Obra pode resgatar história do Largo São Francisco com população negra
Obra de requalificação do Largo São Francisco motiva debate sobre a relação estreita da região com a população negra de SP no século 18
atualizado
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Uma obra de requalificação no Largo São Francisco (leia abaixo), no centro de São Paulo, pode ser uma oportunidade para resgatar a relação histórica do endereço com a população negra da capital paulista. É o que defendem membros do movimento negro e pesquisadores que estudam a região.
Assim como seu bairro vizinho, a Liberdade, o Largo São Francisco também foi testemunha da resistência da população negra escravizada em São Paulo. Uma história que foi parar, inclusive, em versos escritos pelo advogado abolicionista Luiz Gama.
Em 1859, ele publicou o poema "Cemitério de São Benedito", falando de um lugar onde o "escravo sucumbiu, livre nascendo!".
Em lugubre recinto escuro e frio,Onde reina o silêncio aos mortos dado,Entre quatro paredes descoradas,Que o caprichoso luxo não adorna,Jaz de terra coberto humano corpo,Que escravo sucumbiu, livre nascendo!Das horridas cadeias desprendido,Que só forjam sacrilegos tyrannos,Dorme o somno feliz da eternidade
Em lugubre recinto escuro e frio,
O Cemitério de São Benedito, que dá nome ao poema, foi criado para enterrar escravizados e ex-escravizados que faziam parte da Irmandade de São Benedito, uma espécie de associação católica de negros com forte atuação no Largo São Francisco entre os séculos 18 e 20.
Doutor em história pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o frei Alvaci Mendes conta que, na época em que a Irmandade de São Benedito nasceu, os sepultamentos em São Paulo eram feitos nos terrenos das igrejas, levando em consideração o poder aquisitivo e status social dos fiéis.
"Dentro da igreja, só eram enterrados aqueles que tinham condição de pagar por aquela cova, as pessoas mais ricas. As pessoas mais pobres eram enterradas da porta da igreja para fora. Isso inclui os escravizados e, é muito provável, inclui os da Irmandade de São Benedito, que trabalhavam de escravizados para o Convento de São Francisco."
O convento citado por ele ficava no terreno onde hoje está a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).
No início do século 19, a irmandade de São Benedito criou, então, um lugar próprio para sepultar seus "associados": o Cemitério São Benedito. Pesquisas feitas pelo frei Alvaci, que conta a história da irmandade no livro Um Preto no Altar, indicam que o cemitério ficava nos fundos da Igreja de São Francisco, onde agora está o prédio do Serviço Franciscano de Solidariedade (SEFRAS), que realiza trabalhos sociais com a população em situação de rua.
Apesar disso, quem passa hoje em dia pela Rua Riachuelo, na frente do ex-cemitério, ou cruza o Largo São Francisco, não encontra referências a essas memórias. Ou às histórias de que a irmandade juntava o dinheiro para comprar a alforria dos associados. Ou, ainda, à informação de que foram os negros que cuidaram da Igreja de São Francisco, depois que os frades franciscanos saíram de São Paulo – e olha que a irmandade passou quase um século à frente da igreja e colocou um santo negro, São Benedito, em seu altar.
A notícia de que a Prefeitura de São Paulo planeja uma obra para o local acendeu, por isso, um alerta entre aqueles que conhecem a história da região e que agora fazem uma cobrança: a de que essa memória seja resgatada e ganhe lugar de destaque.
A obra e o debate
A Prefeitura de São Paulo anunciou no início deste ano os planos para uma intervenção no entorno do Largo São Francisco. A reforma ainda não tem data para começar, nem valor definido, mas prevê ampliar calçadas e ciclovias, melhorar a arborização e a iluminação pública, e instalar bancos para descanso.
Uma fonte de água em memória a outra que existia ali no passado também deve ser instalada na requalificação. A meta é que, com as mudanças, o Largo São Francisco deixe de ser um lugar de passagem e se torne um ambiente de permanência.
A ideia surgiu de uma provocação feita pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e a associação de ex-alunos da instituição, que procuraram a prefeitura para propor uma ação no local.
