A
28/30
Excellent

Por que o homem moderno não é o topo da evolução

mais.opovo.com.br By Catalina Leite 2026-02-20 2103 words
Episódio 4 Além do Homo sapiens: por que o homem moderno não é o topo da evolução Conhecer a história da evolução humana implica refletir sobre a humanidade como natureza, sobre o poder da cultura e da empatia e por que não faz sentido imaginar os Homo sapiens como mais evoluídos que outras espécies humanas Episódio 4

Além do Homo sapiens: por que o homem moderno não é o topo da evolução

Resumo Diferente da imagem popular de uma "escada" de progresso, a evolução humana é composta por ramificações complexas, nas quais várias espécies coexistiram e se transformaram de acordo com o ambiente, sem uma hierarquia de "melhor" ou "pior". O gênero Homo é definido, principalmente, pelo bipedalismo e pela expansão do cérebro, características que nos distinguem de ancestrais como os Australopithecus e que permitiram o desenvolvimento de habilidades como a fabricação de ferramentas de pedra.O domínio do fogo pelo Homo erectus e a transição para uma dieta carnívora (inicialmente como carniceiros) foram cruciais para fornecer a energia necessária ao crescimento do cérebro e permitir as primeiras grandes migrações para fora da África.Houve convivência e até cruzamento entre espécies, como entre Homo sapiens e neandertais, além de uma seleção evolutiva voltada para a empatia e sociabilidade, impulsionada por desafios biológicos como a complexidade do parto.

Quando os operários da pedreira Forbes, em Gibraltar, encontraram os ossos de um neandertal, pensaram ser remanescentes de uma vítima de um ataque de urso. O ano era 1848, Charles Darwin sequer havia publicado A Origem das Espécies, então nada indicava àqueles homens a preciosidade que tinham em mãos.

Eles entregaram os achados — uma calota craniana, dois fêmures, três ossos do braço direito, dois do esquerdo, parte do ilíaco esquerdo e fragmentos de uma omoplata e costelas — ao naturalista Johann Carl Fuhlrott, que, ao lado do anatomista Hermann Schaaffhausen, notou as diferenças anatômicas daquele humano misterioso às nossas.

Anos antes, em 1829, o geólogo belga Philippe-Charles Schmerling explorava a gruta de Engis quando deparou-se com remanescentes de animais extintos e três crânios humanos — dois adultos e um jovem. Em 1834, ele publicou a descoberta como "evidência de que humanos viviam na Terra muito antes dos 6 mil anos bíblicos", como descreve William Ashworth Jr, professor de História da Universidade de Missouri – Kansas City.

Em 1864,
esses homens viriam a saber a quem pertenciam aqueles vestígios: ao Homo neanderthalensis. Foi a primeira vez que o homem moderno percebeu que não era absoluto. Havia outros representantes do gênero Homo na história da Terra, e a Teoria da Evolução de Darwin, publicada em 1859, viria a explicar o porquê.

Infelizmente, as descobertas não vieram sem preconceitos. Ainda que diferentes raças humanas não existam biologicamente, a biologia e a evolução foram instrumentalizadas para hierarquizar os seres humanos.

Exemplo é a exposição "A Árvore Genealógica do Homem", de William K. Gregory no Museu Americano de História Natural, em 1924. Nela, chineses, africanos, aborígenes australianos e os caucasianos americanos são representados como diferentes ramificações da evolução humana — uma mentira, já que somos todos Homo sapiens.

Mesmo com a superação dessa visão racista, a evolução humana segue sendo mal-interpretada popularmente, colocando o Homo sapiens como o objetivo final do processo evolutivo, uma espécie de corpo perfeito a ser alcançado.

"Quando a gente fala de evolução humana, tem aquela clássica imagem do macaco se transformando no humano, como se (a dinâmica evolutiva) fosse uma escada", cita Ana Carolina Brito, bioantropóloga pela Universidade Federal do Pará (UFPA).

"A gente
tem que desconstruir essa imagem evolutiva. Porque, na verdade, ela não é uma escada: são ramificações. Inclusive muitas dessas espécies humanas coexistiram."

Ocorre que evolução é uma palavra-pegadinha do nosso vocabulário. Comumente usada como sinônimo de "melhora" e "progresso", a evolução é mais complexa e nada hierárquica. Na ciência, evolução é transformação — nem melhor, nem pior; nem boa, nem má; tudo depende do ambiente e das condições adaptativas."Esse tipo de ciência (o estudo da evolução humana) destrói o mito de que um é melhor que o outro", defende a pesquisadora. Por isso, nada como mergulhar na história da nossa espécie e conhecer as dezenas de outras que compõem o gênero Homo, a quem temos a honra de chamar de ancestrais.

