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Os Três Tenores e o Crescimento Rastejante, de Henrique Morrone

jornalggn.com.br By Henrique Morrone 2026-02-13 437 words
Os Três Tenores e o Crescimento Rastejante: Uma Ópera Brasileira

por Henrique Morrone

O Brasil é um espetáculo continuamente adiado: um drama estagnado que se arrasta entre ruínas industriais e promessas de modernização que nunca chegam ao segundo ato. Para explicar esse crescimento rastejante — sempre sob juros reais elevados e desindustrialização persistente — as teorias econômicas se dividem entre os Três Tenores.

Como diria Jerry Seinfeld, temos Pavarotti, Plácido Domingo e Carreras… aquele outro cara que o público adora, mas insiste em esquecer.

Pavarotti: a Escola Neoclássica

O tenor do horário nobre é o Pavarotti Neoclássico, que canta sua ária obsessiva: "A culpa é da Constituição de 1988!"Para ele, o Brasil só crescerá quando o palco estiver vazio: corta-se o coro, demite-se o contrarregra, vende-se o piano. Os cortes, claro, recaem sempre sobre os custos de funcionamento do teatro — nunca sobre sua bilheteria avantajada. A "fada da confiança" despencaria dos camarotes.

Enquanto isso, por trás das cortinas, o sistema financeiro engole a bilheteria, recheada de juros da dívida pública.

Plácido Domingo: o Novo-Desenvolvimentismo

O Plácido Domingo Estruturalista insiste: o país virou um solista de soja e minério. A taxa de câmbio apreciada fumou a manufatura. Sem indústria — pulmão da produtividade — o Brasil desaprendeu a cantar árias complexas e voltou a mugir nas commodities.

Enquanto o juro for a nota mais alta da partitura, seremos apenas um fazendão iluminado que importa tecnologia que poderia ser regida internamente.

Carreras: a Tradição da Taxa de Lucro

E há o Carreras, o tenor sombrio da lucratividade. Sua voz ecoa, mas seu nome é apagado. Ele lembra o óbvio incômodo: por que produzir, inovar e empregar, se o rentismo oferece o oásis sem suor?

A elite desistiu do desenvolvimento e tornou-se sócia da estagnação.

El Gran Finale

O drama brasileiro é que os maestros não se comunicam. Enquanto Pavarotti corta a comida da plateia e Plácido discute o tom do piano, Carreras revela a tragédia:

o teatro já foi vendido para virar estacionamento de luxo.

Trocamos o engenhe
iro pelo entregador de aplicativo, o centro de pesquisa pela corretora, a fábrica pela renda do papel. A economia não está apenas rastejando: está sendo desmontada.

Fomos convocados não para assistir à ópera, mas para aplaudir silenciosamente o leilão de nosso futuro.

Henrique Morrone é economista e professor associado da UFRGS.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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