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Do altar à terra: a convergência profética entre Camilo Torres e Frei Sérgio Görgen - Brasil de Fato

brasildefato.com.br By Marcos Corbari 2026-02-20 1317 words
Há datas que a história trata de entrelaçar como que para revelar, num só fio, a trama profunda do Espírito do tempo. Em 3 de fevereiro de 1929, nascia, na Colômbia, o sacerdote Camilo Torres Restrepo. Noventa e sete anos depois, exatamente no mesmo dia, 3 de fevereiro de 2026, Frei Sérgio Görgen, no Brasil, cinco dias após celebrar seus 70 anos de vida, fazia de sua Páscoa a passagem definitiva para a vida plena.

Seis décadas antes, quando o menino que se tornaria frei dava seus primeiros passos no mundo, em 15 de fevereiro de 1966, Camilo também fizera a sua Páscoa, tombando na guerrilha colombiana. Um partia para o combate derradeiro enquanto o outro iniciava sua caminhada. Agora, no mesmo dia em que Camilo viera ao mundo, Frei Sérgio concluía a sua. Essas sincronicidades não são mero acaso; são o prenúncio de uma profunda convergência teológica e histórica no interior do cristianismo latino-americano.

Ambos se situam na Teologia da Libertação e na chamada "opção preferencial pelos pobres". Em Camilo
Torres, essa convicção aparece de forma explícita quando afirma que "o amor eficaz" exige transformação concreta da realidade. Para ele, não bastava a caridade individual: era necessário enfrentar as causas estruturais da pobreza na Colômbia dos anos 1960. Sua reflexão unia sociologia, fé e política, compreendendo o cristianismo como força histórica de libertação, capaz de romper com a falsa neutralidade de uma Igreja que, ao silenciar diante da opressão, torna-se cúmplice dos opressores.

Frei Sérg
io Görgen, por sua vez, encarnou essa mesma matriz teológica no contexto brasileiro a partir do final dos anos 1970 e início dos anos 80, especialmente junto aos camponeses organizados. Esteve na fundação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e, posteriormente, no Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), do qual foi dirigente político nos últimos 30 anos. Sua espiritualidade franciscana, herdeira do "Paz e Bem" de São Francisco, mas agora traduzida em luta pela terra, por soberania alimentar, dialogava com a realidade concreta do povo do campo, articulando formação política, organização popular e a construção de um movimento de massas capaz de alterar a correlação de forças no campo e na sociedade.

Para ele, a soberania alimentar, a agroecologia e a defesa da agricultura camponesa não eram apenas pautas econômicas, mas expressões concretas do cuidado com a vida e com os pobres, numa leitura mística que enxergava, no suor do camponês, o próprio rosto de Deus encarnado na história.

A proximidade entre ambos está na compreensão de que a fé cristã deve gerar organização coletiva. Não se trata apenas de assistência, mas de mobilização popular, consciência crítica e transformação estrutural. Camilo, diante da conjuntura colombiana marcada pela violência institucionalizada contra o campesinato, optou por uma via revolucionária armada, entendendo-a como expressão última do amor ao próximo em um contexto de guerra civil e exclusão – um testemunho radical de que, para ele, a caridade sem eficácia histórica era mero escapismo espiritual.

Frei Sérgio, em outro tempo histórico e sob distintas correlações de forças, investiu seu tempo e sua militância na construção de organizações populares de massa, na incidência política e na disputa de projetos. Convencido de que a transformação viria pela força da organização popular, defendia a resistência ativa e a ofensiva de baixa intensidade – não como um fim em si mesmas, mas como preparação paciente e transparente das condições subjetivas e objetivas para que, quando a conjuntura permitisse, o povo organizado estivesse apto a travar lutas ofensivas de alta intensidade. Sua leitura dialética da história ensina que não há salto sem acúmulo, nem vitória sem organização prévia.

