B
24/30
Good

Os interesses relacionados às stablecoins e às Moedas Digitais de BCs, por Júlia Leal

jornalggn.com.br By Finde; GEEP 2026-02-25 1031 words
Os interesses estratégicos relacionados às stablecoins e às Moedas Digitais Emitidas por Bancos Centrais

por Júlia Leal

No mundo contemporâneo, o dinheiro vem se reformulando para acompanhar os avanços tecnológicos cada vez mais presentes no cotidiano dos cidadãos. Nesse contexto, fatores tecnológicos e geopolíticos contribuem para o surgimento de novas formas de ativos digitais, sendo os principais tipos as criptomoedas privadas (como o Bitcoin), as stablecoins e as Moedas Digitais Emitidas por Bancos Centrais (Central Bank Digital Currency, cuja sigla em inglês é CBDC). As criptomoedas são descentralizadas, ou seja, não possuem a intermediação de uma autoridade monetária central. Por conseguinte, não estão sujeitas à regulação e apresentam maior volatilidade, além de serem mais propensas a crimes cibernéticos. As stablecoins são emitidas de forma privada, mas são atreladas a uma moeda nacional. Ocorre que os emissores de stablecoins utilizam tokens com ativos de curto prazo denominados em alguma moeda fiduciária, sendo a maioria atrelada ao dólar americano.

Já as CBDCs possuem uma centralização, pois são emitidas pelos bancos centrais. Com isso, apresentam menor volatilidade, não envolvem riscos de solvência e estão sujeitas a um aparato regulatório. De forma geral, o objetivo das CBDCs é contribuir para a modernização do sistema financeiro, acompanhando o cenário contemporâneo de digitalização das finanças. Dentre as vantagens no uso de CBDCs, estão a possibilidade de inclusão financeira, redução dos custos de transação e combate à circulação de dinheiro falsificado. Apesar do foco das CBDCs ser a priori para uso doméstico, a maior adesão ao movimento de desdolarização poderá impulsionar a utilização de moedas digitais também em sistemas de pagamentos internacionais. Neste cenário, as ações deliberadas adotadas sob a segunda gestão de Donald Trump, como a imposição de sanções e o chamado "tarifaço", são determinantes para as oscilações geopolíticas observadas ao longo do ano de 2025.

Diversos países estão conduzindo projetos-piloto para introduzir suas CBDCs, como França, Canadá, China, Índia. Quatro países já lançaram integralmente sua moeda digital: Nigéria (e-Naira), Bahamas (Bahamian sand dollar), Jamaica (Jam-Dex) e Cazaquistão (Tenge digital). A China possui algumas vantagens nesta corrida, como o predomínio de meios eletrônicos e digitais em suas transações, a existência de empresas líderes de tecnologia e telecomunicações e, conjuntamente, o papel forte do Estado no planejamento estratégico. No período recente, houve um significativo avanço no desenvolvimento na digitalização dos pagamentos na China, o que resultou na maior demanda por tecnologias, no avanço da economia digital e na queda acentuada das transações envolvendo dinheiro físico. Em síntese, a China é uma das economias pioneiras na elaboração de um projeto para a criação de sua própria CBDC, conhecida como e-CNY. A versão digital da moeda fiduciária da China, emitida pelo People's Bank of China (PBC), utiliza tokens digitais programáveis e possui todas as funções básicas da moeda, como meio de troca, unidade de conta e reserva de valor. Com efeito, a criação do e-CNY pode ser um importante vetor para aprofundar o processo de internacionalização da moeda chinesa.

Recentemente, em janeiro de 2026, a China fez um grande progresso na utilização de sua moeda digital ao permitir que bancos comerciais paguem juros sobre os saldos mantidos em carteiras eletrônicas de e-CNY, uma forma de integrar a moeda digital chinesa aos balanços dos bancos. A lista inclui bancos privados como WeBank e Mybank (subsidiária do Alipay), assim como os bancos públicos Industrial and Commercial Bank of China, Agricultural Bank of China, Bank of China, China Construction Bank. Para receber os juros, os agentes precisam passar por um rigoroso processo de identificação de identidade, uma medida utilizada no combate à lavagem de dinheiro.

Em fevereiro de 2026, Pequim proibiu a emissão não autorizada de stablecoins atreladas ao renminbi, tanto no mercado onshore quando no offshore. Observa-se que esta é uma estratégia para manter os ativos especulativos fora do sistema financeiro chinês, enquanto promove ativamente o uso de sua CBDC soberana. Em contrapartida, em julho de 2025, os Estados Unidos sancionaram a Lei GENIUS com o objetivo de criar uma estrutura regulatória para stablecoins atreladas ao dólar. Todavia, foi incluída uma cláusula que impede os emissores de pagarem qualquer forma de rendimento para os titulares. O setor bancário solicitou que esta proibição se estenda a plataformas de terceiros, enquanto grupos do setor de criptomoedas reagiram afirmando que, se tal fato ocorrer, poderia contribuir para a consolidação do poder dos bancos, enfraquecer a competitividade do dólar e criar oportunidades para o avanço da moeda digital chinesa (sobre o qual os juros passaram a incidir).

Vale notar que existem interesses financeiros e políticos por trás das stablecoins. Na campanha eleitoral dos Estados Unidos de 2024, o setor de criptomoedas gastou quantias colossais para obter apoio no Congresso e na Casa Branca, transformando Donald Trump em um entusiasta do setor. De fato, Trump se tornou um dos principais empreendedores em criptomoedas, prometendo alívio em investigações criminais e um arcabouço regulatório favorável. Vê-se, portanto, que a estratégia de Trump é promover a digitalização do dinheiro através do setor privado, pois não há um projeto para a criação do dólar digital, uma vez que existe uma estreita relação entre seus interesses particulares e as stablecoins atreladas à moeda estadunidense.

Júlia Leal – Doutora em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGE-UFRJ), Pesquisadora associada ao FINDE-UFF e Editora Assistente da Brazilian Keynesian Review (BKR)

Blog: Democracia e Economia – Desenvolvimento, Sustentabilidade, Finanças e Política

O Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (FINDE) congrega pesquisadores de universidades e de outras instituições de pesquisa e ensino, interessados em discutir questões acadêmicas relacionadas ao avanço do processo de financeirização e seus impactos sobre o desenvolvimento socioeconômico das economias modernas. Twitter: @Finde_UFF

O Grupo de Estudos de Economia e Política (GEEP) do IESP/UERJ é formado por cientistas políticos e economistas. O grupo objetiva estimular o diálogo e interação entre Economia e Política, tanto na formulação teórica quanto na análise da realidade do Brasil e de outros países. Twitter: @Geep_iesp

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

"Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN "

Tap highlighted text for details

Source Quality
Perspective
Context
Neutrality
Transparency
Logic