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O conhecimento na era da reprodutibilidade infinita | Outras Palavras

outraspalavras.net By Michel Goulart da Silva 2026-02-20 1383 words
O conhecimento na era da reprodutibilidade infinita

Na era digital, a enorme difusão das publicações acadêmicas, embora democratize o acesso, carrega a pressão por produtividade. Mas, diante deste cenário, qual seria a fronteira entre criação e imitação do saber científico? Reflexões a partir de Walter Benjamin

Publicado 20/02/2026 às 16:32

Nos últimos anos, a divulgação científica ganhou um grande impulso por meio da tecnologia. Contudo, de forma contraditória, parece que esse processo também significou uma espécie de crise nas revistas acadêmicas, afinal não apenas o acesso a essas publicações como a difusão de qualquer texto em qualquer parte do mundo passaram a ser mais fáceis. Observa-se, com isso, um processo semelhante ao analisado por Walter Benjamin em relação à arte, em que esta – ou, agora, a difusão do conhecimento – veem a reprodutibilidade técnica e a massificação enfraquecendo sua autenticidade.

Em outro momento, as publicações acadêmicas estavam limitadas à impressão em papel de um número reduzido de exemplares. Por conta disso, acabavam por ter uma abrangência limitada, circulando apenas nos grandes centros ou chegando a lugares mais remotos apenas no caso de algum pesquisador conseguir carregar exemplares dessa publicação. Contudo, essa dificuldade também perpassava o próprio processo de construção das edições, se for levado em conta, entre outros fatores, um processo de avaliação realizado pela circulação de manuscritos impressos ou mesmo as dificuldades objetivas para a realização de reuniões das respectivas equipes editoriais se não fossem da mesma região.

Cada edição de cada revista passava por um processo cuidadoso e demorado, em que os artigos a serem publicados deveriam ser avaliados com todo o rigor necessário, tendo o cuidado de difundir aqueles materiais que de fato poderiam ter um grande impacto para a sua área de conhecimento. O custo de impressão exigia esse rigor. Diante de todo esse esforço necessário, havia um número reduzido de publicações e, as que existiam, eram aquelas que conseguiam dispor de uma melhor estrutura, garantida por universidades ou por centros de pesquisa. O financiamento dessas publicações poderia ser garantido tanto como parte dos recursos de pesquisas dos laboratórios ou centros aos quais a publicação estava vinculada ou pela assinatura de seus leitores.

Estamos falando de um processo que tinha muitos aspectos artesanais e que davam origem a um número reduzido de exemplares de uma pequena quantidade de publicações. Esse processo fazia com que essas publicações tivessem uma certa aura, na medida em que grandes intelectuais das diversas áreas do conhecimento contribuíam, fosse escrevendo artigos e ensaios, fosse participando do processo de editoração da revista. Com isso se atribuía uma valoração simbólica, em que certas publicações ou mesmo edições de determinadas publicações se mostravam quase como relíquias dignas de estarem expostas publicamente em destaque.

Na realidade atual, o processo ocorre de forma totalmente diferenciada. Existe a possibilidade de maior difusão, por meio de plataformas digitais que permitem a qualquer pessoa do mundo acessar as edições das revistas publicadas. Outro elemento passa pela ampliação na possibilidade de publicação aos pesquisadores, em diversos países. Ou seja, há uma possibilidade de democratização da difusão do conhecimento e no acesso aos leitores, em especial por meio das publicações de acesso livre.

Contudo, esses aspectos, que certamente carregam elementos positivos, guardam também seu contrário. Não importa a relevância do artigo publicado ou de seu autor para a área do conhecimento. Esse grande autor estará entre centenas ou mesmo milhares de outros textos, se perdendo em meio à ampla produção de artigos. Os autores, por sua vez, podem publicar quase que livremente, independente da qualidade de sua pesquisa, alcançando números e não necessariamente relevância científica, sendo impulsionados pela pressão por produtividade que emana da avaliação acadêmica.

Um dos elementos que aproxima essa questão da discussão proposta para a arte por Walter Benjamin passa pelo que o filósofo chama de esfera da autenticidade, que, "como um todo, escapa à reprodutibilidade, e naturalmente não apenas a técnica".1 Benjamin afirma:

"A autenticidade de uma coisa é a quintessência de tudo o que foi transmitido pela tradição, a partir de sua origem, desde sua duração material até o seu testemunho histórico. Como este depende da materialidade da obra, quando ela se esquiva do homem através da reprodução, também o testemunho se perde".2

Essa autenticidade somente poderia ser identificada no modelo antigo de publicações. Os artigos publicados no modelo recente de difusão do conhecimento são uma peça digital, disponibilizada em um espaço aberto e desprovido de raízes. Por mais que possua uma identificação, o Digital Object Identifier (DOI), no final das contas torna-se um arquivo virtual, em PDF ou em ePUB, que circula entre e-mails e sites sem que seja possível apontar uma origem material ou mesmo uma identidade acadêmica própria. Seguindo a analogia a partir de Benjamin, pode-se afirmar

"[…] que a técnica de reprodução retira do domínio da tradição o objeto reproduzido. Na medida em que ela multiplica a reprodução, substituiu a existência única da obra por uma existência massiva. E, na medida em que essa técnica permite à reprodução vir ao encontro do espectador, em todas as situações, ela atualiza o objeto reproduzido".3

Esse processo, associado à reprodutibilidade da arte, leva ao que Benjamin chama de destruição da aura, entendida como "uma teia singular, composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja".4 Esses PDFs circulando livremente não possuem elementos espaciais ou temporais, sendo uma cópia reproduzida indistintamente sempre que se faz um download. Benjamin chama de "declínio da aura" deriva de circunstâncias "estreitamente ligadas à crescente difusão e intensidade dos movimentos de massas".5

O desenvolvimento tecnológico relacionado à difusão científica mostra um grande impacto na vida social. Esse processo torna possível ampliar a circulação da produção do conhecimento, democratizando seu acesso e permitindo uma rápida difusão das pesquisas concluídas ou mesmo em andamento. Essa possibilidade tornou-se vital em situações como a da recente pandemia, em que as pessoas tiveram que se isolar o máximo possível, mas era necessária uma ampla e rápida difusão das pesquisas realizadas de tal forma a desenvolver mecanismos para barrar a proliferação da doença.

Contudo, isso também significa maior facilidade para a criação de periódicos que não necessariamente carregam a preocupação com a seriedade acadêmica. Com a facilidade da informática, não é difícil conseguir o uso de plataformas como o OJS, obter um ISSN e garantir que todos os artigos tenham o DOI. Essa facilidade leva a uma mercantilização da produção acadêmica, em que a necessidade de publicar, principalmente por pressão de programas de pós-graduação, faz com que seja possível a proliferação de periódicos que, mesmo sendo de qualidade duvidosa, conseguem mostrar uma feição atraente para quem deseja publicar.

Estamos, portanto, diante de um processo no qual a reprodutibilidade técnica faz com que a produção acadêmica perca sua aura. Por um lado, permitindo a sua democratização, evitando que sejam criados cânones quase inatingíveis para os pesquisadores, em especial aqueles que atuam em países dominados pelo imperialismo. Por outro lado, contudo, ao se colocar a pressão por publicação e produtividade, permite-se a criação de veículos despreocupados com a difusão do conhecimento e que não visam outra coisa que não seu próprio lucro.

Notas

1 BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 8ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2012, p. 182.

2 BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 8ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2012, p. 182.

3 BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 8ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2012, p. 182-3.

4 BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 8ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2012, p. 184.

5 BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 8ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2012, p. 184.

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