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Carnaval: Elogio de um desfile corajoso | Outras Palavras

outraspalavras.net By Leandro Rezende 2026-02-23 1170 words
Carnaval: Elogio de um desfile corajoso

Rebaixada no carnaval carioca, escola que aludiu a Lula agitou a Sapucaí; houve vaias nos camarotes, mas muitos aplausos nas arquibancadas populares. Perseguidos, sambistas fizeram jus à própria música e podem entrar na história – como o próprio homenageado

Publicado 23/02/2026 às 17:04 - Atualizado 23/02/2026 às 17:10

Título original:Quanto vale entrar para a história?

Esta foi a pergunta feita pela escola de samba Acadêmicos de Niterói em uma postagem em seu Instagram após o resultado da apuração do desfile das escolas de samba do Grupo especial do carnaval do Rio de Janeiro de 2026, resultado que rebaixou a Acadêmicos de Niterói.

Com o enredo "Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil", a escola conta a história da vida de Luís Inácio Lula da Silva, sua trajetória desde retirante nordestino que emigra para São Paulo enquanto "terra prometida", onde torna-se operário, sindicalista e uma das principais vozes contra a ditadura empresarial-militar, até sua chegada à presidência da república. Uma história que escapa à romantização habitual, de caráter meritocrático, devido às contradições que envolveram a história política de Lula, principalmente a partir de um processo de Lawfare conhecido como "Operação Lava-jato", que impediu Lula de concorrer às eleições de 2018 através da decretação de sua prisão. Impedimento que contribuiu para a eleição de um projeto de extrema-direita, cujo verniz neofascista vinculou-se a uma pauta de costumes neoconservadora e a uma pauta econômica neoliberal.

O enredo trazido pela escola de samba relaciona a ascensão, a queda e a redenção de Lula a Mulungu, entidade que na simbologia das religiões afro-brasileiras representa uma memória de dor e resistência que se relaciona dialeticamente com o renascimento, a redenção: com a esperança, a esperança da classe trabalhadora brasileira de uma vida mais digna. Este ponto é enfático, pois nele situa-se também a trajetória da escola Acadêmicos de Niterói desde a escolha, a construção e a publicização do enredo, ao desfile e sua apuração na Sapucaí.

Em nota oficial da escola de samba em seu Instagram, a Acadêmicos de Niterói denunciou as investidas contra a realização de seu desfile, relatando as dificuldades enfrentadas pela escola de samba em todo seu processo carnavalesco. Investidas políticas e jurídicas que foram desferidas publicamente por figuras da direita e extrema-direita assim como por seus apoiadores em redes sociais. Segundo a retórica trazida pela direita e extrema-direita, o desfile da escola de samba seria "político", sendo interpretado como uma propaganda política do presidente Lula para as eleições presidenciais de 2026.

Por mais que a arte, por "essência", seja política, na maneira como, em seu conteúdo e forma, denuncia, confronta, contradiz a realidade e expõe suas mazelas sociais, suas desigualdades, suas injustiças – Theodor W. Adorno, em sua Teoria Estética, define a obra de arte como "antítese da realidade social" –, a obra de arte prescinde à politização, pois, sua pretensão, por princípio, não é política ou politizadora. A politização ocorre no contato do sujeito observador com a obra, na maneira como o conjunto de representações fornecidos pela obra suscita um posicionamento do indivíduo diante daquilo que é denunciado e confrontado pela obra. Ou seja, a politização fornecida pela obra de arte é a posteriori. Uma obra que traz consigo, de forma a priori, uma pretensão política, a partir de seu artífice, o sujeito produtor, sabota seu principal fim: ser arte, tornando-se facilmente (mais) uma mercadoria, podendo até servir ao oposto daquilo que propõe sua mensagem, para a despolitização.

É neste sentido que os desfiles das escolas de samba, como manifestações artístico-estéticas são alegóricos e não políticos. Qualquer pretensão política invalida o conteúdo artístico da obra. A alegoria é uma narrativa que fornece um conjunto de imagens para contar uma história. As formas de representação fornecidas pela alegoria são pantomimas. As imagens fornecidas na alegoria não pretendem representar uma verdade ou imprimir uma verdade, mas podem suscitar ou desvelar uma verdade no/do sujeito observador. Por isso a arte é política, dado que não é a presença de um conteúdo de cunho político que irá fazer com que uma obra seja política, assim como a história de um personagem que teve ou tem uma vida política não faz com que a representação artística de sua história seja política.

Se, como explicamos acima, o enredo da Acadêmicos de Niterói não foi político, o enredo de toda a trajetória do processo carnavalesco da escola foi politizado por panteões e personagens da direita e extrema-direita brasileiras em suas investidas policialescas e farsescas – sem qualquer conotação artística, aliás. A única cena política que compôs o desfile da escola na Sapucaí foi a contradição entre as vaias nos camarotes, cujo preço da entrada variou entre R$1.600,00 – quase um salário mínimo! – e R$17 mil, e os aplausos das arquibancadas, que contou com ingressos de R$10,00 a R$230,00. Uma contradição que não se resume à ojeriza de um grupo e à apreciação do outro, mas que revela uma verdade indelével sobre a sociedade brasileira, em suas históricas contradições sociais e sua desigualdade estrutural. Qualquer relação com a casa-grande e a senzala não é mera coincidência: um enredo existente desde o período colonial, associado ao racismo estrutural entre brancos que vaiam e negros que aplaudem uma história de um ex-retirante e ex-operário que representa a esperança de milhões de pobres trabalhadores.

Contudo, a principal cena política de todo o enredo que marcou a história da Acadêmicos de Niterói no carnaval do desfile das escolas de samba do Grupo especial do Rio de Janeiro em 2026 foi o resultado de seu rebaixamento. Por mais que o corpo de jurados tenha utilizado dos critérios técnicos da apuração para julgar a escola e seu desfile, o resultado negativo que culminou no rebaixamento da Acadêmicos de Niterói foi político na maneira como uma expressão artística expôs as contradições da sociedade não apenas nas representações das alegorias de seu desfile, mas na verdade desvelada pelo conjunto da obra desde a publicização do enredo em homenagem à Lula ao desfile: a oligarquia política e econômica brasileira tem ojeriza a qualquer história de ascensão social, mesmo que tímida, entre a classe pobre trabalhadora. Essa oligarquia tem repulsa a qualquer pessoa ou personagem que represente esperança e uma vida digna para a população pobre trabalhadora.

O rebaixamento da Acadêmicos de Niterói não é simplesmente um acontecimento como consequência do resultado da apuração, mas o ato final de um enredo sobre como a oligarquia política e econômica brasileira e sua visão de mundo excludente e aporofóbica quer destruir toda história que represente a classe pobre trabalhadora – algo reafirmado pela comemoração dos panteões e personagens da direita e extrema-direita em relação ao rebaixamento da escola.

A Acadêmicos de Niterói não caiu, não está derrotada: encarnou Mulungu, fazendo jus ao seu enredo, à sua história. Parafraseando a sabedoria ancestral e popular trazidas e desfiladas pela escola, "a arte não é para os covardes".

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