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Carta ao Leitor — Edição 309

revistaoeste.com By Branca Nunes 2026-02-13 838 words
Por volta do ano 62 a.C., Júlio César, a mais alta autoridade da Roma Antiga, decidiu divorciar-se de Pompeia, depois que um político, disfarçado, invadiu uma cerimônia religiosa exclusiva para mulheres em que ela estava presente. Ele acreditava na sua inocência, o que gerou uma expressão popular que atravessou os séculos: "À mulher de César não basta ser honesta; deve parecer honesta".

Todos os ministros do Supremo certamente já ouviram essa frase. Mas parece que não lhe dão importância. Embora o cargo que ocupam exija reputação ilibada, alguns organizam convescotes reunindo políticos, juízes e empresários. Outros tentam interferir em decisões de órgãos independentes, pressionando seus integrantes. A maioria não enxerga nada de mais em julgar causas nas quais familiares próximos advogam para uma das partes.

Dias Toffoli, como discursou um dos ministros que aprovaram o AI-5, acaba de mandar às favas todos os escrúpulos de consciência para ir muito além de todos os excessos. Com a paz de uma criança dormindo, o ministro passou a julgar processos de antigos clientes dos tempos de advogado, cancela sem quaisquer pudores multas bilionárias impostas a condenados em acordos de leniência e foi responsável pela pá de cal que consumou o sepultamento da Operação Lava Jato.

Toffoli também não viu nada de errado na viagem de jatinho ao lado de um dos principais advogados de Daniel Vorcaro, dono do Master. Alegou ter voado em companhia comprometedora só para assistir à final da Libertadores. Nem na sociedade em que se uniu a dois de seus irmãos e um cunhado do banqueiro bandido para lucrar com um resort no Paraná. Não é pouca coisa. Mas não é tudo. Dias depois do passeio em Lima, Toffoli proclamou-se relator da maior fraude bancária da história do país e colocou sob sigilo todas as provas obtidas pela Polícia Federal.

Se antes o ministro não parecia honesto, as mais recentes revelações sobre o escândalo, detalhadas na reportagem de capa assinada por Carlo Cauti, informam que Toffoli se transformou num caso de polícia e tornou insustentável sua permanência no cargo. Nesta quinta-feira, numa reunião de todo o plenário da Corte, Toffoli deixou a função de relator. É um primeiro passo em direção à porta de saída.

Enquanto isso não acontece, Edson Fachin tenta ao menos aprovar um código de conduta — algo que seria desnecessário se a Constituição estivesse realmente em vigor. Como pondera Roberto Motta, "um magistrado que precisa de um código para se comportar de forma ética talvez esteja na profissão errada". Se fossem cometidas por um brasileiro comum, por exemplo, as ilegalidades protagonizadas por Toffoli seriam enquadradas em artigos do Código Penal. Os ministros tentam tapar o sol com a peneira e apostam na acefalia do povo, afirma Alexandre Garcia.

Quem também aposta na amnésia coletiva é Alexandre de Moraes. Até o momento, o ministro não ofereceu nenhuma explicação sobre o contrato de R$ 129 milhões assinado pela advogada Viviane Barci e o banco falido. "A mulher de Moraes pode argumentar que cumpriu a missão que lhe foi confiada, e não aparece no contrato por motivos óbvios: garantir o engajamento do marido na ofensiva improvisada para salvar o Master da liquidação e soltar Vorcaro da cadeia", observa Augusto Nunes.

Entre uma ligação e outra para Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, Moraes aproveita o tempo escasso para condenar mais um preso pelo golpe de Estado imaginário de 8 de janeiro de 2023. A repórter Loriane Comeli relata que, como se não lhe bastasse lidar com um volume absurdo de inquéritos e ações penais, o ministro também passou a controlar processos relativos ao cumprimento das penas. Entre as vítimas de Moraes está Raquel de Souza, sentenciada a mais de 16 anos de prisão. A história da cozinheira de 51 anos que acaba de ser deportada pelos EUA é o tema do artigo de Eugênio Esber.

Lula continua falando demais em palanques improvisados, mas se refugia no silêncio quando surge algum assunto que não lhe convém. O presidente evita criticar ministros do STF e também se cala quando entra na pauta algum ditador amigo. Os artigos de Rodrigo Constantino e Brendan O'Neill, da Spiked, além da entrevista de Eugenio Goussinsky com a cantora Mah Mooni, escancaram os horrores do Irã sob diferentes pontos de vista.

Calcula-se que, até agora, cerca de 12 mil pessoas tenham sido assassinadas pela polícia ou por milicianos. Lula não encontrou tempo para comentar o que fazem os amigos aiatolás. É possível que esteja ocupado demais com os preparativos para o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que transformou o presidente no tema do desfile na Sapucaí. Tudo patrocinado, claro, com o dinheiro dos pagadores de impostos.

Também merece destaque a "Acadêmicos do Caô". Criada pela lúcida ironia de Guilherme Fiuza, merece nota 10 no quesito samba-enredo antes mesmo de entrar na avenida. Confira o refrão:

"Olê, olê, olê, olá / Esquece o passado e vem sambar! / Vamos sambar de montão / Acorda, amor. Chame o ladrão / (Chame o ladrão, chame o ladrão!)."

Boa leitura.

Branca Nunes

Diretora de Redação

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