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A bomba-relógio fiscal de Haddad

revistaoeste.com By Carlo Cauti 2026-02-06 1983 words
Se existisse uma Olimpíada da incoerência fiscal, o Brasil teria ganhado todas as medalhas nos últimos três anos de governo Lula. Arrecadação recorde? Ouro. Dívida pública fora de controle? Prata. Rombo de mais de R$ 1 trilhão por ano? Bronze.

A piada, infelizmente, mora nas cifras frias: em 2025, o rombo fiscal nominal acumulado do setor público foi de R$ 1,06 trilhão, equivalente a cerca de 8,34% do Produto Interno Bruto (PIB). Resultado de país em guerra. Em 2023 e 2024, não foi diferente. A Rússia, enroscada em quatro anos de conflito na Ucrânia, tem um vermelho menor.

A condição das contas públicas do Brasil é absurda: o governo federal arrecada cada vez mais tributos, mas nunca consegue fechar as contas no azul. Confirmando que as regras de contabilidade básica são consideradas por amplas franjas do petismo como uma depravação burguesa. Narrativa da Faria Lima.

Em 2027, o Palácio do Planalto vai descobrir que a matemática não é questão de opinião. O Brasil está caminhando para uma profunda crise fiscal. Que pode chegar a paralisar o funcionamento da máquina pública por falta de dinheiro.

O shutdown ("paralisação") que acontece nos Estados Unidos quando democratas e republicanos não encontram um acordo sobre o orçamento poderá ocorrer nessas latitudes. Não por discordância política, mas por excesso de gastança.

Não por acaso, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já decidiu deixar a pasta em fevereiro. Provavelmente por ter perfeita noção do tamanho da encrenca que está se materializando no horizonte. À qual não quer ser associado de forma nenhuma.

Gastança sem fim

Desde 2023, o país vive uma espécie de teatro fiscal. No palco, discursos otimistas sobre "arcabouço sustentável", "justiça tributária" e "crescimento com inclusão". Nos bastidores, planilhas que não fecham, despesas obrigatórias aumentando em dois dígitos e receitas extraordinárias tratadas como se fossem permanentes. Uma alquimia contábil que faria corar até mágicos de circo.

A arrecadação federal subiu desenfreadamente desde o primeiro ano do governo Lula. Se em 2023 a Receita Federal tungou R$ 2,3 trilhões dos bolsos dos brasileiros, em 2025 esse total beirou os R$ 2,9 trilhões. Um aumento em média de quase 10% ao ano. O maior nível de arrecadação da história. Nunca antes o governo federal absorveu tantos recursos.

E tudo isso sem contar os impostos, taxas e contribuições estaduais e municipais, que elevam ainda mais a montanha de dinheiro depositada na conta do governo pelos pagadores de impostos brasileiros.

Em 2025, foram quase R$ 4 trilhões em tributos, de acordo com o Impostômetro, painel instalado na sede da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), no centro histórico da capital paulista. Uma marca inédita na história do país. No primeiro ano de governo Lula, os brasileiros tinham pago "apenas" R$ 3,3 trilhões em impostos. O aumento foi vertiginoso. E o governo chegou a celebrar os recordes sucessivos de arrecadação como se isso fosse prova de virtude fiscal. Lógica curiosa: quando o cidadão paga mais imposto, o Estado se declara eficiente.

O problema é que Brasília conseguiu gastar ainda mais. Não houve um ano de mandato em que as contas não fecharam no vermelho. Um rombo ao qual tem que se adicionar o custo dos juros sobre a dívida pública, que aumenta o déficit nominal.

"Estamos vendo um aumento constante de despesas e a busca constante de novas receitas via aumento de impostos, criação ou elevação de alíquotas", explica Ecio Costa, professor de Economia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). "Mas essa voracidade do governo é sempre insuficiente. As contas continuam no vermelho."

Desastre anunciado

O resultado desse experimento não é mistério. Está escrito nos relatórios da Instituição Fiscal Independente (IFI), nas projeções do Tesouro Nacional, nos alertas da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e nas análises de casas de investimento: em 2027, o dinheiro vai acabar. Simples assim. Não no sentido metafórico. Literalmente.

