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China em 2 Tempos: da sandália de plástico ao exoesqueleto, por Iara Vidal

jornalggn.com.br By Observatorio de Geopolitica 2026-02-07 1277 words
China em 2 Tempos: da sandália de plástico ao exoesqueleto — a impressionante modernização do Exército da República Popular da China

por Iara Vidal

Henfil, quando você esteve aqui na China entre julho e agosto de 1977, por 14 dias, e depois registrou suas impressões no livro Henfil na China – Antes da Coca-Cola, contou que, ao avistar um soldado do Exército Popular de Libertação (EPL) pelas ruas de Beijing, chegou a pensar que estivesse diante de um carteiro.

"Dá tanto medo de um soldado quanto se pode ter medo de um carteiro. São absolutamente civis. Só a farda verde. Sem armas. Sandálias de plástico."

Pois você ficaria de queixo caído se cruzasse hoje com um soldado do EPL na minha China de 2026. Aliás, o mundo inteiro ficou embasbacado quando, no ano passado, em 3 de setembro, a China realizou o maior desfile militar de sua história, no coração da capital, na Praça Tiananmen.

O evento celebrou os 80 anos da vitória na Segunda Guerra Mundial e exaltou a memória da chamada "Guerra de Resistência do Povo Chinês contra a Agressão Japonesa", como o país denomina o conflito. Ao mesmo tempo, reafirmou o compromisso chinês com um caminho de desenvolvimento pacífico, em um cenário internacional marcado por turbulências e incertezas.

Força militar e rejuvenescimento nacional

Henfil, esse desfile não foi um qualquer. Ele foi o primeiro desde que Xi Jinping — presidente da República Popular da China desde 2013 e hoje em seu terceiro mandato — passou a falar abertamente em uma "nova jornada para a modernização em todas as frentes", com prazo, meta e endereço: 2035.

Nada disso surgiu de repente, Henfil. A modernização do Exército Popular de Libertação não é um raio em céu azul, nem uma reação improvisada às tensões recentes. Ao longo dos Planos Quinquenais, a defesa foi sendo incorporada de forma gradual ao planejamento do Estado chinês, ganhando peso à medida que o país se transformava.

Nos primeiros anos após a Revolução Cultural, a prioridade era reconstruir a economia e restaurar a estabilidade interna. Com as reformas de Deng Xiaoping, consolidou-se a ideia de modernizar sem provocar, mantendo uma postura essencialmente defensiva. A partir dos anos 2000, a defesa passou a integrar de maneira mais explícita o planejamento de longo prazo, associada à indústria, à ciência e à soberania.

Nos planos mais recentes, sobretudo sob Xi Jinping, ela aparece articulada à inovação tecnológica, à digitalização e à capacidade de atuação em múltiplos domínios. O desfile de 2025, portanto, não inaugura essa trajetória — ele a expõe.

No discurso, Xi foi direto: o Exército Popular de Libertação precisa sustentar o projeto de rejuvenescimento nacional e se consolidar como uma força de classe mundial, capaz de garantir soberania, unidade e integridade territorial.

Na prática, o que se viu foram cerca de 70 minutos de um espetáculo cuidadosamente coreografado, com mais de 10 mil soldados, quase 100 aeronaves e centenas de equipamentos terrestres, organizados como se fosse um exercício real de tempos de guerra.

Pela primeira vez, o EPL apresentou suas forças de maneira integrada: Exército, Marinha, Força Aérea e Força de Foguetes, agora articuladas com as forças Aeroespacial, Cibernética, de Apoio à Informação e de Logística Conjunta. Nada ali parecia improvisado. Era recado.

Chamaram atenção os mísseis hipersônicos, as armas de energia dirigida, os sistemas de contra-drones e os equipamentos de guerra eletrônica. Mas o momento mais simbólico foi outro: a estreia pública da tríade nuclear chinesa, com capacidade estratégica em terra, no mar e no ar. Entraram em cena o JingLei-1, lançado por aeronaves; o JuLang-3, disparado por submarinos; o DongFeng-61, baseado em terra, além de uma nova versão do DongFeng-31.

