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Feminicídio cresce no AM e revela tolerância social à violência contra mulheres, alerta pesquisador

acritica.com By Thiago Monteiro 2026-02-07 1500 words
ENTRE LEIS E MORTES

Em passagem pelo Amazonas, escritor e professor Daniel Guimarães critica a falsa percepção de redução da violência contra mulheres e aponta prevenção e diálogo como caminhos para enfrentar o problema

Thiago Monteiro

07/02/2026 às 09:57.

Professor e pesquisador Daniel Guimarães esteve no Amazonas e alertou para o avanço da violência contra mulheres e crianças, defendendo a prevenção como principal caminho de enfrentamento (Foto: Junio Matos/A CRÍTICA)

"Não consigo entender como as pessoas dizem que existe uma redução do feminicídio se, mesmo com uma lei que vai completar 20 anos, os crimes só aumentam", relatou o escritor e professor Daniel Guimarães, que possui amplo estudo no Brasil sobre casos de violência doméstica contra mulheres e também sobre crimes contra a dignidade sexual de crianças. Em passagem pelo Amazonas, o educador destacou, com exclusividade ao A Crítica, dados locais e nacionais sobre crimes contra o público infantil e feminino.

"Temos vivenciado um aumento vertiginoso no número de feminicídios. O Amazonas está entre o terceiro e o quarto lugar no ranking nacional desse tipo de crime. E, por mais que o Governo Federal tenha implantado programas de prevenção e redução, a sociedade ainda apresenta certa tolerância, fruto do machismo patriarcal que dominou o país por cerca de 300 anos. Uma lei com 20 anos não consegue, sozinha, derrubar esse tipo de situação", disse Guimarães.

Segundo ele, os brasileiros são criados sob a pedagogia da violência, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, onde a punição física ainda é recorrente. "Crescemos ouvindo frases como: 'você vai levar uma surra para aprender'. Isso está enraizado no nosso cotidiano desde a infância e, por isso, infelizmente, o Brasil é o terceiro país com mais casos de violência contra crianças", afirmou o pesquisador.

Guimarães também pontua que a colonização portuguesa foi trágica para a história brasileira, pois incentivou guerras contra etnias como os Mura, Munduruku e Sateré-Mawé, deixando inúmeras vítimas e promovendo atrocidades contra meninas e mulheres.

"Passei um período estudando essas guerras e essas etnias. Estive recentemente em Parintins, que era habitada por indígenas que retaliavam os portugueses. Desde a colonização, nossos rios viram muito sangue na Amazônia", destacou o professor.

O professor e escritor explica que o único caminho para reduzir os casos de feminicídio é a prevenção, por meio do diálogo com jovens e adolescentes, já que, cada vez mais cedo, meninas estão sendo assassinadas por seus primeiros namorados.

"Tenho desenvolvido pesquisas no Norte e Nordeste sobre meninas/adolescentes assassinadas, principalmente por integrantes de facções criminosas, que não aceitam separação ou o término de relacionamentos. Temos vivenciado e visto, no Amazonas e em Roraima, assassinatos de meninas. São crimes bárbaros e cruéis, com decapitação e esquartejamento. Precisamos tentar reduzir isso por meio da prevenção e do diálogo", comentou.

Daniel Guimarães ressaltou que vem escrevendo livros, entre eles "A luta contra a violência doméstica no Brasil: Um panorama histórico e atual" em parceria com Vitória Vieira, voltados à conscientização e levando informações a professores e aos profissionais da segurança pública, como policiais militares e civis, que precisam ser capacitados para lidar com esse tipo de violência.

"Já realizei palestras em Parintins e em Roraima. Também retornarei no período do Carnaval para desenvolver um trabalho em municípios como Maués, Tabatinga, entre outros, onde os casos de violência doméstica têm aumentado", frisou.

Obra "A luta contra a violência doméstica no Brasil: Um panorama histórico e atual", escrita por Daniel Guimarães em parceria com Vitória Vieira, reúne estudos e análises sobre o cenário da violência no país. Foto: Junio Matos/A CRÍTICA

Conforme informações do professor Daniel Guimarães, somente em Manaus, no último ano, foram registradas mais de 10 mil solicitações de medidas protetivas de urgência para mulheres (número confirmado pela Polícia Civil do Amazonas, que chega aos dados de 12 mil casos desta natureza).

"É um n
úmero muito alto para uma metrópole. No interior do estado, houve um aumento superior a 36% nos casos de violência contra a mulher. A violência doméstica não tem classe social: temos acompanhado casos envolvendo policiais e advogados, profissionais que deveriam combater esse tipo de crime, que cometeram violência e hoje estão no sistema prisional do Amazonas", informou.

Machismo

Para Guimarães, o sentimento de posse, a falta de diálogo, empatia e o machismo são fatores determinantes para os casos de feminicídio e violência contra mulheres no ambiente familiar.