Para Marcus Pestana, diretor-executivo da IFI, entidade ligada ao Senado Federal, em 2027 o governo enfrentará um "estrangulamento radical". Ou seja, todas as receitas estarão comprometidas com despesas obrigatórias que possuem mecanismos de crescimento automático, deixando zero espaço para investimentos em áreas cruciais como saúde, educação, policiamento, infraestrutura, moradia ou saneamento. Tudo passará a competir por migalhas. O Estado continuará elefântico e inoperante.

O diagnóstico é compartilhado pelo próprio Tesouro Nacional — órgão sob a direta dependência do ministro Haddad — que há meses vem alertando sobre os riscos de uma paralisia da máquina pública. Dos atuais R$ 122 bilhões por ano destinados às despesas discricionárias (não obrigatórias), no ano que vem não sobrará absolutamente nada. Por isso, o Tesouro recorreu à proeza de apresentar um orçamento negativo. Ou seja, começar 2027 já no vermelho. Algo, na prática, impossível de ser realizado. Inédito no mundo.

Isso porque os gastos obrigatórios com saúde e educação crescem muito mais rápido que o limite permitido pelo arcabouço fiscal. A arrecadação sobe, mas o teto de gastos trava o investimento operacional. A conta não fecha e o estrangulamento financeiro se aproxima.

Já hoje o governo tem uma margem de manobra ridícula. Como resultado, não tem fôlego para investir em infraestrutura. Em termos de comparação, o mercado de apostas online movimenta cinco vezes mais dinheiro (algo entre R$ 20 e R$ 30 bilhões) do que o governo federal aplica em obras por mês.

Se nada for feito, a paralisia da máquina pública afetará diretamente o dia a dia da população. Delegacias de polícia federal sem recursos, agências do INSS fechando as portas por falta de pagamento de luz, universidades federais obrigadas a suspender contratos de limpeza e manutenção, e até mesmo o sistema prisional sem verba para fornecer alimentação básica.

Parte desse cenário já está aparecendo. O governo cortou o orçamento das universidades federais em R$ 500 milhões. A fila no INSS superou três milhões de pessoas e os hospitais federais estão às moscas. Prelúdio do que virá.

Negando a realidade

Para Haddad, todas essas previsões são apenas um "delírio" que deveri
a ser estudado "do ponto de vista psicológico, porque, do ponto de vista econômico, eu não consigo entender". O ministro da Fazenda continua insistindo que entregará "o melhor resultado fiscal do país em quatro anos". Quem tem um mínimo de noção de matemática, obviamente, sabe muito bem que Haddad está mentindo.

Em 2022, o governo Bolsonaro deixou as contas públicas no azul, entregando para Lula um superávit primário de R$ 126 bilhões, equivalen
te a 1,28% do PIB, segundo dados do Banco Central (BC). Isso mesmo em ano eleitoral, em que todos os governos abrem as torneiras do dinheiro público.

No primeiro ano do novo governo, começou o vermelho profundo. O rombo primário em 2023 foi de R$ 249,1 bilhões, ou 2,29% do PIB. Em 2024, outro rombo, de R$ 47,6 bilhões. Em 2025, o déficit foi de R$ 55,0 bilhões.

Isso tudo com um aumento cavalar da arrecadação. O governo Lula criou ou aumentou impostos 24 vezes desde janeiro de 2023. Uma média de um novo aumento a cada 37 dias. A carga tributária oficial passou de 30% para 34% do PIB. Um patamar jamais visto na história do país, e muito elevado para um país emergente, que deveria cobrar menos impostos para favorecer o crescimento. Não por acaso, há anos não saímos do lugar. O Brasil arrecada como um país escandinavo, gasta como um país europeu, oferece serviços públicos de padrão africano e cresce como um país cansado.

O efeito do perdularismo do governo aparece dramaticamente na dívida pública, que subiu 7 pontos em três anos, e que está marchando em direção aos 90% do PIB, segundo os cálculos do Fundo Monetário Internacional (FMI). O país é um dos emergentes mais endividados do mundo. E relatórios independentes estimam que, no ritmo atual, a dívida pode alcançar mais de 125% do PIB até 2035. "Essa conta vai chegar em algum momento, e deverá ser paga", explica Ecio Costa.

