OPINIÃO. Como evitar IPOs desastrosos? Comece levando a governança a sério
E em cada uma dessas janelas, o filme se repete: uma grande euforia, logo seguida de perdas milionárias para os investidores que acreditaram nas novas empresas.
Precisa ser assim?
Não faltam atores prontos a explicar o funcionamento das "janelas". O Brasil seria um mercado altamente volátil, as taxas de juros escorchantes, e o interesse do investidor estrangeiro incerto como as tarifas de importação americanas. Deveríamos nos resignar – e aproveitar as janelas quando elas se abrem.
Trata-se de uma explicação simples, elegante e errada. O mercado tem funcionado dessa forma pelas escolhas feitas por seus participantes. Ainda que possamos criticar os gatekeepers por seu foco excessivamente transacional, a chave para sair desse círculo vicioso está com os principais participantes: emissores e investidores.
Se olharmos a última "safra" de IPOs, veremos que 79 empresas abriram seu capital entre 2019 e 2021. Na média, essas empresas perderam para o Ibovespa dos seus respectivos períodos de vida pública por mais de 50%.
Em outras palavras, quem "vendeu" Ibovespa para comprar as ações que vieram a mercado nessa safra perdeu metade do seu capital.
Mas a coisa é pior ainda: das 79 empresas, apenas 9 superaram o Ibovespa. 70 perderam para o índice. Em 22 empresas, as perdas contra o índice foram superiores a 70%.
Trata-se de um desempenho inaceitável. É o caso de se pensar o que levaria um investidor são a considerar comprar ações num IPO brasileiro. A reputação do nosso mercado primário é muito ruim. Não surpreende, portanto, que fiquemos tantos anos sem ofertas iniciais. A surpresa, na verdade, é a "janela", que acaba só se justificando por conta de euforias momentâneas.
E que não se diga que essa performance foi por questões setoriais: a 'safra' 19/21 trouxe ao mercado empresas de 34 setores diferentes, segundo informações da B3.
A razão é outra. Ela está na falta de preparo das empresas para se tornarem entidades de capital aberto. A urgência transacional faz com que, um belo dia, o empresário receba uma ligação dizendo "chegou a hora".
Liga-se a máquina. Prepara-se o business plan, que embute um crescimento exponencial sobre o histórico da empresa. Contratam-se advogados, monta-se um site de RI, e pega-se na prateleira o famoso "kit-IPO": estatuto, umas 15 políticas copy/paste, escreve-se um formulário de referência que ninguém vai ler, e se monta um conselho de administração com velhos amigos e dois ou três "independentes", preferencialmente medalhões com passagens por altos cargos e… vamos para o roadshow!
Em 2021, um dos autores deste artigo recebeu convite para fazer parte do conselho de uma empresa que ia abrir seu capital. Ao perguntar quando seria o registro do IPO, a resposta foi: "nesta segunda-feira". O convite foi declinado. O papel perdeu grande parte de seu valor nos anos seguintes.
A transição de uma companhia para ter o capital aberto é muito complexa. Não se resolve com um banho de loja ou soluções de prateleira. Requer reflexões, preparo e construção de um novo modelo societário, diferente do que a trouxe até este ponto.
O primeiro passo é se perguntar o que se deseja a partir de um IPO. As respostas são mais variadas do que se pensa no início, e as escolhas feitas aqui serão determinantes para o sucesso de eventual operação e para o legado dos fundadores.
Pode-se estar buscando uma fonte de capital, para necessidade imediata ou para ter um acesso perene a capital de longo prazo. Pode-se estar buscando diversificação dos controladores, mitigação de riscos ou mesmo realização de lucros e liquidez.
Pode-se querer um respaldo institucional, com consequências nas operações e nas relações com diversos stakeholders, incluindo credores, governo, clientes, competidores, fornecedores e sociedade impactada. Pode-se ainda estar buscando construir ferramentas de retenção e incentivo de talentos.
Por fim, pode não ser nada disso, concluindo-se mesmo que não vale a pena abrir o capital. O importante é que a reflexão aconteça, que ela seja sincera e tempestiva, sem a pressão de ter que ir a mercado no dia seguinte.
Do exercício sobre motivação se segue a definição do roadmap da governança corporativa. Inclua ou não o IPO, esse roadmap inclui não as regrinhas dos livros-texto, mas sim aqueles atributos que a companhia escolheu para si, sob a luz do seu momento estratégico e das reflexões que citamos acima. Estamos falando das estruturas de governança, sua composição, desenhos e mandatos. Dos processos implícitos nas políticas corporativas. Nos controles internos e na transparência de seus atos.
Isso não é um projeto para uma semana, um mês ou mesmo um ano. É um projeto de médio a longo prazo. Mas essa verdade colide com a percepção de que a governança de uma empresa aberta é um custo desnecessário, que só se justifica na iminência do IPO. Entra-se facilmente no dilema do ovo e da galinha – mas aqui sabemos claramente quem tem que vir primeiro: a governança.