Transmitido ao vivo, o desfile tomou conta das redes sociais chinesas em poucas horas. E, pela reação em Washington, ficou claro que o espetáculo não era apenas para consumo interno. A Casa Branca assistiu. E anotou.

E não: não havia nenhum soldado com cara de carteiro nem calçando sandálias de plástico. Você ficaria boquiaberto diante do que hoje veste o Exército Popular de Libertação. A farda contemporânea do EPL deixou de ser apenas roupa para se tornar infraestrutura: camuflagens de alta performance pensadas para múltiplos ambientes, tecidos funcionais integrados a coletes táticos, capacetes de materiais compósitos preparados para acoplar sistemas de comunicação e visão noturna.

Em exercícios recentes, a tropa passou a testar até exoesqueletos de apoio ao movimento, capazes de reduzir o esforço físico no transporte de cargas pesadas, especialmente em terrenos extremos.

O contraste é impressionante. A sandália de plástico cedeu lugar a um soldado integrado a redes digitais, sensores e sistemas inteligentes — expressão direta de uma China que trocou a escassez pela capacidade tecnológica e o improviso pela engenharia.

Esse movimento acompanha o crescimento contínuo do orçamento de defesa. Para 2025, o gasto oficial foi fixado em cerca de 1,81 trilhão de yuans (cerca de US$ 260 bilhões), um aumento de 7,2% em relação ao ano anterior. Ainda assim, os gastos militares da China permanecem abaixo de 1,5% do PIB, proporção menor do que a de grandes potências como os Estados Unidos.

A distância entre a sandália de plástico e o exoesqueleto ajuda a contar essa história melhor do que qualquer gráfico: a transformação material, simbólica e estratégica das forças armadas chinesas nas últimas décadas.

Do mundo previsível à era da imprevisibilidade

Mas esse salto não pode ser lido fora do mundo em que ele acontece.

Quando você esteve aqui, Henfil, em 1977, o planeta também vivia tensões — mas de outro tipo. A Guerra Fria dividia o mundo em dois blocos relativamente previsíveis. Nos Estados Unidos, o presidente era Jimmy Carter, que falava em direitos humanos, contenção de conflitos e diplomacia, tentando fechar as feridas abertas pelo Vietnã.

Quase cinquenta anos depois, o mundo mudou — e não necessariamente para melhor. A ordem bipolar deu lugar a uma multipolaridade instável, marcada por rupturas e gestos cada vez mais explícitos de força.

Sob Donald Trump, os Estados Unidos abandonaram o discurso da contenção e voltaram a tratar a soberania alheia como variável negociável. A intervenção aberta na Venezuela e a ameaça direta à Groenlândia escancararam uma política externa que voltou a flertar, sem pudor, com a lógica da imposição territorial e militar.

É nesse mundo que a China de 2026 se move. Não mais como espectadora, mas como potência econômica, tecnológica e militar. A modernização acelerada do Exército de Libertação Popular não nasce de um impulso expansionista abstrato, mas de um cálculo histórico bastante concreto: em um cenário global em que regras são relativizadas e a força volta a falar alto, vulnerabilidade deixou de ser virtude e passou a ser risco existencial.

Por isso, Henfil, aquele d
esfile não foi apenas uma exibição de músculos. Foi um recado cuidadosamente calibrado. A China não busca guerra, mas tampouco aceitará ser tratada como território disponível, mercado submisso ou peça descartável de um tabuleiro dominado por outros.

Se em 1977 o soldado parecia um carteiro de sandália de plástico, em 2026 ele veste sensores, algoritmos e aço. Não porque a China tenha se tornado belicosa por natureza, mas porque decidiu que nunca mais atravessará uma era de turbulência global descalça.

Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).

Fonte: CMG

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