifar a vida de dois inocentes, ou para agir com violência. Em seguida ele atirou contra si mesmo.

A outra vítima é Alana Anísio Rosa, de 20 anos, que segue em coma induzido após levar 15 facadas desferidas por um sujeito que a perseguia depois de tê-la conhecido na academia.

Luiz Felipe Sampaio passou a enviar presentes e insistir em um relacionamento mesmo após a vítima recusar qualquer tipo de contato. Foi preciso que ela fosse "educada", como se o "não" já não fosse suficiente, para deixar claro que não estava a fim — "porque precisava estudar".

O caso de Alana lança luz sobre a crença no "amor romântico", sobre uma sociedade que ainda romantiza a coerção simbólica. Alana mostrou que um homem "insistente e gentil" pode ser apenas alguém que não aceita frustrações.

Alana precisou ser esfaqueada 15 vezes e ter o rosto desfigurado para provar que não há "jeitinho educado" capaz de convencer um homem a mudar de ideia quando ele não aceita ouvir um não.

Isso nos leva a outra pergunta: "Quem são, de verdade, os homens com quem nos relacionamos?".

A doutora em Saúde Coletiva e criadora da pá
gina "Cientista que virou mãe", Ligia Moreira, levanta essa questão a partir de outro caso que chocou a opinião pública e que, novamente, resultou na culpabilização da vítima.

A esposa do piloto Sergio Antônio Lopes, preso na segunda-feira por estuprar crianças e liderar uma rede de pedofilia, chegou à delegacia em estado de choque, tomada pelo sentimento de culpa por nunca ter desconfiado.

Nesse contexto, o ambiente digital ganha força ao criticar a mulher e questionar: "Como assim ela não sabia? Como é possível se relacionar com um homem e não saber que ele fazia esse tipo de coisa?".

Ligia, então, devolve a pergunta a todas as mulheres que se relacionam com homens: "Você sabe quem é seu companheiro? Bota a mão no fogo por ele?". E ela mesma responde:

"Em uma sociedade que naturaliza a misoginia desde a infância, é absolutamente impossível saber quem é aquele homem." Ou seja, a culpa não é nossa.

"Em uma sociedade que naturaliza a misoginia desde a infância, é absolutamente impossível saber quem é aquele homem." Ou seja, a culpa não é nossa.

Os abusos cometidos em ambiente familiar, por pessoas da família ou do círculo de confiança, chegam a 67,4% dos casos.

A cada quatro casos de violência no Brasil, em três a vítima é criança ou adolescente, segundo dados da Fundação Abrinq.

A especialista ainda explica como essa responsabilização moral também é fruto da misoginia: as mulheres são treinadas para cuidar, vigiar, sustentar e garantir a integridade de todos, especialmente dos homens.

Assim, quando um homem erra brutalmente, toda a sociedade, incluindo essa mulher, diz: "Você não cuidou como deveria, portanto, a culpa é sua". E, na verdade, a culpa nunca foi da mulher.

A naturalização e a banalização da misoginia autorizam os homens a performar e a se ocultar, dificultando que se identifique quem eles realmente são.

O cenário se agrava quando esses ataques são impulsionados pelas próprias plataformas digitais, que não apenas permitem, mas frequentemente amplificam conteúdos misóginos.

Em artigo publicado na revista AzMina, Paula Guimarães, do Portal Catarinas, explica que o ódio é rentável e que a misoginia se tornou um modelo de negócio para as Big Techs: a estratégia é perseguir, ameaçar e incitar violência contra mulheres por meio de ataques coordenados, de fóruns anônimos a grupos masculinistas.

"Tá muito conectado a esse algoritmo que entrega, que entende que esse conteúdo vai dar mais engajamento, logo vai ser comercialmente vendável, porque também tá dentro de uma lógica capitalista."

"Tá muito conectado a esse algoritmo que entrega, que entende que esse conteúdo vai dar mais engajamento, logo vai ser comercialmente vendável, porque também tá dentro de uma lógica capitalista."

Ou seja: não são apenas indivíduos violentos, mas uma engrenagem que transforma indignação em clique, clique em lucro, e lucro em incentivo para que o ciclo continue. Quando a misoginia gera tráfego, a violência deixa de ser apenas social, e passa a ser economicamente funcional.

Diante de tudo isso, talvez o gesto mais urgente seja parar de nos culpar pelo que nunca esteve sob nosso controle.

Não somos responsáveis pela violência que nos atinge, nem pela escolha de homens que decidiram ferir, ocultar ou matar.

A culpa não é nossa, nunca foi. A responsabilidade tem nome, tem gênero e precisa ser assumida por quem a carrega. Homens.

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