Governança bem feita não é custo. É investimento que se traduz em produtividade, resiliência e crescimento. É verdade que as evidências são esparsas, dado que boa parte dos conselhos de administração brasileiros não agrega valor. Mas as empresas que mergulharam nessa jornada e construíram sua governança por seus próprios méritos, sem a pressão do banqueiro para ir a mercado no dia seguinte, colheram os frutos de solidez e credibilidade por muito tempo. Vide a Natura (pré-Avon).
Construir uma governança prêt à porter na última hora é a receita do fracasso.
Se a janela vai abrir de novo, é mais do que hora de refletir sobre governança. É hora de investir de verdade – não para fazer um deal amanhã, mas para estar pronto na hora certa, passar incólume pela rebentação do IPO, e rumar para a geração de valor em parceria com os investidores de longo prazo.
Caveat emptor: que os investidores tenham a maturidade de entender a importância da governança levada a sério, construída a longo prazo, e distingui-la de arremedos de última hora.
Mauro Rodrigues da Cunha é conselheiro independente e sócio da Engage. José Guimarães Monforte é conselheiro independente e sócio da EMAX Consultoria.
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Source Quality
Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
Summary
Relies on author expertise and aggregated data without direct primary sources.
Specific Findings from the Article (4)
"Mauro Rodrigues da Cunha é conselheiro independente e sócio da Engage."
Author identified as independent board member.
Expert source"José Guimarães Monforte é conselheiro independente e sócio da EMAX Consultoria."
Author identified as independent board member.
Expert source"79 empresas abriram seu capital entre 2019 e 2021."
Data point without specific attribution.
Statistic"apenas 9 superaram o Ibovespa. 70 perderam para o índice."
Performance data without source citation.
StatisticPerspective Balance
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
Summary
Presents a single viewpoint with minimal acknowledgment of counterarguments.
Specific Findings from the Article (3)
"Trata-se de uma explicação simples, elegante e errada."
Dismisses alternative explanations without substantive engagement.
One sided"A reputação do nosso mercado primário é muito ruim."
Unqualified negative assessment without contrasting views.
One sided"Não faltam atores prontos a explicar o funcionamento das "janelas"."
Briefly acknowledges other perspectives exist.
Balance indicatorContextual Depth
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
Summary
Provides substantial background, data, and detailed analysis of IPO governance.
Specific Findings from the Article (4)
"perderam para o Ibovespa dos seus respectivos períodos de vida pública por mais de 50%."
Specific performance metric.
Statistic"a 'safra' 19/21 trouxe ao mercado empresas de 34 setores diferentes, segundo informações da B3."
Context about industry diversity.
Background"A transição de uma companhia para ter o capital aberto é muito complexa."
Explains process challenges.
Context indicator"O primeiro passo é se perguntar o que se deseja a partir de um IPO."
Provides framework for decision-making.
Context indicatorLanguage Neutrality
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
Summary
Mostly analytical but includes some persuasive/loaded language.
Specific Findings from the Article (4)
"perdas milionárias"
Emotional descriptor.
Sensationalist"desempenho inaceitável"
Judgmental language.
Sensationalist"Governança bem feita não é custo. É investimento"
Analytical statement.
Neutral language"as taxas de juros escorchantes"
Descriptive but somewhat loaded.
Neutral languageTransparency
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
Summary
Clear author attribution, date, and some personal disclosure.
Specific Findings from the Article (2)
"segundo informações da B3"
Source attribution for data.
Quote attribution"Em 2021, um dos autores deste artigo recebeu convite"
Personal experience disclosure.
MethodologyLogical Coherence
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
No logical inconsistencies detected; argument flows coherently.
Specific Findings from the Article (1)
"A razão é outra. Ela está na falta de preparo das empresas"
Clear causal claim supported by subsequent explanation.
Unsupported causeCore Claims & Their Sources
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"Poor IPO performance results from companies' lack of preparation for public governance rather than market volatility."
Source: Authors' analysis based on IPO data and professional experience Named secondary
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"Building proper corporate governance requires long-term investment, not last-minute preparation."
Source: Authors' professional opinion as governance consultants Named secondary
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (5)
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P1
"79 companies went public in Brazil between 2019-2021"
Factual -
P2
"70 of those 79 companies underperformed the Ibovespa index"
Factual -
P3
"The 2019-2021 IPO cohort represented 34 different sectors"
Factual -
P4
"Lack of governance preparation causes Poor IPO performance"
Causal -
P5
"Long-term governance investment causes Company resilience and credibility"
Causal
Claim Relationships Graph
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: 79 companies went public in Brazil between 2019-2021 P2 [factual]: 70 of those 79 companies underperformed the Ibovespa index P3 [factual]: The 2019-2021 IPO cohort represented 34 different sectors P4 [causal]: Lack of governance preparation causes Poor IPO performance P5 [causal]: Long-term governance investment causes Company resilience and credibility === Causal Graph === lack of governance preparation -> poor ipo performance longterm governance investment -> company resilience and credibility
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.