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Bad Bunny nos lembra que o Brasil é latino em show histórico em São Paulo

uol.com.br By Ariel Fagundes Para o TOCA 2026-02-20 941 words
Bad Bunny nos lembra que o Brasil é latino em show histórico em São Paulo

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Em 2h30 históricas, Bad Bunny estreou no Brasil hoje (20), n
o primeiro de dois shows marcados no estádio Allianz Parque, em São Paulo (SP). A apresentação integra a turnê mundial de "DeBÍ TiRAR MáS FOToS", álbum que se destacou entre os lançamentos mais celebrados do ano passado, inclusive na lista do TOCA UOL.

Desde as primeiras faixas que lançou no SoundCloud em 2013, o artista porto-riquenho veio dando passos cada vez mais largos. Em 2016, quando "Soy Peor" se tornou seu primeiro grande sucesso, Bad Bunny ainda trabalhava como empacotador de sacolas de supermercado na cidade de Vega Baja. Agora, dez anos depois, Benito está consolidado como um dos nomes mais importantes da música no mundo.

E nesta caminhada, o mês de fevereiro pode ser visto como o ápice de sua carreira até aqui. No intervalo de uma semana, "DTMF" se tornou o primeiro disco em espanhol a ganhar o prêmio de Álbum do Ano no Grammy e Bad Bunny tomou de assalto as manchetes com a repercussão do seu show no intervalo do Super Bowl. Considerando o contexto, o público brasileiro tinha boas razões para criar expectativas sobre o show de hoje, e aqui segue um spoiler quase óbvio: elas foram cumpridas e superadas.

Era pontualmente 19h30 quando Chuwi fez um competente show de abertura, esquentando o clima para o que vinha. Exatamente 1 hora depois, o imenso telão montado no palco principal de Bad Bunny foi ligado, mostrando o vídeo de abertura do show. Nele, dois jovens conversam em português sobre a letra de "La Mudanza", última faixa de "DTMF", e é essa música que abre o show, dando o pontapé inicial da catarse que se seguiria. A canção chega com grande simbolismo, pois de fato houve uma mudança drástica na sonoridade de Bad Bunny.

Seus primeiros discos se situavam no território do trap latino, subgênero do rap que ganhou importância nas últimas décadas. Foi somente em "DTMF" que o artista ocupou as fronteiras da música oriunda de Porto Rico, bebendo nas fontes da plena, da bomba e da salsa para criar um pop contemporâneo que amplia os horizontes do reggaeton e do dembow. Embalados pela voz de Benito, sons do Caribe antigo fecham um tratado com a música caribenha contemporânea, reposicionando a América Latina no centro do mapa-múndi musical de 2026.

Seja pela dimensão continental, pela barreira da língua ou ainda devido à opulência sonora brasileira, que oferece quase uma autossuficiência cultural, o Brasil às vezes esquece de sua relação com o restante da América Latina.

"Esse show se trata da união do Brasil com Porto Rico e a América", chegou a declarar o artista no palco. Em outros pontos do show, ele foi além: "Estou muito feliz, finalmente realizei o sonho de visitar o Brasil". E ainda: "Nesta noite nós somos brasileiros!".

Mas, já no primeiro bloco do show —que contou com hits como "Baile Inolvidable", "Pitorro de Coco" e a apoteótica "Nuevayol"—, não havia mais espaço para estranhamento nenhum. Suados, irmanados pela música, o público brasileiro e o artista porto-riquenho reconheciam-se mutuamente, como duas faces de um mesmo processo histórico.

Após "Nuevayol", vem o aguardado segundo ato da apresentação, quando Bad Bunny se apresenta no palco secundário, montado do lado oposto do campo. Apelidado de "Casita", o ambiente reproduz uma casa de estilo típico de Porto Rico, sendo mais uma demarcação territorial do trabalho de Benito. Além disso, a performance cumpre um papel funcional, deslocando o eixo de atenção do público para o outro lado do estádio, dinamizando o espetáculo e possibilitando que outros setores da plateia tenham melhor visibilidade do artista. É mais uma evidência da compreensão ampla que Bad Bunny e sua equipe possuem do projeto que estão erguendo.

A casa reproduzia a cena de uma festa, repleta de dançarinos. Nesse bloco, o artista apresentou sucessos de discos anteriores, como "Tití Me Preguntó", "Diles" e "Monaco". Logo em seguida, veio outro ponto alto do show, quando Bad Bunny abre um espaço no setlist para um momento exclusivo, que só acontecerá naquela cidade.

Dias atrás, no Chile, ele tocou "Mayores" com Becky G; na Argentina, "Thunder y Lighting" com Eladio Carrión e "Una Vez" com Mora. Em São Paulo, não houve um convidado especial, e a música exclusiva foi "Vete". Depois, o show seguiu com "Café Con Ron", protagonizada pelo grupo Los Pleneros de la Cresta, banda de plena formada em 2013, que vem acompanhando Benito na turnê. Enquanto Bad Bunny voltava ao palco principal, a banda de apoio puxou uma versão de "Mas Que Nada", de Jorge Ben Jor, para delírio da plateia.

De volta ao palco principal, Bad Bunny une, no terceiro e último ato, hits de diferentes momentos de sua discografia. Do disco de 2022, "Un Verano Sin Ti", teve músicas como "Ojitos Lindos". Rolou ainda "La Canción", do disco "OASIS", feito em parceria com J Balvin, cantada a plenos pulmões pelo público, que estava repleto de estrangeiros de diferentes países.

Já do álbum "DTMF", foram incluídas ainda "Kloufrens", "Voy a Llevarte Pa PR", "DTMF" e "EoO", que fechou a noite. Porém, "Lo Que Le Pasó a Hawaii" ficou de fora, sugerindo que até a ousadia anticolonialista de Bad Bunny tem limites. A faixa ganhou muita repercussão por sua letra crítica ao processo de incorporação do território havaiano pelos Estados Unidos, um movimento que dialoga com a história de Porto Rico. A terra natal de Bad Bunny nunca teve independência, passando do controle colonial da Espanha para uma espécie de "tutela" estadunidense, com regras particulares, em um regime que permanece ativo até hoje.

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