Nós e nossos ancestrais somos definidos por, pelo menos, duas características cruciais: o bipedalismo e a expansão do cérebro. É isso que nos difere de parentes como os gorilas, os chimpanzés e os australopithecus, representados pela famosa Lucy (Australopithecus afarensis).

"Os hominíneos são os humanos modernos, as espécies humanas e os seus ancestrais em comum. Mas os australopithecus não entram na categoria porque, apesar de serem bípedes, eles ainda eram arbóreos", explica Ana Carolina. "Também tem a questão do cérebro. O cérebro deles era muito pequeno", delimita a pesquisadora.

Os primeiros representantes da nossa linhagem na Terra são os Homo rudolfensis e os Homo habilis. "Não tem um consenso científico de qual foi o primeiro. Eles coexistiram, e alguns cientistas defendem que o H. rudolfensis é uma variação do H. habilis", contextualiza Ana Carolina. "Mas eu cito o rudolfensis para as pessoas saberem que ele existiu, podemos dizer que talvez fosse um primo (na dinâmica evolutiva) do habilis."

Ambos conviveram na África há cerca de 2 milhões de anos. "Ele era
o homem habilidoso, o nome dele faz alusão a essa habilidade de fazer ferramentas de pedra lascada", descreve a pesquisadora.

Vale lembrar que o uso de ferramentas não é exclusivo dos seres humanos. Há registros de macacos-prego (Sapajus sp.), por exemplo, usando pedras para quebrar alimentos. Na Serra da Capivara, evidências indicam que esse uso já ocorre há 3 mil anos — e, com o passar do tempo, o tamanho das pedras usadas tem aumentado.

"Essa variação de tamanho das pedras é uma coisa nova para primatas não humanos", explicou o primatólogo Tiago Falótico, doutor em Psicologia Experimental (Comportamento Animal), ao Jornal da USP. "Nunca tínhamos identificado no registro arqueológico. Conhecemos isso para humanos, mas agora mostramos que os macacos mudaram a utilização das ferramentas, variando seus tamanhos, ao longo de milhares de anos."

Foi o uso do fogo que mudou tudo. O crédito dessa inovação vai para o Homo erectus, que surgiu há aproximadamente 1,9 milhão de anos.

Com capacidade craniana bem grande — potencializada pelo manejo do fogo, que garantiu uma dieta diversa — e estritamente bípedes, eles foram os primeiros a andar completamente eretos. Eles também foram os primeiros a explorar outras regiões do mapa mundi, migrando para a Ásia.

A saída da África significou mais influências ambientais na diversidade humana. Enquanto o Homo erectus migrou para a Ásia, o Homo heidelbergensis foi para a Europa, entre 700 mil e 250 mil anos atrás.

Exposto
a condições climáticas mais amenas, o H. heidelbergensis apresentava adaptações para o frio: eram mais baixos, o que evitava a perda de calor. Enquanto espécies como o H. ergaster e o H. erectus alcançavam até 1,80 metro de altura, o heidelbergensis não passava do 1,70 m.

"Ele possuía um cérebro grande, e é considerado um ancestral em comum tanto do neandertal quanto nosso, do Homo sapiens", comenta a bioantropóloga Ana Carolina.

Enquanto o Homo sapiens seguia na África, o Homo neanderthalensis ocupava cantos frios da Europa e da Ásia. Eram mais baixos para reter calor, mas também confeccionavam roupas e "tinham uma cultura de confeccionar ferramentas bastante complexas e sofisticadas".

Quando os H. sapiens saíram da África, encontraram os neandertais na Eurásia e conviveram por muito tempo — inclusive, houve cruzamento entre as espécies, a ponto de cerca de 2% do genoma neandertal ser encontrado em europeus e asiáticos.

"O sapie
ns tinha linguagem simbólica complexa, raciocínio abstrato e simbólico também, criação de tradições e modos de vida mais complexos, com uma consciência reflexiva", descreve Ana Carolina. Ocorre que esses traços não são, necessariamente, exclusivos da nossa espécie.

Existem diversos fatores que levam espécies a extinções, sem implicação de uma espécie ser melhor ou pior que outra. No caso d
os neandertais, há várias hipóteses.

Mudanças climáticas, doenças, assimilação pelos humanos modernos, e até mesmo o fato de terem um contingente populacional pequeno. "Os neandertais eram nômades, então eles não tinham uma diversidade genética muito grande, pela

Isso não significa que eles eram menos capazes de linguagem simbólica e auto reflexão, por exemplo. "Inclusiv
e, alguns neandertais tinham uma característica genética, também encontrada na gente, que indica a capacidade de linguagem", indica Ana Carolina.

"Como houve esse cruzamento entre as espécies, havia também um senso de comunidade, e provavelmente de linguagem. E a gente sabe que linguagem não é falar, né? Então é muito mais complexo e abstrato do que a gente pensa", continua. "Não necessariamente essas outras populações não refletiam. É por isso que a inteligência em si, essa capacidade cognitiva, é muito relativa. Não tem hierarquia, entende?"