Tempos históricos diferentes, métodos distintos, mas a mesma raiz ética: a convicção inabalável de que Deus se revela na história concreta dos oprimidos e de que a salvação, longe de ser um prêmio pós-morte reservado aos conformados, é uma tarefa a ser construída aqui e agora, com os pés descalços no chão da luta, no suor do rosto, na terra conquistada palmo a palmo e na dignidade resgatada dos que jamais se curvaram.

Ambos entendiam que profundas mudanças sociais exigiam sujeitos organizados. A libertação não viria "de cima", como esmola dos poderosos, mas da articulação do povo em movimentos, comunidades eclesiais de base e processos políticos capazes de alterar as bases econômicas e sociais da desigualdade. A fé, nesse sentido, torna-se força histórica quando se traduz em compromisso, organização e luta social – quando deixa de ser apenas consolo para os que sofrem e se converte em instrumento de libertação dos que lutam.

Assim, Camilo Torres Restrepo e Frei Sérgio Görgen podem ser compreendidos como expressões complementares de um cristianismo latino-americano comprometido com a transformação estrutural da sociedade. Em suas vidas, espiritualidade e política não foram esferas separadas, mas dimensões integradas de um mesmo projeto: construir, com os pobres, uma sociedade mais justa, solidária e radicalmente humana – onde o reino de Deus, anunciado por Jesus, seja, afinal, antecipado na partilha do pão, na terra cultivada em comum e na dignidade resgatada dos que foram lançados para as margens da história.

Camilo e Frei Sérgio ensinam que a libertação nacional dos países latino-americanos não se fará sem ruptura com a dependência estrutural que nos condena ao papel de fornecedores de matéria-prima e consumidores de migalhas. Ensinam que a integração continental, sonhada por Bolívar e Martí, só se realizará quando os povos, organizados em suas lutas concretas, forem capazes de constituir um projeto próprio de desenvolvimento baseado na soberania alimentar, na reforma agrária popular, no controle dos recursos naturais, na dignidade do trabalho e na justa distribuição da riqueza – e arrancá-la pela força da fé convertida em organização, da oração convertida em luta, da mística convertida em política.

Eis, pois, o que significa, para nós hoje, discernir a trama profunda do Espírito do tempo. Significa reconhecer que o sopro do Espírito não é ondas contínuas, mas vento que vai e vem e que, em tempos de refluxo das lutas de massas, exige de nós ainda mais fineza para perceber onde a vida insiste em resistir à morte. O Espírito sopra hoje, sim, mas sopra como brisa leve em tempos de seca: nas lutas zapatistas que, há 30 anos, mantêm acesa a chama da dignidade indígena; na resistência bolivariana e cubana, que enfrenta o cerco imperialista com a teimosia dos que não negociam a soberania; nas comunidades camponesas da Colômbia que, fiéis às montanhas e à memória de Camilo, seguem resistindo sem trocar a insurgência por mandatos parlamentares; na ocupação dos povos originários contra a Cargill no Pará, defendendo palmo a palmo o território contra o agronegócio; no grito das mães que buscam seus filhos mortos pela polícia militar – grito que ecoa o das mães da Praça de Maio e não deixa que a dor seja esquecida. O sopro pode parecer fraco, quase inaudível. Mas é nesses sinais discretos e teimosos que o Espírito segue tecendo, em meio às cinzas, a história da libertação.

Que a memória viva desses dois profetas – o sacerdote guerrilheiro que tombou nas montanhas colombianas e o frei camponês que plantou sementes de organização nos quatro cantos do Brasil – continue a incendiar corações e mentes. Pois a trama do Espírito não se encerrou com eles. A cada novo militante que decide dar a vida pela causa dos pobres, a cada nova comunidade que se organiza para plantar e partilhar, a cada novo grito de liberdade que ecoa nas serras e nos vales deste continente crucificado e ressuscitado, Camilo e Frei Sérgio estarão vivos não como fantasmas do passado, mas como comandantes espirituais de um futuro que ainda há de nascer do ventre fecundo da luta popular latino-americana. Porque o Espírito do tempo, o mesmo que os animou, continua tecendo, dia após dia, a libertação dos povos.

* Beto Palmeira é dirigente do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)

** Este é
um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

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