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Não deixe de brincar nestes Carnavais…

otempo.com.br By Raphael Vidigal Aroeira 2026-02-17 572 words
A nudez está espalhada por entre ruas estreitas e largas avenidas. Em qualquer beco que se mire ela estará refletida. Lânguida, saliente, pitoresca ou hermafrodita. É uma nudez humana, mas, sobretudo, de fantasia. Os prédios, as paredes brancas e insípidas, a atmosfera cinza, torce o nariz para sua soberania.

A nudez desfila. E, como quem desfila, permanece altiva. Mesmo quando pula, mesmo quando cai, mesmo quando tropeça, até mesmo quando se desvencilha dos ambulantes, dos altos e baixos dessa vida, a nudez, agora, está por cima. Qualquer um que espie pela janela a avista.

De quem é afinal a nudez desta interminável avenida, da rua mais estreita, do beco mais escondido? São milhares, incontáveis, impossíveis de serem contabilizados ou medidos. É, sem dúvida, uma nudez coletiva. Estando todos despidos, quem verifica quem é o rei e quem é a rainha? Estão todos plebeus, misturados, trôpegos e altivos, andando em procissão carnavalesca.

O abre-alas, a porta-bandeira, o porta-estandarte, a rainha de bateria, o rei Momo e a Colombina, assobiam e chupam manga ao mesmo tempo, desbaratam uma risada e morrem de lágrimas por dois Pierrots e um Arlequim. "Nunca vi nada parecido", confessa o turista chileno, Martín Hernandez, de 22 aninhos.

Enquanto isso, a nudez passa sem ser incomodada, nem pela polícia. Qual a razão para recuperarmos este estágio primitivo? Para a liberação tresloucada de hormônios, salivas, suores e agonias? Qual um instinto, o Carnaval se afirma em cada esquina. A cidade toda tomada por blocos, caricatos, mambembes, feministas, afros, paradisíacos.

A ideia de pecado está ausente. "Beijo o primeiro que me passar pela frente", brinca a farmacêutica Janaína Lage, 35 anos, com uma dose de certeza. Soa um sax colorindo a paisagem. O acorde de jazz improvisa a música que requebra quadris, sacode o vento e abala as estruturas. Até os prédios parecem estar se movendo com a multidão.

No meio de toda a nudez, no centro do mundo, no olho do furacão, um senhor elegantemente vestido com uma camisa pictórica de outros Carnavais. Não vem de hoje sua história com essa algazarra. Ele desliza seus pés no asfalto quente, torrados pelo sol, como se pisasse em nuvens.

E ludibria a todos como se fosse cair, mas rapidamente troca uma perna pela outra e com a mesma elegância mexe os braços fingindo reter o mundo dentro deles. Wilson Braga, 69 anos, apenas um servidor aposentado. Não, mais que isso, bem mais. Um avô com sua neta, que assiste fascinada aos movimentos irreverentes e imprevisíveis desse senhor que adora o jazz.

Tudo uma fantasia. Uma nudez feita de glitter, brilho e purpurina, adensada com confetes e serpentinas, mangueiras para o céu e água sobre a cabeça. Parece um sonho. Talvez seja. Não importa. "No meu tempo eu pulava Carnaval três dias direto. Dançava muito. Hoje, um dia já me vale pelos três de antigamente", nos conta Wilson. Hoje é Carnaval. Amanhã ainda é Carnaval. Não porque esteja próxima uma Quarta-feira de Cinzas. Nem porque virou farra o estardalhaço de leques que imitam aplausos.

Mas porque o Carnaval está além da data no calendário. É a heroica alegria da bagunça e da patuscada. De se fantasiar e despir esse desarrumado cenário de fantasias, máscaras, das ilusões brilhantes e perdidas. No Carnaval, face desordeira da humanidade. Face divertida, bem resolvida, com muito alarde. Se tudo bem organizado perde o contato com a superfície mais fina de uma mera alegria, não deixe de brincar nestes carnavais.

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