Kleber Mendonça: (Re)Imaginação pode ser Poder | Outras Palavras
Surgirá um sujeito coletivo capaz de medir forças com a soberania empresarial que nos encerra numa colônia penal planetária? Ele ainda não tomou forma, mas talvez a obra do cineasta pernambucano ofereça uma prefiguração promissora
Publicado 25/02/2026 às 13:58 - Atualizado 25/02/2026 às 14:54
O cineasta Kleber Mendonça Filho só pode ser plenamente entendido em seu impulso e transbordamento glocal[1]. O tempo-espaço que condiciona seu olhar é uma periferia da periferia, em que graça um cosmopolitismo revirado, assumido na corrosão do cosmopolitismo raso que o subordina. Por isso, são tantas e tão contraditórias as camadas de identificação entranhadas neste Recife que é, ao mesmo tempo, cenário e personagem de seus filmes.
Nesta cidade cindida, o cineasta recompõe trajetos ruinosos e escapes labirínticos e nos induz a saltos para dentro, trazendo à luz recônditos acervos para fazer frente a uma espiral que não para de dilapidar referentes sociais, culturais e cognitivos. A mensagem liminar é que, nos marcos de imaginários coletivos irredimíveis, nada está definido. Isso, em tempos de sobredeterminação financeira e midiática, é bom augúrio. Ao invés de saudosismo, para Kleber Mendonça Filho, lembrar significa tensionar, romper e superar o tempo mercantil: memória e devastação têm grandezas inversamente proporcionais.
Lembremos da "grande recusa" de 1968, também de como ela foi relativizada na forma de uma espécie de "espasmo geracional". Pois é essa mesma recusa, irredutível e de longa duração, que comparece nos filmes do cineasta pernambucano, sempre revolvendo remansos de sociabilidade desinteressada e transgressiva. É vida socializada e desejada por muitos corpos, mãos e mentes, retrospectivamente.
No Agente Secreto (2025), a liberação segue na contramão da ditadura empresarial-militar de 1964, compilando vitórias clandestinas, secretas (e reveladas) neste sentido. Em Retratos Fantasmas (2023), as ausências deixam rastros e permanências registradas em foto, película, texto e delírio. Em Bacurau (2019), amar e lutar desmedidamente, sem mais nada a perder diante do cerco privatista e genocida. Em Aquarius (2016), e O Som ao Redor (2012) perfilam-se laços telúricos feitos, desfeitos e refeitos durante à implosão-explosão urbana do Recife nas últimas décadas.
Em toada similar ao mangue beat e de seu maracatu atômico/molecular: do caos à lama, um homem roubado, e cidades roubadas, não mais se enganam. A origem não é o mal, e sim o medo dela. Na colônia penal global em que povos indisciplináveis são encerrados, o futuro precisa ser incessantemente socavado. E no entanto, de novo brota. Imersos, pois, no que fomos e podemos ser, traçamos espaços de autodeterminação em meio aos vazios e agentes da desaparição.
Vale retomar a expectativa que despontava no horizonte dos novos movimentos sociais após a primeira crise do neoliberalismo nos anos 2000. Surgiria um sujeito coletivo em condições de medir forças com a soberania empresarial que se absolutizava com a globalização econômica? Paulo Arantes[2] retorquia de forma certeira: "nosso drama é outro, e a política de que carecemos também. A saber: [esse sujeito] ainda não se apresentou em cena – e como poderia?" Como poderia, podemos agregar hoje, na vigência de uma plutocracia belicista e mistificadora que vai implodindo as chamadas instituições democráticas e a própria ideia de um direito internacional?
É certo que o sujeito ainda não tomou forma, mas ensaios e prefigurações promissoras dele estão em cartaz.
Notas
[1] Entendido aqui como intersecção de dinâmicas horizontais e verticais, de fixos e fluxos, do universal e do particular.
[2] Boletim CEPAT Informa, n. 137, set. 2006.
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"Paulo Arantes[2] retorquia de forma certeira"
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"Kleber Mendonça Filho's work prefigures collective resistance to corporate sovereignty"
Source: Author's analysis of filmmaker's work Named secondary
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"A collective subject capable of challenging corporate sovereignty has not yet formed"
Source: Reference to Paulo Arantes' academic work Named secondary
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (6)
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P1
"Kleber Mendonça Filho is a filmmaker from Pernambuco"
Factual -
P2
"The article references specific films from 2012-2025"
Factual -
P3
"The article mentions the 'great refusal' of 1968"
Factual -
P4
"Memory and devastation causes have inversely proportional magnitudes"
Causal -
P5
"Corporate-military dictatorship of causes 1964 compiled clandestine victories"
Causal -
P6
"Financial and media overdetermination causes creates irredemable collective imaginaries"
Causal
Claim Relationships Graph
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=== Propositions === P1 [factual]: Kleber Mendonça Filho is a filmmaker from Pernambuco P2 [factual]: The article references specific films from 2012-2025 P3 [factual]: The article mentions the 'great refusal' of 1968 P4 [causal]: Memory and devastation causes have inversely proportional magnitudes P5 [causal]: Corporate-military dictatorship of causes 1964 compiled clandestine victories P6 [causal]: Financial and media overdetermination causes creates irredemable collective imaginaries === Causal Graph === memory and devastation -> have inversely proportional magnitudes corporatemilitary dictatorship of -> 1964 compiled clandestine victories financial and media overdetermination -> creates irredemable collective imaginaries
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.