Além disso, o gasto público desenfreado eleva a inflação, que continua mordendo o bolso do brasileiro. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial do Brasil, superou todos os anos o teto da meta fixado pelo próprio governo. A alta dos alimentos foi ainda superior.

Em um cenário como esse, o Banco Central é obrigado a manter a taxa básica de juros (Selic) em 15% ao ano. O maior nível das últimas duas décadas. Caso contrário, a inflação explodiria. E isso está provocando o pagamento de juros que chegaram a R$ 1 trilhão por ano. O Brasil de Lula se tornou novamente o paraíso dos rentistas. Nunca antes na história do país os detentores da dívida pública receberam tanto dinheiro público.

Haddad poderia ter evitado esse cenário em novembro de 2024. Tinha apenas que enviar um sinal aos mercados cortando meros R$ 50 bilhões em gastos. Uma gota no oceano trilionário do orçamento público. Poderia ter escolhido a responsabilidade, preferiu o populismo, e anunciou mais impostos e a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.

Quando questionado, o ministro se entrincheira, alegando que o governo cumpriu o arcabouço fiscal. Isso também é lorota. O Executivo simplesmente escondeu gastos. Segundo os cálculos do IFI, o governo federal acumulou mais de R$ 170 bilhões em despesas colocadas fora dos limites oficiais do arcabouço fiscal. Ou seja, gastos que não aparecem nos cálculos de metas porque foram classificados como "exceções". Ou que foram autorizados por decisões do Supremo Tribunal Federal (STF).

O espectro dessas despesas "ocultas" inclui programas emergenciais, Fundeb, piso de enfermeiros, ajuda para estatais, renúncias fiscais, apoios setoriais e outras invencionices que foram excluídas das metas oficiais. Resultado? O Brasil aparentemente cumpre metas que, ao serem esticadas e moldadas, perdem o significado. Mas esses bilhões não deixam de existir. Eles continuam corroendo o orçamento e elevando a dívida pública.

O governo Dilma Rousseff também maquiava o orçamento usando as pedaladas fiscais, o que levou ao impeachment. O terceiro mandato de Lula recorre a decisões judiciais, eliminando o risco de crimes de responsabilidade. O PT aprendeu a jogar o jogo.

Herança maldita

A crise fiscal de 2027 deveria ser o grande tema da eleição de 2026. O eleitor talvez não consiga entender arcabouços, superávits ou dívidas, mas entende quando o posto de saúde fecha, a polícia falta e o imposto aumenta.

Independentemente de quem ganhará a eleição, o próximo presidente herdará um Estado sem margem de manobra, uma dívida crescente, juros pressionados e um Congresso acostumado a gastar sem perguntar de onde vem o dinheiro. Herdará também a narrativa pronta: a culpa será sempre de alguém que veio antes.

"Invariavelmente, um ajuste deverá acontecer em 2027. A pergunta é: quem o promoverá?", diz Costa. Sem ajuste estrutural — de verdade, não remendos tributários — nenhum governo durará. Não porque "o mercado não deixa", mas porque a realidade não negocia.

Para o economista-chefe do BTG Pactual, Mansueto Almeida, o
Brasil precisa cortar pelo menos R$ 250 bilhões. E o próximo governo terá de debater formas de reduzir o crescimento das despesas obrigatórias, incluindo a política de valorização do salário mínimo, que influencia diversos benefícios sociais. Caso contrário, o país enfrentará um aumento da inflação, crise da dívida ou desvalorização do câmbio.

Há uma janela estreita para evitar o pior. Ela exige escolhas impopulares: revisão de gastos, reforma administrativa, desvinculação das despesas obrigatórias, racionalização de políticas sociais, fim da ilusão de que aumento de imposto substitui a eficiência do Estado.

Nada disso é tecnicamente impossível. Tudo isso é politicamente custoso. E é exatamente por isso que vem sendo adiado.

O Brasil não está à beira de um abismo invisível. Ele caminha lentamente, olhando para o celular, enquanto placas enormes avisam: "Fim da estrada em 2027". O governo pode até continuar tentando um aumento de arrecadação, mas não existe carga tributária que pague um gasto que não para de crescer. Quando o choque vier, não será surpresa. Será apenas a conta chegando — com juros, correção monetária e uma nota explicativa dizendo: avisamos.

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