É falsa a carta de governadores contra o STF atribuída a Tarcísio • Lupa
Por meio do projeto de verificação de notícias, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:
Tarcísio junta 12 governadores bolsonaristas, e [eles] assinam carta pedindo intervenção federal no STF. É isso mesmo que você ouviu. Um movimento coordenado, articulado e histórico. Governadores de peso decidiram reagir contra abusos do Supremo. A carta já foi protocolada no Senado Federal. O alvo principal é Alexandre de Moraes"
– Fala em vídeo com 230.508 mil visualizações no YouTube até às 10h do dia 19 de fevereiro de 2026.
Tarcísio junta 12 governadores bolsonaristas, e [eles] assinam carta pedindo intervenção federal no STF. É isso mesmo que você ouviu. Um movimento coordenado, articulado e histórico. Governadores de peso decidiram reagir contra abusos do Supremo. A carta já foi protocolada no Senado Federal. O alvo principal é Alexandre de Moraes"
– Fala em vídeo com 230.508 mil visualizações no YouTube até às 10h do dia 19 de fevereiro de 2026.
A alegação é falsa. Não há qualquer registro desse documento nos sistemas oficiais de consulta do Senado. Em nota publicada pelo serviço Senado Verifica, a Casa informou que "não existe registro de documento sobre esse assunto no Senado Federal".
O órgão também esclareceu que a Constituição não prevê intervenção no Supremo Tribunal Federal. Os Poderes da União — Legislativo, Executivo e Judiciário — são independentes e harmônicos entre si, conforme estabelece o artigo 2º da Constituição Federal.
Segundo o Senado Federal, cabe à instituição apenas processar e julgar ministros do STF em casos de crime de responsabilidade, nos termos da Lei nº 1.079/1950. Não há, portanto, base legal para o tipo de medida citado nos vídeos.
O boato surgiu a partir de um vídeo publicado no YouTube em 4 de fevereiro de 2026 pelo canal "Crônicas do Brasil – Dr. Flávio Nascimento". Na própria descrição, o perfil admite que se trata de conteúdo fictício, classificado como "análise especulativa". O texto afirma que não apresenta como fatos comprovados as cartas, documentos ou pedidos mencionados, que tudo é "especulação para fins de análise e entretenimento político" e que "não é conteúdo jornalístico factual".
Embora a descrição da publicação traga o aviso, o vídeo não apresenta nenhuma sinalização visual informando que se trata de material inventado. O "analista", avatar gerado por inteligência artificial (IA), tampouco esclarece na fala que o conteúdo é fictício.
Pelo contrário, o personagem reforça a narrativa enganosa e incentiva a divulgação do material: "compartilhe este vídeo em todos os grupos agora (…) Só a viralização permite que a verdade prevaleça", disse. Comentários no vídeo indicam que parte do público acreditou na farsa.
Vídeo gerou onda de desinformação nas redes
A Lupa identificou que o factoide foi replicado por pelo menos seis outros canais no YouTube entre os dias 4 e 12 de fevereiro de 2026. Somados, os conteúdos — incluindo a publicação original — acumulavam 525.231 visualizações e 44.585 curtidas na plataforma até esta quinta-feira (19).
Em nenhum dos vídeos fica claro — durante a fala dos apresentadores de IA ou nos textos sobre as imagens — que as alegações eram inventadas. Apenas duas publicações informam, nas descrições dos vídeos, que os materiais são fictícios, e mesmo assim o aviso aparece apenas no fim do texto. Ou seja, o espectador só descobriria que se tratava de conteúdo falso se lesse a descrição completa.
Outros dois vídeos exibiam o selo automático do YouTube indicando uso de inteligência artificial, mas sem alertar que as afirmações feitas na publicação também eram inverídicas. Três não apresentavam qualquer tipo de aviso. O levantamento identificou que cinco publicações — incluindo o vídeo que originou o boato — foram monetizadas pelo YouTube. O que significa que os canais lucraram com a desinformação.