Essa relação de comunidade também é reforçada pelo arqueólogo Lucas Henriques Viscardi no artigo A história evolutiva dos hominíneos: do bipedalismo ao simbolismo. Ele descreve como, durante o processo de seleção do bipedalismo, o canal de parto ficou estreito, criando "uma das grandes cicatrizes evolutivas que nos deparamos hoje: o processo de parto".

"Essa problemática provavelmente implicou na seleção de indivíduos mais sociais e empáticos, que assistissem as gestantes durante o processo de parto", indica.

"Nossa forma de dormir, alimentar, abrigar-nos do frio, socializar e pensar são todos frutos de uma longa e complexa história evolutiva entre genética e cultura que ainda há muito que nos surpreender", conclui Viscardi.

No meio de toda a história evolutiva da humanidade, vale ressaltar a importância de espécies não-humanas para chegarmos até aqui. "Quando a gente fala de espécies de humanos, a gente esquece dos outros não-humanos que estavam ali caminhando junto também", reflete Ana Carolina.

"Muitos não-humanos foram necessários para que a gente chegasse até aqui. Em relação à alimentação, em relação ao deslocamento, em relação a aprender com os não-humanos certos tipos de atividades…", pontua.

Um exemplo é o próprio consumo de carne. Um dos influenciadores para a expansão do cérebro dos hominíneos foi a mudança estrutural dos crânios, impulsionada pela mudança na nossa dieta. Enquanto alguns dos nossos antepassados tinham uma dieta baseada em raízes e tubérculos, exigindo uma musculatura das mandíbulas mais robusta, outros começaram a comer carne.

Isso exigia menos robustez dos músculos da mandíbula, literalmente garantindo mais espaço na cabeça para o desenvolvimento do cérebro. A expansão também foi possível pela energia extra adquirida da carne, como explica o arqueólogo Lucas Henriques Viscardi.

Acontece que nós não somos caçadores desde sempre. Antes de tudo, nós éramos carniceiros oportunistas: comíamos a carne que sobrava da caça de outros animais. "As espécies habilíneas (Homo habilis e Homo rudolfensis) [...] alimentavam-se das sobras de caças de outros animais, como os felinos, e competiam por esse recurso com hienas e abutres", indica Viscardi.

"(Refletir sobre esses aspectos) mostra que a relação entre humanos e não-humanos não era de subserviência, mas de troca", comenta a bioantropóloga Ana Carolina.

Para ela, o conhecimento arqueológico e antropológico é essencial para a compreensão do lugar dos humanos na Terra. Não como dominadores, mas como equivalentes e conviventes. Leia mais sobre a relação entre humanidade e o planeta na entrevista da filósofa Alyne Costa ao O POVO+.

"Desde 2018, quem é pesquisador tem que combater fake news, tem que combater o progresso de uma devastação que não é só da terra, mas uma devastação humana também. É a destruição dos não-humanos e a precarização e a subvalorização dos humanos", lamenta.

"O (Pierre) Bourdieu fala que a sociologia é um esporte de combate. Eu acho que a ciência é um esporte de combate", parafraseia Ana Carolina. "E a antropologia me ensinou que o olhar do outro também é válido. Então, talvez, enxergar o outro com mais alteridade, com mais empatia, e enxergar os não-humanos também como seres sensíveis (pode nos ajudar a combater os preconceitos e problemas sociais da atualidade)."

ASHWORTH, William B. Philippe-Charles Schmerling. Linda Hall Library, 2019. Acesso em: 30 de janeiro de 2026.

CANQUERINO, Marcelo. Ferramentas de pedra são usadas por macacos-prego há 3 mil anos. Jornal da USP, 2019. Acesso em: 30 de janeiro de 2026.

PRICE, Michael. Africans carry surprising amount of Neanderthal DNA. Science, 2020. Acesso em: 2 de fevereiro de 2026.

TRINKAUS, Erik. Gibraltar remains. Encyclopedia Britannica, 2026. Acesso em: 30 de janeiro de 2026.

VISCARDI, Lucas Henriques. A história evolutiva dos hominíneos: do bipedalismo ao simbolismo. Evolução Biológica: da pesquisa ao ensino. Porto Alegre, RS: Editora Fi, p. 61-84, 2017.

SMITHSONIAN. Homo neanderthalensis. Human Evolution at the Smithsonian Institute, 2009. Acesso em: 30 de janeiro de 2026.

Série de reportagens aborda descobertas arqueológicas pelo olhar científico, cultural e de desenvolvimento socioeconômico pelo Ceará, Nordeste, Brasil e Mundo.

Tap highlighted text for details

Source Quality
Perspective
Context
Neutrality
Transparency
Logic