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Programa transforma cultura digital em escudo de resistência de povos indígenas

acritica.com By Daniel Brandão 2026-02-15 841 words
Protagonismo

Iniciativa oferece formação e acompanhamento técnico à populações indígenas de São Gabriel da Cachoeira

Daniel Brandão

15/02/2026 às 08:47.

Encontro reuniu 30 projetos de diferentes etnias para debater biomas digitais em São Gabriel da Cachoeira (Foto: Stefany Jablonski/Labic/UFRJ)

Entre as negras águas que contam histórias e as florestas que guardam memórias, os povos indígenas erguem sua voz em um novo território: o digital. Atravessando séculos de silenciamento, transformam as tecnologias de comunicação e informação em ferramentas de resistência e pontes de afirmação cultural, mostrando que a ancestralidade também pulsa nas redes contemporâneas.

Buscando fortalecer a presença indígena em cidadania, território e cultura digital, a Rede de Formação em Cultura Digital, iniciativa do Laboratório de Inovação Cidadã (Labic/UFRJ), selecionou 30 projetos comunitários de povos indígenas de São Gabriel da Cachoeira, para participarem de um programa de formação em cultura digital entre 04 a 07 de fevereiro.

A iniciativa busca ampliar o protagonismo dos povos indígenas do estado do Amazonas na criação de narrativas próprias, além de provocar o debate sobre os direitos dos povos das florestas em diálogo com os "biomas digitais", que atravessam a vida cotidiana, política e os territórios amazônicos.

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"A Rede de Formação em Cultura Digital tem o objetivo de discutir a cultura digital no mundo contemporâneo, a partir de oficinas de formação e mentorias de pessoas, e busca fortalecer a autonomia comunicacional das lideranças, ampliando sua capacidade de reconhecer a desinformação e de produzir narrativas próprias sobre seus territórios, culturas e projetos", dissee a pró-reitora de Extensão da UFRJ e coordenadora da iniciativa, Ivana Bentes.

Línguas
oficiais

Sendo o município brasileiro com a maior população indígena, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), São Gabriel da Cachoeira abriga 23 etnias e reconhece o Tukano, Baniwa e Nheengatu como línguas oficiais, para além do português, tornando-se exemplo comunicacional para outros povos indígenas.

"A comunicação em São Gabriel da Cachoeira é muito forte.
Já existe uma uma percepção dos grupos indígenas de que ela é decisiva como forma de preservação da própria cultura, de comunicação entre os povos e defesa dos territórios", destacou a coordenadora.

Ampliando a realidade

Claudia Ferraz, indígena do povo Wanano e coordenadora da Rádio On-line Wayuri, entende que a comunicação digital contribui para mostrar as lutas diárias, as vivências e a realidade da vida nos territórios indígenas, possibilitando o compartilhamento com o público não-indígena.

outros coletivos que, muitas das vezes, nos inspiram a criar novos projetos e novas iniciativas, de acordo com a nossa realidade local. A universidade nos traz várias possibilidades de parcerias, acompanhando e fortalecendo o desenvolvimento de nossas ações e projetos dentro do território", frisou.

Rede de formação

A Rede de Formação em Cultura Digital - Labic Amazonas, em São Gabriel da Cachoeira é realizada pelo Ministério da Cultura (MinC), por meio da Secretaria de Formação Artística e Cultural, Livro e Leitura (Sefli), e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), através da Pró-Reitoria de Extensão, com a parceria institucional da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e do Instituto Federal do Amazonas (Ifam), e tem colaboração do Pontão de Cultura Digital da ECO/UFRJ e da Mídia Ninja.

"Enfatizo que já existem muitas iniciativas importantes na região Norte, mas que às vezes elas não têm visibilidade. Os 30 projetos selecionados, por exemplo, são incríveis numa atuação micro ou local. Por isso é importante darmos visibilidade cada vez maior para o que está sendo feito na região", disse a pró-reitora.

Para além da formação teórica, prática e acompanhamento técnico, as 30 iniciativas contempladas também receberam o incentivo financeiro de R$ 1.000,00, que poderá ser utilizado para a aquisição de materiais, equipamentos ou serem investidos na melhoria dos projetos.

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Ferramenta de resistência

A programação articula a comunicação indígena como parte das lutas contemporâneas dos povos originários, abordando temas como o enfrentamento à desinformação nas aldeias, escolas indígenas inovadoras, exibição de documentários e de oficinas práticas de comunicação.

Para Ednéia Teles, indígena do povo Arapaso e coordenadora do projeto "Movimento de Futebol Feminino Indígena 100tenárias", a formação em cultura digital possibilita a ruptura de estigmas associados à imagem dos povos indígenas e, principalmente, ao registro e documentação cultural e combate a fake news.

"A importância da cultura digital para os povos indígenas está além da informação e comunicação, mas principalmente para o registro e exposição da nossa cultura. Muitos ainda acham que os indígenas ainda vivem nus no meio da floresta, sem tecnologia, sem uma casa, sem eletrodomésticos. Está em mostrar a nossa realidade", salientou.

Compreendendo a cultura digital como uma ferramenta para a valorização cultural dos povos indígenas, Estevão Olimpio, indígena do povo Kuripako e coordenador da microrregião do Baixo Içanã, destacou a importância desta ferramenta para o fortalecimento da cultura e formação de novas lideranças.

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