"Hoje a gente assiste um centro de São Paulo que está muito desgastado, desertificado, que sofre muito, principalmente depois da pandemia. No entorno da faculdade, os comércios estão fechados, as pessoas têm receio de andar na rua", diz a diretora da Faculdade, Ana Elisa Bechara.
Ela conta que a instituição se reuniu com representantes da gestão municipal para defender que a prefeitura ouvisse coletivos e associações do entorno para construir um projeto de requalificação para o local.
"Não é um projeto de embelezamento, nem de maquiagem e estética. Requalificar é priorizar essa convivência, os aspectos culturais, históricos. É revalorizar o centro", diz ela.
Depois das primeiras reuniões, uma consulta pública on-line foi criada pela gestão Ricardo Nunes (MDB) e, há uma semana, no dia 10 de fevereiro, uma audiência pública foi realizada na Faculdade de Direito para discutir o tema.
"Potência histórica"
Foi lá, na faculdade, que o frei Davi Santos, fundador da ONG Educafro, pediu a palavra para defender que a memória negra da região fosse levada em consideração no projeto.
"Quem cuidou dessa igreja [de São Francisco] foi a Irmandade de São Benedito, por muitos anos. A pergunta é: como é que a organização vai recuperar essa potência histórica? […] A Prefeitura e todo o processo de urbanização não estão olhando para isso", disse o frei.
Escritor e presidente do Instituto Tebas, Abílio Ferreira também defende atenção com o tema. Ele diz que o projeto para o Largo São Francisco precisa ter um acompanhamento arqueológico.
"Essa intervenção está no mesmo contexto que o Sítio Arqueológico dos Aflitos, na Liberdade, o Sítio Arqueológico de Saracura, do Bixiga, e o sítio arqueológico das escavações que vão acontecer na Praça Antônio Prado. A possibilidade de encontrar vestígios de presença indígena e negra ali [no Largo São Francisco] é a mesma", diz o escritor.
Abílio tem acompanhado de perto os processos envolvendo os sítios arqueológicos da Liberdade e do Bixiga, que têm revelado traços importantes da ocupação negra nestes bairros.
No caso do Largo São Francisco, a quantidade de obras às quais a região foi submetida ao longo dos anos pode se tornar um empecilho para a localização de vestígios, segundo frei Alvaci.
Prefeitura analisa
Diretor-presidente da SP Urbanismo e um dos nomes à frente destas discussões sobre a obra no Largo dentro da Prefeitura, Pedro Martins Fernandes disse ao Metrópoles que a gestão deve acatar a reivindicação do movimento negro e trazer a memória da população para o projeto.
Ele lembra que discussões parecidas aconteceram durante o projeto da área para Liberdade, e culminou com a retirada das luminárias japonesas próximas à Capela dos Aflitos.
"A Liberdade começou como algo para abrir ruas para pedestres e terminou tirando luminária japonesa para permitir o melhor uso [do espaço] para a memória negra e indígena do Beco dos Aflitos. O que o frei Davi trouxe [na audiência pública], junto com outros movimentos, para a gente é muito benéfico."
Pedro afirma, no entanto, que ainda não há uma definição por parte da gestão de como esse resgate à história negra do local será feito.
Edital em breve
A Prefeitura prevê abrir em breve o edital de chamamento público para que interessados apresentem seus projetos para a requalificação do Largo São Francisco. A diretora Ana Elisa Bechara diz que a Faculdade de Direito tem interesse em doar um projeto para a cidade, reforçando a relação da instituição com o centro da capital.
Ela ressalta, no entanto, que a ideia não é que seja um projeto apenas com as sugestões do que a faculdade pensa ser o melhor, mas sim do que tem sido debatido em conjunto com moradores e movimento do bairro.
"[Queremos doar] um projeto que justamente seja fruto dessas contribuições. Do que foi produzido [até agora] e, claro, submetido a essa discussão que é pública", diz ela.
Moradia no entorno
Na audiência pública da semana passada, alguns participantes questionaram a prefeitura sobre quais serão as propostas da gestão para lidar com outros temas latentes na região, como a população em situação de rua e a necessidade de habitação popular – o entorno do Largo tem prédios ocupados por movimentos de moradia.
Uma das pessoas a se posicionar de forma crítica foi a arquiteta Isadora Guerreiro, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP) e uma das coordenadoras do LabCidade, laboratório da universidade que acompanha políticas urbanas e habitacionais.