"Existe uma frase que sempre uso em minhas palestras: 'Onde não há diálogo, há violência'. Em qualquer relação, intrafamiliar, afetiva, casamento ou namoro, independentemente de gênero, se não houver diálogo, haverá violência. É no diálogo que se vencem as diferenças. Essa violência é o ápice do machismo e do egoísmo, quando as pessoas acreditam que podem dominar o corpo da mulher. Durante 300 anos, isso esteve presente nos livros de história e na escravidão, marcada por extrema violência", afirmou.

Cárcere privado

Entre os estudos realizados por Daniel Guimarães em Roraima, o pesquisador identificou crimes graves de cárcere privado e abusos sexuais contra mulheres venezuelanas.

"Minha primeira ida a Roraima foi há 15 anos, quando já desenvolvia trabalhos sobre violência doméstica. O estado sempre esteve entre os que apresentam altos índices de violência sexual contra crianças e adolescentes, mas a imigração venezuelana trouxe situações ainda mais graves, como a exploração sexual de mulheres venezuelanas mantidas em situação de trabalho forçado, cárcere privado e abusos dentro de lares de criminosos", concluiu.

Durante entrevista ao A CRÍTICA, Daniel Guimarães destacou dados sobre feminicídio no Amazonas e defendeu o diálogo e a educação como instrumentos centrais de prevenção. Foto: Junio Matos/A CRÍTICA

Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP)
mostram que o Amazonas apresentou a menor taxa de feminicídios do país em 2025. No período, investimentos do Governo do Amazonas garantiram atuação firme das forças de segurança, resultando também na maior redução nacional desse tipo de crime: 31%.

Segundo o MJSP, em 2025, a taxa de feminicídio no estado foi de 0,46 para cada 100 mil habitantes, abaixo da média nacional, que ficou em 0,69. Em números absolutos, o Amazonas registrou 20 casos em 2025, o menor número desde 2021.

De acordo com o Atlas da Violência 2025, entre 2022 e 2023, o número de homicídios de mulheres no Brasil cresceu 2,5%. A média nacional chegou a 10 mulheres mortas por dia. Já os casos de feminicídio aumentaram 26% no Amazonas entre 2023 e 2024, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Manifestação em Manaus cobra o fim do feminicídio e reforça a mobilização social contra a violência e a retirada de direitos das mulheres. Foto: Arquivo/AC/Junio Matos

No dia 9 de dezembro de 2025, Izabel Cristina Lopes Simplício foi encontrada morta no quilômetro 20 da rodovia AM-010, no ramal Matrinxã, comunidade Lago Azul, zona Norte de Manaus. Segundo a polícia, a vítima foi morta por espancamento e estrangulamento, além de apresentar perfurações nos olhos. O companheiro dela, José Brito, é apontado como autor do crime e teria enviado mensagens aos familiares confessando o assassinato.

Movimentação de equipes de resgate e segurança no ramal Matrinxã, na rodovia AM-010, onde Izabel Cristina Lopes Simplício foi encontrada morta em dezembro de 2025. Foto: Arquivo/AC/Nilton Ricardo/09/12/2025

No dia 24 de setembro de 2025, um homem de 43 anos foi preso por policiais civis pelos crimes de ocultação de cadáver da ex-companheira, de 32 anos, e posse ilegal de arma de fogo. O crime ocorreu no dia 22 de setembro, em Boca do Acre, município localizado a 1.028 quilômetros de Manaus.

No dia 28 de julho de 2025, a dona de casa Telma da Silva Rabelo Valente, de 31 anos, foi assassinada com mais de dez golpes de faca em sua residência, na rua Araruana, bairro Jorge Teixeira, zona Leste de Manaus. De acordo com a Polícia Militar, o marido da vítima, Tiago dos Santos Silva, é apontado como autor do crime.

Perícia no local onde a dona de casa Telma da Silva Rabelo Valente foi assassinada a facadas dentro da própria residência, na zona Leste de Manaus. Foto: Divulgação

No dia 30 de novembro de 2024, a assistente de marketing Nariane Caresto Garcia de Sena, de 24 anos, foi vítima de feminicídio no bairro Petrópolis, zona Sul de Manaus. A jovem foi assassinada com golpes de faca no pescoço e na cabeça, no Beco Gualter Batista. Segundo a Polícia Militar, o ex-companheiro da vítima, Rosinaldo Kennedy, de 20 anos, foi o autor do crime e acabou ferido com dois tiros nos joelhos após a ação.

Corpo de Nariane Caresto Garcia de Sena, de 24 anos, é removido do local do crime no bairro Petrópolis, na zona Sul de Manaus, após ser vítima de feminicídio. Foto: Arquivo/AC/Paulo Bindá/30/11/2014

No dia 18 de junho de 2024, o motorista Jean Carlos, de 43 anos, matou a esposa a facadas e, em seguida, suicidou-se por enforcamento. O crime ocorreu no bairro Colônia Terra Nova, zona Norte de Manaus, dentro de um micro-ônibus da empresa Brecha.

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