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É falsa a carta de governadores contra o STF atribuída a Tarcísio • Lupa

agencialupa.org By Gabriela Soares 2026-02-20 1160 words
Circula no YouTube, Kwai, TikTok, Facebook, Threads, Instagram e X um vídeo em que um suposto analista político afirma que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), teria protocolado uma carta no Senado Federal pedindo "intervenção federal" no Supremo Tribunal Federal (STF). O suposto documento teria a assinatura de outros 12 governadores aliados ao ex-presidente Jair Messias Bolsonaro (PL). É falso.

Por meio do projeto de verificação de notícias, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

Tarcísio junta 12 governadores bolsonaristas, e [eles] assinam carta pedindo intervenção federal no STF. É isso mesmo que você ouviu. Um movimento coordenado, articulado e histórico. Governadores de peso decidiram reagir contra abusos do Supremo. A carta já foi protocolada no Senado Federal. O alvo principal é Alexandre de Moraes"
– Fala em vídeo com 230.508 mil visualizações no YouTube até às 10h do dia 19 de fevereiro de 2026.

Tarcísio junta 12 governadores bolsonaristas, e [eles] assinam carta pedindo intervenção federal no STF. É isso mesmo que você ouviu. Um movimento coordenado, articulado e histórico. Governadores de peso decidiram reagir contra abusos do Supremo. A carta já foi protocolada no Senado Federal. O alvo principal é Alexandre de Moraes"

– Fala em vídeo com 230.508 mil visualizações no YouTube até às 10h do dia 19 de fevereiro de 2026.

A alegação é falsa. Não há qualquer registro desse documento nos sistemas oficiais de consulta do Senado. Em nota publicada pelo serviço Senado Verifica, a Casa informou que "não existe registro de documento sobre esse assunto no Senado Federal".

O órgão também esclareceu que a Constituição não prevê intervenção no Supremo Tribunal Federal. Os Poderes da União — Legislativo, Executivo e Judiciário — são independentes e harmônicos entre si, conforme estabelece o artigo 2º da Constituição Federal.

Segundo o Senado Federal, cabe à instituição apenas processar e julgar ministros do STF em casos de crime de responsabilidade, nos termos da Lei nº 1.079/1950. Não há, portanto, base legal para o tipo de medida citado nos vídeos.

O boato surgiu a partir de um vídeo publicado no YouTube em 4 de fevereiro de 2026 pelo canal "Crônicas do Brasil – Dr. Flávio Nascimento". Na própria descrição, o perfil admite que se trata de conteúdo fictício, classificado como "análise especulativa". O texto afirma que não apresenta como fatos comprovados as cartas, documentos ou pedidos mencionados, que tudo é "especulação para fins de análise e entretenimento político" e que "não é conteúdo jornalístico factual".

Embora a descrição da publicação traga o aviso, o vídeo não apresenta nenhuma sinalização visual informando que se trata de material inventado. O "analista", avatar gerado por inteligência artificial (IA), tampouco esclarece na fala que o conteúdo é fictício.

Pelo contrário, o personagem reforça a narrativa enganosa e incentiva a divulgação do material: "compartilhe este vídeo em todos os grupos agora (…) Só a viralização permite que a verdade prevaleça", disse. Comentários no vídeo indicam que parte do público acreditou na farsa.

Vídeo gerou onda de desinformação nas redes

A Lupa identificou que o factoide foi replicado por pelo menos seis outros canais no YouTube entre os dias 4 e 12 de fevereiro de 2026. Somados, os conteúdos — incluindo a publicação original — acumulavam 525.231 visualizações e 44.585 curtidas na plataforma até esta quinta-feira (19).

Em nenhum dos vídeos fica claro — durante a fala dos apresentadores de IA ou nos textos sobre as imagens — que as alegações eram inventadas. Apenas duas publicações informam, nas descrições dos vídeos, que os materiais são fictícios, e mesmo assim o aviso aparece apenas no fim do texto. Ou seja, o espectador só descobriria que se tratava de conteúdo falso se lesse a descrição completa.

Outros dois vídeos exibiam o selo automático do YouTube indicando uso de inteligência artificial, mas sem alertar que as afirmações feitas na publicação também eram inverídicas. Três não apresentavam qualquer tipo de aviso. O levantamento identificou que cinco publicações — incluindo o vídeo que originou o boato — foram monetizadas pelo YouTube. O que significa que os canais lucraram com a desinformação.

O conteúdo falso também foi republicado em outras redes sem qualquer aviso de que se tratava de ficção. Os comentários indicam que parte dos internautas acreditou no conteúdo. Em uma publicação no Facebook, por exemplo, um usuário classificou o episódio como a "melhor notícia" e defendeu a prisão de Moraes. No Instagram, outro comentário parabenizava os "representantes do povo" pela decisão. Já no Threads, houve quem pedisse intervenção federal e impeachment, enquanto, no TikTok, um usuário comemorou a "ação" do governador paulista e pediu a liberdade do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Canal usa desinformação para engajar e lucrar no YouTube

A ferramenta VidIQ, que analisa o engajamento de canais no YouTube, estima que o canal "Crônicas do Brasil – Dr. Flávio Nascimento" lucre entre 2 e 7 mil dólares por mês a partir das publicidades contidas nos vídeos — com alegações falsas, como informado pelo próprio canal.

Mas essa não é a única estratégia de lucro da conta. O conteúdo sobre a falsa carta dos governadores solicitando intervenção federal no STF também foi usado para atrair assinantes pagos para a conta a partir do programa de apoio da plataforma.

Vira membro do canal agora, porque nos próximos dias vai ter avalanche de informações. Carta tem 12 páginas, mais 300 [páginas] de anexos. Vira membro agora. Membros terão acesso a análises de cada ponto, acesso antecipado a cada revelação. Clica 'seja membro'", promete o falso analista político em vídeo desinformativo.

Vira membro do canal agora, porque nos próximos dias vai ter avalanche de informações. Carta tem 12 páginas, mais 300 [páginas] de anexos. Vira membro agora. Membros terão acesso a análises de cada ponto, acesso antecipado a cada revelação. Clica 'seja membro'", promete o falso analista político em vídeo desinformativo.

Ao fazer a promessa, o canal não informa ao possível assinante que as tais "análises" são completamente fictícias, o que pode induzir o assinante ao erro. Após clicar no botão para se tornar membro, são oferecidos dois planos de assinatura, nos valores de R$ 11,99 e R$ 19,99 por mês.

Lupa já denunciou canais de 'ficção' que lucram com IA

Em maio de 2025, uma reportagem mostrou que diferentes perfis monetizavam vídeos conspiratórios apresentados como "entretenimento", mas sem aviso claro de que se tratavam de histórias inventadas.

Em agosto, um novo levantamento apontou crescimento desse modelo, com canais que acumulando milhões de visualizações em poucas semanas ao explorar fatos do noticiário político e ministros do STF em enredos fictícios.

O que diz o YouTube

Após questionamentos da Lupa, o YouTube informou que o canal "Crônicas do Brasil – Dr. Flávio Nascimento" foi removido da plataforma. "Encerramos o canal por violação das nossas Diretrizes da Comunidade", declarou a empresa em nota.

Este conteúdo também foi verificado pelo Boatos.org, Estadão Verifica, Fato ou Fake, Aos Fatos e UOL Confere.

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Editado por Luciana Corrêa e Yara Amorim

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