Ao Metrópoles, ela disse que o projeto apresentado até agora não está levando em consideração aspectos históricos das lutas e ocupações atuais do território.
"É importante que ele se transforme num projeto de fato urbanístico, que considere todos os elementos urbanos envolvidos e, portanto, quem mora, quem trabalha, quem estuda no lugar", afirma ela, que defende que a prefeitura amplie o escopo das intervenções para incluir, por exemplo, o debate sobre moradia no local.
O projeto da prefeitura, de fato, não parece adentrar em outros aspectos neste momento. Mas, ao menos na Faculdade de Direito, a discussão sobre moradia popular tem ganhado tração nos últimos tempos.
A direção tem mantido conversas com a Reitoria da USP para instalar uma moradia estudantil no entorno da Faculdade de Direito. A ideia prevê responder a uma demanda histórica dos alunos e permitir que estudantes cotistas em situação de vulnerabilidade tenham mais condições de permanecer na universidade. Não há confirmação de quando o projeto sairá do papel, mas o Metrópoles apurou que a ideia foi bem recebida pelo reitor.
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No logical inconsistencies detected; narrative flows from historical context to current debate and future plans.
Core Claims & Their Sources
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"A requalification project at Largo São Francisco is an opportunity to rescue the location's historical relationship with São Paulo's Black population."
Source: Attributed to 'members of the Black movement and researchers who study the region' in the article's introduction. Named secondary
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"The Brotherhood of São Benedito, a Black Catholic association, had a strong presence at Largo São Francisco from the 18th to 20th centuries and managed the Church of São Francisco for nearly a century."
Source: Supported by quotes and historical context from Frei Alvaci Mendes, a doctor in history from PUC-SP. Primary
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"The São Paulo City Hall plans a public requalification project for Largo São Francisco focused on walkability and public space, and is considering how to incorporate Black historical memory."
Source: Supported by statements from Pedro Martins Fernandes, President-Director of SP Urbanismo, and project details announced by the City Hall. Primary
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (8)
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P1
"Luiz Gama published the poem 'Cemitério de São Benedito' in 1859."
Factual -
P2
"The Brotherhood of São Benedito created the São Benedito Cemetery to bury its enslaved and formerly enslaved members."
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P3
"The São Paulo City Hall announced plans for an intervention at Largo São Francisco at the beginning of the current year."
Factual -
P4
"An online public consultation was created by the Ricardo Nunes administration."
Factual -
P5
"A public hearing was held at the Law School on February 10."
Factual -
P6
"The news of the planned project sparked concern among those familiar with the region's history causes leading to a demand that this memory be rescued."
Causal -
P7
"The project idea arose from a provocation by the USP Law School and its alumni association causes who approached the city hall to propose an action..."
Causal -
P8
"Similar discussions happened during the Liberdade area project causes and culminated in the removal of Japanese lanterns near the Chapel of the Aff..."
Causal
Claim Relationships Graph
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: Luiz Gama published the poem 'Cemitério de São Benedito' in 1859. P2 [factual]: The Brotherhood of São Benedito created the São Benedito Cemetery to bury its enslaved and formerly enslaved members. P3 [factual]: The São Paulo City Hall announced plans for an intervention at Largo São Francisco at the beginning of the current year. P4 [factual]: An online public consultation was created by the Ricardo Nunes administration. P5 [factual]: A public hearing was held at the Law School on February 10. P6 [causal]: The news of the planned project sparked concern among those familiar with the region's history causes leading to a demand that this memory be rescued. P7 [causal]: The project idea arose from a provocation by the USP Law School and its alumni association causes who approached the city hall to propose an action at the site. P8 [causal]: Similar discussions happened during the Liberdade area project causes and culminated in the removal of Japanese lanterns near the Chapel of the Afflicted. === Causal Graph === the news of the planned project sparked concern among those familiar with the regions history -> leading to a demand that this memory be rescued the project idea arose from a provocation by the usp law school and its alumni association -> who approached the city hall to propose an action at the site similar discussions happened during the liberdade area project -> and culminated in the removal of japanese lanterns near the chapel of the afflicted
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.