O que queremos com nossos concursos públicos?
Atrativos da carreira pública, como estabilidade, autoridade e boa remuneração, aliam-se aos desafios típicos da iniciativa privada (oscilações remuneratórias, imprevisibilidade do mercado e concorrência desleal) para motivar uma vida de estudo que envolve anos de abdicação e sacrifício pessoal.
Saber que a concorrência é muito acirrada e que os concurseiros estão cada vez mais preparados deveria ser um alento, certo? Afinal, pela lógica, nesse ritmo os cargos públicos tenderão a ser ocupados pela verdadeira "nata" dos competidores.
Não é bem assim. Se os órgãos públicos não delimitarem adequadamente os tipos de conhecimento e as habilidades que esperam que os novos servidores públicos tenham, e se as bancas examinadoras não formularem questões que sejam inteligentes e adequadas a esses parâmetros, só o que se terá é injustiça.
Questões mal formuladas ou verdadeiramente defeituosas, ou que cobrem conhecimentos absolutamente inúteis para determinada função pública, serão duplamente prejudiciais. Permitem, a um só tempo, a eliminação dos candidatos mais bem preparados, injustiçando quem tanto se dedicou, e o provimento dos cargos públicos por pessoas às quais podem faltar conhecimentos e habilidades básicas para o desempenho das atribuições mais elementares.
Impossível deixar de censurar, nessa linha, o último concurso para provimento de cargos de oficial investigador da Polícia Civil do Estado do Espírito Santo. Um exemplo do que um concurso público não deve ser.
Durante muitos anos fui professor de cursinhos preparatórios para carreiras públicas. Já vi muitas provas e redigi muitos recursos. Deparei-me com questões tecnicamente defeituosas e com gabaritos absurdos, mas o que se passou com a prova da PCES, no último dia 1º de fevereiro, é sem precedentes. Fui procurado por alunos incrédulos em busca de validação para a justificável revolta que sentiam diante da sensação de total perda de tempo com centenas ou milhares de horas de estudo. Pediram-me ajuda com recursos. Ao ler a prova para ajudar na confecção, não restou alternativa senão escrever esse artigo.
Não ser aprovado faz parte. Quem não souber conviver com isso, não jogue esse jogo. O que entristece e desanima, no entanto, é a sensação de desperdício que se torna inevitável quando fica claro que o aluno está tão bem preparado que erra por ser criterioso demais na análise das questões, que contêm defeitos, simplificações, imprecisões teóricas ou atecnias gritantes apenas para quem realmente estudou. Nivela-se muito por baixo.
O recente processo seletivo da PCES peca em todos os sentidos. Nessas provas, sempre há algumas questões lacunosas, mal redigidas ou com alternativas bastante polêmicas. Mas os erros, nesse caso, são verdadeiramente conceituais, em um nível mais profundo. A começar pelo tipo de conhecimento que se está exigindo dos candidatos.
É uma ofensa à inteligência que a prova para provimento de cargos de investigadores de polícia praticamente despreze conhecimentos de Direito Penal, de Direito Processual Penal, de Direito Administrativo e de Direito Constitucional. Essas disciplinas são, simplesmente, o coração e a alma da função pública que se pretende prover. Bom nível de conhecimento em português e raciocínio lógico? Válido. Algum nível de conhecimento em informática? Importante. Mas verdadeira ênfase em contabilidade e matemática em claro e notório detrimento de disciplinas básicas usadas na função pública é contrassenso.
Como é possível que um investigador de polícia não tenha um conhecimento sólido sobre o inquérito policial, fases e ritos do processo criminal, direitos e garantias fundamentais dos investigados, principais crimes e suas circunstâncias de exclusão, agravamento e atenuação?
Esse é o "feijão com arroz" do policial civil. Certo: se o Estado sente falta de policiais com perícia em contabilidade em matemática para atuar em casos de crimes tributários ou financeiros, nada mais justo que destinar parte das vagas para pessoas com formação superior específica em matemática, contabilidade e economia.
Mas dar verdadeira ênfase a essas matérias, tanto quantitativamente (número elevado de questões) quanto qualitativamente (elevado nível de complexidade) é um tiro no pé. Especialmente quando se percebe que, para os conteúdos mais importantes para o bom desempenho da função pública em questão, o conhecimento exigido é exageradamente simples, superficialíssimo e até mesmo defeituoso. Quem estudou muito se prejudica.
Já me estendi demais e, para concluir, um exemplo que elucida a incoerência que estamos denunciando. Segundo a PCES, é mais importante que seja aprovado um futuro policial que saiba as diferenças entre "VLAN" e "VPN" ou que conheça detalhes sobre RGF (Relatório de Gestão Fiscal) e RREO (Relatório Resumido de Execução Orçamentária) do que um que conheça as regras sobre prisão preventiva ou flagrante delito.
Em suma, pouco se coloca na prova sobre o conhecimento técnico mais útil, como regularidade procedimental do inquérito, ilicitude de provas, tipicidade penal e outros saberes que, no fim do dia, permitem que o culpado seja indiciado e que o inocente seja devidamente liberado. E as migalhas que se cobram vêm com defeitos grotescos. Chegará o momento em que, para ser aprovado, o bom candidato terá que desaprender.
Segundo o gabarito oficial, um juiz de Direito pode decretar prisão preventiva de ofício. Quem não sabe o tamanho do absurdo que essa afirmação representa, não sabe o básico sobre Direito Processual Penal. Pela lógica da comissão organizadora e da banca examinadora, isso não importa, desde que saiba tudo sobre "teclas de atalho do LINUX" e consiga calcular a área de um trapézio escaleno. Termino como comecei. Com uma dúvida que já não é mais retórica. O que queremos com nossos concursos públicos?
Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.
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Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
Summary
Relies heavily on author's personal experience and anecdotal evidence from students, with no named external sources or experts.
Specific Findings from the Article (3)
"Durante muitos anos fui professor de cursinhos preparatórios para carreiras públicas."
Author identifies himself as a former professor, providing personal expertise.
Named source"Fui procurado por alunos incrédulos em busca de validação"
References anonymous students as sources of complaint.
Anonymous source"Impossível deixar de censurar, nessa linha, o último concurso para provimento de cargos de oficial investigador da Polícia Civil do Estado do Espírito Santo."
References a specific exam but provides no official documents or named officials.
Tertiary sourcePerspective Balance
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
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Presents a single, critical perspective without acknowledging alternative viewpoints or official justifications.
Specific Findings from the Article (2)
"é um tiro no pé."
Uses dismissive language without presenting opposing rationale.
One sided"Termino como comecei. Com uma dúvida que já não é mais retórica."
Ends with rhetorical question reinforcing single perspective.
One sidedContextual Depth
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
Summary
Provides substantial background on public service exams, specific examples from a police exam, and detailed criticism of content.
Specific Findings from the Article (3)
"A procura por cargos públicos, em nosso país, é intensa já há algumas décadas."
Provides historical context about public service demand.
Background"Cargos em que se exige como formação o ensino médio passam a ser predominantemente ocupados por detentores de cursos superiores"
Offers contextual detail about candidate qualifications.
Context indicator"Segundo o gabarito oficial, um juiz de Direito pode decretar prisão preventiva de ofício."
Provides specific example from exam with technical detail.
Context indicatorLanguage Neutrality
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
Summary
Contains several emotionally charged and judgmental phrases, though maintains technical discussion in parts.
Specific Findings from the Article (4)
"é um tiro no pé."
Uses metaphorical language implying failure.
Sensationalist"É uma ofensa à inteligência"
Emotionally charged accusation.
Sensationalist"defeitos grotescos"
Exaggerated negative description.
Sensationalist"Essas disciplinas são, simplesmente, o coração e a alma da função pública"
Metaphorical but focused on substantive critique.
Neutral languageTransparency
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
Summary
Clear author attribution, date, and disclaimer, with specific quote attribution to official materials.
Specific Findings from the Article (2)
"Segundo o gabarito oficial, um juiz de Direito pode decretar prisão preventiva de ofício."
Attributes claim to official answer key.
Quote attribution"Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta."
Includes disclaimer about institutional opinion.
Quote attributionLogical Coherence
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
Generally coherent argument with one minor inconsistency in severity claims.
Specific Findings from the Article (4)
"só o que se terá é injustiça."
Presents definitive negative outcome without supporting evidence for causality.
Unsupported cause"s, mas o que se passou com a prova da PCES, no último dia 1º de fevereiro, é sem precedentes. "
Claims unprecedented while acknowledging seeing many flawed exams.
Contradiction" Já vi muitas provas e redigi muitos recursos. Deparei-me com questões tecnicamente defeituosas e com gabarito"
Author claims the PCES exam is 'unprecedented' while also stating he has seen many exams with technical defects and absurd answer keys.
Logic contradiction"ública, serão duplamente prejudiciais. Permitem, a um só tempo, a eliminação dos candidatos mais bem preparado"
Claims poorly formulated questions will 'inevitably' lead to injustice and hiring unqualified people without empirical evidence.
Logic unsupported causeLogic Issues Detected
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Contradiction (low)
Author claims the PCES exam is 'unprecedented' while also stating he has seen many exams with technical defects and absurd answer keys.
""Já vi muitas provas e redigi muitos recursos. Deparei-me com questões tecnicamente defeituosas e com gabaritos absurdos, mas o que se passou com a prova da PCES... é sem precedentes.""
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Unsupported cause (medium)
Claims poorly formulated questions will 'inevitably' lead to injustice and hiring unqualified people without empirical evidence.
""Questões mal formuladas... serão duplamente prejudiciais. Permitem, a um só tempo, a eliminação dos candidatos mais bem preparados... e o provimento dos cargos públicos por pessoas às quais podem faltar conhecimentos e habilidades básicas""
Core Claims & Their Sources
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"Public service exams are flawed because they test irrelevant knowledge and contain technical errors."
Source: Author's personal experience as a professor and analysis of specific PCES exam Named secondary
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"The PCES police investigator exam disproportionately emphasizes accounting and mathematics over essential legal knowledge."
Source: Author's analysis of exam content and comparison to job requirements Named secondary
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (4)
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P1
"Cargos em que se exige como formação o ensino médio passam a ser predominantemente ocupados por detentores de cursos superiores"
Factual -
P2
"Segundo o gabarito oficial, um juiz de Direito pode decretar prisão preventiva de ofício"
Factual -
P3
"Poorly formulated exam questions causes elimination of well-prepared candidates and hiring of unqualified people"
Causal -
P4
"Emphasis on accounting/mathematics over legal knowledge causes poorly prepared police investigators"
Causal
Claim Relationships Graph
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: Cargos em que se exige como formação o ensino médio passam a ser predominantemente ocupados por detentores de cursos superiores P2 [factual]: Segundo o gabarito oficial, um juiz de Direito pode decretar prisão preventiva de ofício P3 [causal]: Poorly formulated exam questions causes elimination of well-prepared candidates and hiring of unqualified people P4 [causal]: Emphasis on accounting/mathematics over legal knowledge causes poorly prepared police investigators === Causal Graph === poorly formulated exam questions -> elimination of wellprepared candidates and hiring of unqualified people emphasis on accountingmathematics over legal knowledge -> poorly prepared police investigators
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.