O conteúdo falso também foi republicado em outras redes sem qualquer aviso de que se tratava de ficção. Os comentários indicam que parte dos internautas acreditou no conteúdo. Em uma publicação no Facebook, por exemplo, um usuário classificou o episódio como a "melhor notícia" e defendeu a prisão de Moraes. No Instagram, outro comentário parabenizava os "representantes do povo" pela decisão. Já no Threads, houve quem pedisse intervenção federal e impeachment, enquanto, no TikTok, um usuário comemorou a "ação" do governador paulista e pediu a liberdade do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Canal usa desinformação para engajar e lucrar no YouTube
A ferramenta VidIQ, que analisa o engajamento de canais no YouTube, estima que o canal "Crônicas do Brasil – Dr. Flávio Nascimento" lucre entre 2 e 7 mil dólares por mês a partir das publicidades contidas nos vídeos — com alegações falsas, como informado pelo próprio canal.
Mas essa não é a única estratégia de lucro da conta. O conteúdo sobre a falsa carta dos governadores solicitando intervenção federal no STF também foi usado para atrair assinantes pagos para a conta a partir do programa de apoio da plataforma.
Vira membro do canal agora, porque nos próximos dias vai ter avalanche de informações. Carta tem 12 páginas, mais 300 [páginas] de anexos. Vira membro agora. Membros terão acesso a análises de cada ponto, acesso antecipado a cada revelação. Clica 'seja membro'", promete o falso analista político em vídeo desinformativo.
Vira membro do canal agora, porque nos próximos dias vai ter avalanche de informações. Carta tem 12 páginas, mais 300 [páginas] de anexos. Vira membro agora. Membros terão acesso a análises de cada ponto, acesso antecipado a cada revelação. Clica 'seja membro'", promete o falso analista político em vídeo desinformativo.
Ao fazer a promessa, o canal não informa ao possível assinante que as tais "análises" são completamente fictícias, o que pode induzir o assinante ao erro. Após clicar no botão para se tornar membro, são oferecidos dois planos de assinatura, nos valores de R$ 11,99 e R$ 19,99 por mês.
Lupa já denunciou canais de 'ficção' que lucram com IA
Em maio de 2025, uma reportagem mostrou que diferentes perfis monetizavam vídeos conspiratórios apresentados como "entretenimento", mas sem aviso claro de que se tratavam de histórias inventadas.
Em agosto, um novo levantamento apontou crescimento desse modelo, com canais que acumulando milhões de visualizações em poucas semanas ao explorar fatos do noticiário político e ministros do STF em enredos fictícios.
O que diz o YouTube
Após questionamentos da Lupa, o YouTube informou que o canal "Crônicas do Brasil – Dr. Flávio Nascimento" foi removido da plataforma. "Encerramos o canal por violação das nossas Diretrizes da Comunidade", declarou a empresa em nota.
Este conteúdo também foi verificado pelo Boatos.org, Estadão Verifica, Fato ou Fake, Aos Fatos e UOL Confere.
Leia também:
Editado por Luciana Corrêa e Yara Amorim
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Source Quality
Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
Summary
Good use of official sources and named institutional statements, but lacks direct primary interviews.
Specific Findings from the Article (3)
"Em nota publicada pelo serviço Senado Verifica, a Casa informou que "não existe registro de documento sobre esse assunto no Senado Federal"."
Direct official statement from Senate verification service
Primary source"Após questionamentos da Lupa, o YouTube informou que o canal "Crônicas do Brasil – Dr. Flávio Nascimento" foi removido da plataforma."
Named corporate response from YouTube
Named source"Este conteúdo também foi verificado pelo Boatos.org, Estadão Verifica, Fato ou Fake, Aos Fatos e UOL Confere."
Multiple verification organizations cited
Secondary sourcePerspective Balance
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
Summary
Presents the false claim and debunks it with evidence, but doesn't explore perspectives of those who believed the misinformation.
Specific Findings from the Article (3)
"É falso."
Clear statement of falsity
Balance indicator"O boato surgiu a partir de um vídeo publicado no YouTube"
Identifies origin of misinformation
Balance indicator"Não há qualquer registro desse documento nos sistemas oficiais de consulta do Senado."
