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Com rio Negro em cheia, lixo expõe gargalos da reciclagem em Manaus

acritica.com By Lucas Motta 2026-02-22 842 words
Resíduos sólidos

Capital produz duas mil toneladas de resíduos por dia, recicla apenas 2% e cooperativas enfrentam falta de pontos de coleta, infraestrutura precária e descarte irregular da população

Lucas Motta

22/02/2026 às 17:54.

Coordenadora da Cooperativa Amar, Neide Lima. (Foto: Lucas Motta/A Crítica)

O rio Negro, em Manaus, segue enchendo, já ultrapassou a cota de 23,80 metros e o mês de fevereiro deve registrar chuvas acima da média de acordo com as previsões do Instituto Nacional de Meteorologia. A subida da água traz uma realidade amarga para a capital, o acúmulo de lixo descartado incorretamente. Dados da Prefeitura de Manaus indicam que o município produz duas mil toneladas de resíduo sólido por dia.

Há cinco anos, o papelão, a garrafa pet, as latas de cerveja ou refrigerante fazem parte da rotina de trabalho do Mauro Coelho. O catador é um dos membros da Cooperativa Amar, que funciona na zona Oeste de Manaus. A função dele é o de separar quais são os itens que podem ser reciclados e dividir eles de acordo com a finalidade. O serviço começa pela manhã e termina só à noite, leva cerca de dois dias para encher uma "bag" e o processo todo exige bastante atenção.

"No momento da triagem a gente classifica os materiais para poder voltar para indústria e comércio. Tem o plástico grosso, o fino o papelão, papel branco de caderno e outros materiais que podem ser recicláveis", explicou Coelho.

Depois da separação é a vez da prensa hidráulica entrar em ação, ela faz os chamados "fardos" de materiais únicos e cada um deles pode chegar a até meia tonelada. Por ser de composição diferente, o valor de venda varia, neste mês de fevereiro o pago para o papelão é de 80 centavos o quilo. A cooperativa não consegue vender direto para as indústrias ou grandes mercados de reaproveitamento, vendem para um atravessador que faz a ligação até o destino final, ou seja, perdem margem de lucro.

A coordenadora da cooperativa, Neide Lima, explicou que o trabalho é muito desafiador por causa da falta de cultura da população em fazer a separação dos resíduos. Os pontos de coleta existem, mas são poucos frente ao alto volume de lixo produzido pela cidade. O resultado disso é gasto de dinheiro, algo que varia de R$ 300 a R$ 500, por dia, com pagamento de combustível para os cooperados "caçarem" os resíduos sólidos pela rua.

A cooperativa atua há 20 anos na cidade, mas apenas há três foi oficializada. Com a ajuda de um projeto encabeçado pelo Ministério Público do Trabalho e Arquidiocese de Manaus, a Amar recebe o resíduo sólido de uma comunidade na zona Norte da cidade e promove palestras sobre a preservação e o impacto econômico e ambiental da reciclagem.

"É a questão do cuidado com as plantas, cuidado com o local onde você está, com os resíduos e como você faz o descarte disso, também estamos freando o uso de plásticos dentro das paróquias", comentou o frei Paulo Xavier, coordenador da Comissão da Ecologia Integrada da Arquidiocese.

O Brasil possui, desde 2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), sancionada no dia 2 de agosto daquele ano. Ela regulamenta o gerenciamento do lixo e nasceu para dar fim aos "lixões".

Entre as suas diretrizes, existe a modalidade de parceria público / privada, algo que a cooperativa cobra do município de Manaus.

Através de nota, a Secretaria Municipal de Limpeza Urbana informou que o executivo "desenvolve uma política de gestão de resíduos sólidos que inclui parcerias e cooperação com associações e cooperativas de catadores, reconhecendo esses trabalhadores como protagonistas da sustentabilidade, da economia circular e da inclusão social".

O posicionamento também destacou que a atuação da secretaria envolve apoio institucional, integração dos catadores às ações de coleta seletiva e educação ambiental, além do fortalecimento da cadeia da reciclagem no município de uma forma que essas parcerias contribuem para a redução do volume de resíduos destinados ao aterro, geram trabalho e renda e ampliam o impacto ambiental positivo em Manaus.

Mesmo com essa integração, apenas 2% do lixo na capital é reciclado. Iniciativas como a da Amar tentam ampliar esse tímido retorno e promover uma mudança em cadeia na cidade para que a forma como os manauaras lidam com os resíduos possa ser pautada na conscientização. Pesquisas recentes da Fiocruz, por exemplo, já identificam a presença de microplásticos na Amazônia. O rio Amazonas é o segundo mais poluído por plástico no mundo, contribuindo com até 10% de todo o lixo plástico que chega aos oceanos. Os dados são do estudo coordenado pela Fiocruz, em parceria com o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá

"Se hoje a gente tem, em média, 300 a 400 toneladas por mês de resíduos coletados com a nossa operação precária, imagina se tivéssemos infraestrutura adequada. Iríamos tirar esse prejuízo do meio ambiente que hoje a gente vê nossa cidade afundando em resíduos", disse Neide Lima.

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