Presents only factual refutation without exploring why people believed it
One sidedContextual Depth
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
Summary
Provides comprehensive background, legal context, and quantitative data about the misinformation spread.
Specific Findings from the Article (3)
"Os Poderes da União — Legislativo, Executivo e Judiciário — são independentes e harmônicos entre si, conforme estabelece o artigo 2º da Constituição Federal."
Provides constitutional context
Background"Somados, os conteúdos — incluindo a publicação original — acumulavam 525.231 visualizações e 44.585 curtidas na plataforma"
Quantitative data on misinformation spread
Statistic"Em maio de 2025, uma reportagem mostrou que diferentes perfis monetizavam vídeos conspiratórios"
Historical context about similar misinformation
Context indicatorLanguage Neutrality
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
Summary
Completely neutral, factual language throughout with no sensationalism or loaded terms.
Specific Findings from the Article (3)
"Circula no YouTube, Kwai, TikTok, Facebook, Threads, Instagram e X um vídeo"
Neutral description of content circulation
Neutral language"A alegação é falsa."
Direct factual statement
Neutral language"O conteúdo falso também foi republicado em outras redes"
Neutral description of content sharing
Neutral languageTransparency
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
Summary
Full attribution, clear methodology, author and date present, and editorial transparency.
Specific Findings from the Article (2)
"Por meio do projeto de verificação de notícias, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado."
Explains verification process initiation
Methodology"Editado por Luciana Corrêa e Yara Amorim"
Editorial attribution provided
Quote attributionLogical Coherence
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
No logical issues detected; article presents consistent factual refutation with supporting evidence.
Logic Issues Detected
-
Contradiction (high)
Conflicting values for 'the': 230 vs 525
"Heuristic: Values conflict between P3 and P5"
Core Claims & Their Sources
-
"The viral claim about governors signing a letter for federal intervention in STF is false"
Source: Official Senate verification service statement and constitutional analysis Primary
-
"The misinformation originated from a YouTube channel using AI-generated content labeled as speculative fiction"
Source: Analysis of video content and platform data Named secondary
-
"The channel monetized this misinformation through ads and subscription programs"
Source: VidIQ analysis and examination of channel monetization features Named secondary
Logic Model Inspector
Inconsistencies FoundExtracted Propositions (8)
-
P1
"No record of such document exists in Senate systems"
Factual -
P2
"The Constitution does not provide for intervention in the Supreme Court"
Factual -
P3
"The video had 230,508 views on YouTube as of February 19, 2026"
Factual In contradiction -
P4
"The channel 'Crônicas do Brasil – Dr. Flávio Nascimento' was removed from YouTube"
Factual -
P5
"The false content accumulated 525,231 views across multiple videos"
Factual In contradiction -
P6
"The channel's description admitting fictional content causes Some viewers still believed the misinformation"
Causal -
P7
"Lack of clear visual warnings in videos causes Misinformation spread more effectively"
Causal -
P8
"Monetization of false content causes Financial incentive to create misinformation"
Causal
Claim Relationships Graph
Detected Contradictions (1)
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: No record of such document exists in Senate systems P2 [factual]: The Constitution does not provide for intervention in the Supreme Court P3 [factual]: The video had 230,508 views on YouTube as of February 19, 2026 P4 [factual]: The channel 'Crônicas do Brasil – Dr. Flávio Nascimento' was removed from YouTube P5 [factual]: The false content accumulated 525,231 views across multiple videos P6 [causal]: The channel's description admitting fictional content causes Some viewers still believed the misinformation P7 [causal]: Lack of clear visual warnings in videos causes Misinformation spread more effectively P8 [causal]: Monetization of false content causes Financial incentive to create misinformation === Constraints === P3 contradicts P5 Note: Conflicting values for 'the': 230 vs 525 === Causal Graph === the channels description admitting fictional content -> some viewers still believed the misinformation lack of clear visual warnings in videos -> misinformation spread more effectively monetization of false content -> financial incentive to create misinformation === Detected Contradictions === UNSAT: P3 AND P5 Proof: Heuristic: Values conflict between P3 and P5